sexta-feira, 18 de maio de 2012

Batismo de fogo na noite escura

18.

"A ponte que dá acesso à estrada para Camaiore está destruída, senhor”, disse o sargento Nilson, olhando para o capitão Ernani com insistência. “E essa agora”,pensou o capitão Ernani, “sempre tem uma novidade ruim, e é esse sargento que vem me trazer”. “Destruída? Como, destruída? Uma hora atrás não estava destruída”. “Foi bombardeada, senhor, não temos como passar o rio”. O capitão Ernani sabia que Camaiore era uma cidade antiga, muito antiga. Do tempo dos romanos. E no latim ancestral, queria dizer Campus Maior, como explicou o general Zenóbio. Lá estava ela, lá longe, do outro lado do rio. Era uma coisa maciça e cinzenta, toda de pedra. Casas de dois andares rigorosamente iguais. Ruas estreitas e labirínticas. “Recebemos ordens de tomar Camaiore dos alemães. E o senhor, capitão Ernani, vai comandar o ataque”, disse Zenóbio. “Eles ocupam a cidade há mais de um ano. Entrar lá é entrar numa arapuca mortal. Mas isso todos já sabemos”. O rosto insondável do capitão Ernani escondia a angústia de estar dividido entre dois sentimentos: a euforia de ser indicado para a primeira verdadeira missão da FEB e o pavor legítimo de avançar contra uma fortaleza totalmente blindada, onde se ocultavam membros da 148, a famosa divisão que combatera na Rússia, na África e agora estava na Itália para interceptar a invasão aliada. “A ponte está destruída?”. “Foi bombardeio, capitão”. “A nado é que não vamos atravessar”. Claro que não, pensou o sargento Nilson, olhando para o capitão Ernani. A correnteza era muito forte, a profundidade ignorada e ali perto tinha acabado de explodir um projetil lançado por um canhão. Súbita sucessão de explosões assustou os brasileiros, que se encolheram contra o chão, atrás dos tanques, caminhões e jipes, atrás de árvores e de pedras. A primeira missão difícil começava difícil. O capitão mascava alguma coisa, o sargento olhava para ele. Será que esse capitãozinho está com medo? “Liguem para o pelotão de Engenharia”, disse o capitão, “precisamos de botes.” O sargento Nilson ficou observando o capitão falar ao rádio. Parecia calmo e incisivo, mas terminou com certa petulância. “Não sei como vão conseguir, mas consigam!”. Quase uma hora depois, três caminhões chegaram com barcos de borracha. Eram 12 e cabiam 12 homens em cada barco. A travessia começou no meio da tarde, quando o outono começa a ficar velho, e a brisa, mais fria. Os pracinhas desembarcavam na outra margem e corriam para a estrada, postando-se agachados nos dois lados da via. Os bombardeios caíam mais ao longe. “Acho que não perceberam ainda nossa presença nesta posição”, murmurou o capitão Ernani para o tenente Molina, agarrados ao bote inflável, que sacudia nas águas da corredeira. Desembarcaram e correram para a  argem da estrada esburacada. Deste lado do rio, a cidade de pedra parecia maior, mais ameaçadora. “Não vamos ficar parados, vamos indo”, ordenou o capitão ao tenente. “Faça o pessoal se mexer”. “Mas não vamos ter a proteção dos tanques, capitão”. “Certo, vamos sem proteção, tenente”. À medida em que a tropa transpunha o rio, a fila na estrada ia se tornando cada vez maior. Agora subiam uma lomba acentuada,   cansaço começava, as pernas doíam. Das casas de pedra na margem da estrada, apareciam cabeças de velhos, curiosas, tensas. Ouviam cantos de galos, algum balido de ovelha. O sargento Nilson levantou a mão. “Alto!”. O capitão se aproximou. “O que foi?” .“Minas, capitão”. Foi necessário esperar um engenheiro de minas. Pacientemente ele foi localizando as minas, marcando com fitas uma passagem segura. A aproximação do objetivo continuou, mais lenta ainda. Chegaram ao alto da lomba, olharam para trás. A fila estava enorme e desprotegida. Mas o pior era o que estava diante deles. A descida da lomba era abrupta, longa e toda esburacada. Terminava aos pés da cidade. Pedro Diax, Atílio e o Alemão olharam para o fim do declive com um arrepio de pavor. O capitão, o tenente e o sargento, sem abrirem a boca, pensavam o mesmo: vai ser a coisa mais maluca que já fiz na vida, mas, de um jeito ou outro, vamos ter de descer essa lomba e ir bater na porta de Camaiore. Foi quando ouviram o vozeirão de Zenóbio. “Então, moçada, por que estão aí parados?” Antes que o capitão tentasse uma resposta, Zenóbio falou: “Jipes. Quero jipes aqui, agora, todos os que puderem trazer”. Era um espanto um general estar ali, na primeira linha, prestes a avançar contra o inimigo entrincheirado. Mas Zenóbio tinha aquele estilo que era só dele, fazendo as coisas com um sorriso e mascando o charuto. Os jipes foram chegando. Tinham atravessado o rio em barcaças que a Engenharia construiu com rapidez. “Já vai escurecer”, disse Zenóbio, “e não vamos descer essa lomba a pé.” No primeiro jipe, subiram Pedro, Atílio, Alemão, Quevedo, o esclarecedor do pelotão, o negro Bandeira, gaúcho de Caçapava do Sul, o sargento Nilson, o tenente Molina e o capitão Ernani. O motorista era o Cego Aderaldo. “A toda velocidade!”, berrou Zenóbio, sinalizando com o braço a partida. O jipe arrancou. Pedrinho sentiu aquele frio inevitável no estômago, quando se desce uma rampa em alta velocidade. Todos se agarravam e mordiam o grito. O capitão fechou os olhos. “Alea jacta est!”, dissera Zenóbio, que andava com fumos intelectuais nas últimas preleções. Aí iam eles, como se estivessem num parque de diversões, numa montanha russa, descendo desamparadamente, ao encontro da mutilação, da loucura ou da morte. O Cego Aderaldo se agarrava ao volante e rezava. Zenóbio comandou mais uma partida. “Agora, vai!”. O segundo jipe partiu, com 10 dentro dele. Depois, o terceiro, o quarto. Iam chegando e se amontoando uns sobre os outros nas primeiras ruas, rolavam, deitavam-se no chão, ficavam imóveis, examinando se estavam com os ossos inteiros. Um jipe perdeu a estrada bem próximo deles e virou, com os soldados saltando para todos os lados. “Vejam se há feridos”, gritou o capitão Ernani, “chamem os padioleiros.” O capitão Ernani ficou de pé e empunhou seu rifle. Camaiore estava completamente às escuras. Nem uma luz havia em nenhum lugar. “Vamos entrar na cidade, em fila, rente às paredes”. Constatou com susto que todos olhavam para ele. “Os alemães têm grupos de combate espalhados pelas ruas, nos becos, nas vielas. Tanques, metralhadoras, obuses. Estão nos esperando”. Não conteve a vontade de fazer uma bravata: “Vamos ver se esses alemães são tão bons como dizem”. E lançou um olhar aos homens sob seu comando. Era um grupamento misto composto da 2ª Companhia do 6º Regimento de Infantaria, de um pelotão de Engenharia e de um grupo de tanques e carros de combate americanos que finalmente chegaram. O capitão pensou por um segundo de que adiantavam os tanques se eles não cabiam nas vielas estreitas. Sacudiu a cabeça. Aquilo era assunto da Infantaria. Entrar nessa cidade é assunto da Infantaria. Então, é com a gente mesmo. O capitão Ernani Ayrosa, 29 anos, disse, bem alto: “Vamos, macacada”. E deu o primeiro passo para entrar na cidade coberta pela escuridão da noite.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A porta do inferno está aberta




17.

A ordem era sucinta, mas Brayner teve que ler duas vezes para entender com clareza seu conteúdo: “Substituir os elementos do II/370 Regimento de Infantaria, às 19 horas do dia 15 de setembro, na região Vecchiano-Massacinccali-Filetole. Manter contato com o inimigo e sondar seu dispositivo por meio de vigorosa ação de patrulha. Caso o inimigo se retire, persegui-lo mediante ordem deste IV Corpo. Manter contato com a 1ª Divisão Blindada que opera a Leste”. Finalmente. Depois de dois meses de instrução e exercícios, chegara a hora do batismo. Brayner reuniu o Estado-Maior e solicitou a presença do comandante-em-chefe general Mascarenhas de Moraes. A coisa tinha que ter um viés de solenidade. Iam entrar em ação. Mascarenhas chegou e deu uma notícia confortadora: “O segundo escalão já está no mar, viajando para cá”. Reuniram-se ao redor da mesa, Zenóbio abriu o mapa. Zenóbio tinha gotas de suor na testa. Zenóbio ia comandar. Aquilo era missão da Infantaria. “O terreno é todo escarpado, o caminho minado e o inimigo não se apresenta, estará o tempo todo à espreita”, disse Zenóbio. “Que ninguém se engane, vai ser duro.” “Quem está lá é a 148. É uma Divisão famosa, com veteranos da Rússia. Eles não vão se expor”, disse o coronel Segadas Viana, comandante do 6º Regimento de Infantaria, destacado para a missão, “só vão atacar quando for favorável a eles, o que significa que vamos avançar por um corredor de morte.” Zenóbio não gostou do comentário: “É a guerra, coronel”. “Desculpe, mas não estou reclamando, general, só constatando.” “Quando substituirmos os americanos vamos ficar responsáveis por uma frente de nove quilômetros”, disse Brayner. “Se ficarmos só na defensiva já é muito, mas na ofensiva é simplesmente absurdo”, disse Segadas Viana, olhando para Zenóbio, que sustentou o olhar. “Sei disso muito bem, mas essa é a nossa primeira missão nesta guerra, coronel Viana, e vamos começar imediatamente, sem queixas nem indecisões. Vamos atacar em três linhas. Olhem este mapa: o Primeiro Batalhão do 6º inicia a marcha para tomada de contato com o inimigo na direção de Filetole-Monte Ghilardona, dois vilarejos, com poucas casas de pedra. É  uma subida íngreme e aí poderemos ter surpresas; o Segundo segue pela direita, na direção de Bozzano-Vecoli, deve haver resistência moderada, segundo os partiggiani; e o Terceiro sai da reserva para avançar sobre Le Corti-Bozzano. A população desses povoados pode ser hostil, não sabe quem nós somos, tem medo de todos, dos alemães, dos americanos, dos partiggiani, e agora vêm esses estranhos com cara de índios. Eles devem estar aterrorizados, fartos dessa guerra que não compreendem. Vamos com prudência, vasculhando o terreno, que é todo minado, ainda segundo informação dos partiggiani. Quem serão seus comandantes de batalhão, coronel Segadas?” Zenóbio sabia perfeitamente quem eram os comandantes dos batalhões, mas estava um tanto solene e gostaria de ouvir isso da boca do oficial encarregado da missão. “Os majores Gross, Silvino Nóbrega e Abílio Pontes.” “Muito bem, que eles saibam que essa estrada que vamos percorrer é a nossa entrada na História pela porta da frente, meu coronel. Ponha seus homens em forma. Vamos marchar de madrugada.” De madrugada, a porta da frente da História estava tomada por uma cerração forte que a encobria totalmente. Nada era visível da estrada. Os montes dourados de Toscana, que os rodeavam, eram apenas vultos. O major Abílio pensava com certa ironia nas palavras do chefe da infantaria. Todos sabiam que Zenóbio era fanfarrão espalhafatoso, mas essa sua veia poética não era conhecida. O major Abílio era homem de leituras, e os oficiais mais velhos estavam de olho nele porque dissertava com certo entusiasmo sobre as teorias de Marx, esse alemão judeu. O major  Abílio tinha 30 anos e nenhuma experiência de combate. O 6º RI avançava encolhido dentro dos caminhões e amontoado nos jipes. Era uma longa coluna de veículos, avançando sem pressa na estrada cheia de curvas. Pedrinho, Atílio, o Alemão e Quevedo estavam encostados uns nos outros, apertando seus fuzis numerados. Cada um já sabia o número do seu fuzil de cor, e a ordem era não largá-lo, não perdê-lo, não emprestá-lo porque no último dia da guerra teriam de devolvê-lo mediante recibo ao órgão provedor. E enquanto sacudiam na carroceria, e vagamente sentiam enjoo devido a tantas curvas na estrada, enquanto tinham na memória o espanto das coxas das mulheres nos becos escuros de Nápoles, ouviram a primeira explosão. Pedrinho fechou os olhos e num relance se viu a bordo do Baependy, sacudido pela explosão. Mas o caminhão continuava intacto. A explosão foi longe. Abriu os olhos e seus companheiros estavam um tanto pálidos, naturalmente angustiados, escutando. Nova explosão, mais forte. “Começou a guerra pra nós”, murmurou o Alemão. “Já estava demorando”, disse Quevedo. “T-t-tá ch-chechegando a hora.” O caminhão parou. A porta de lona se abriu, e o sargento Nilson enfiou a cara para dentro do caminhão. “Vamos desembarcar, macacada, e ir se postando em fila de um ao longo da estrada. Temos uma bela subida a nossa espera e vamos fazer isso com nossos belos sorrisos de dentes cariados.” O sargento Nilson era um tanto barroco ao falar, mas isso – e o humor misturado de ironia – era legado açoriano dos legítimos manezinhos da Ilha de Santa Catarina. Deu uma olhada nos dois garotos de Imbituba. “Quero ver vocês fazendo bonito.” “Sim, senhor, sargento”, disse Pedrinho. “Quero ver vocês indo pra frente, sempre pra frente e nada mais do que pra frente, entendido?” “Sim, senhor, sargento.” Outra explosão sacudiu as paredes da montanha, os pracinhas se encolheram, se olharam, mas o gago Atílio deu um empurrão em Pedrinho, e começaram a se apressar, a pular para fora do caminhão, atentos e ansiosos. De todos os caminhões e jipes os homens começaram a saltar. Iam entrando em fila nos dois lados da estrada. Os capitães comandavam aos gritos para começar a marcha, os tenentes corriam de um lado para o outro, os sargentos berravam e empurravam, Pedrinho olhou para sua frente, para a névoa que se desmanchava e permitia ver entre raios de luz a longa coluna de homens a pé, fuzis nas mãos, curvados, silenciosamente subindo a estrada estreita e cheia de curvas.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Numa terra estranha

16.

Zoé, Dulce e Virgínia voaram do Rio para Natal, de onde seguiriam imediatamente para Dacar. Mas após uma série de confabulações misteriosas entre os oficiais da FAB e os comandantes do Corpo de Enfermagem, acompanhadas por elas com ouvidos atentos, souberam que deveriam ficar em Natal, “talvez por alguns dias”. Enquanto arrastavam suas mochilas para os alojamentos no outro extremo da pista ouviram que um avião tinha sido abatido nesse mesmo dia, na rota que tomariam para Dacar. Somente decolaram três dias depois e pousaram após 12 horas de voo numa faixa estreita de terra que tinha o nome de Ilha de Ascensão. Abastecido o aeroplano, levantou para Acra, capital da Costa do Ouro. Pernoitaram em Dacar, mas após novas confabulações misteriosas foram para Atar, abasteceram, rumaram para Robert Field, depois Marrakesh, onde foram atropeladas por um camelo na saída do aeroporto. As 25 enfermeiras chegaram a Casablanca num final de tarde avermelhado, onde descansaram por três dias, em meio ao calor infernal, o pó da rua onde ficava o hotel e o alarido dos vendedores. Finalmente levantaram voo mais uma vez e aterrissaram em Alger. Era 12 de julho, tinham saído do Rio na madrugada do dia 2 e todas estavam confusas e atemorizadas. Elza, a mais despachada e influente do Corpo de Enfermeiras, disse “Vamos para Nápoles. O 1º Escalão já está lá”. Era verdade. O 1º Escalão já estava lá, mais exatamente nos arredores da cidade, em Agnano, acampado no barro, sem barracas, sem cozinha, sem mantas para se cobrir. Era pleno verão, mas a noite parecia de gelo. Estavam acampados na cratera do vulcão Astronia, abaixo do nível do mar, o que aumentava a sensação de frio. A maioria dos 5.800 homens não sabia desses detalhes. Estenderam-se no chão, cobriram-se com seus casacos. Foi oferecido aos generais Mascarenhas de Moraes e Zenóbio da Costa hospedagem no Parco Hotel de Nápoles, mas eles recusaram terminantemente. Foram montadas duas barracas onde passaram a noite com a tropa. Seria uma longa noite, ouviam-se tosses, gemidos, algum palavrão em voz contida. Os homens sonhavam com a devastação do porto de Nápoles, com os estranhos balões presos por cordas ao longo de todo o litoral, a fim de atemorizar voos rasantes de aviões inimigos. Súbito, irrompeu um alarido agudo e iniciou um corre-corre no lado direito do acampamento. Um oficial se aproximou da barraca de Mascarenhas. “Tentativa de suicídio”, disse o oficial, “já foi dominado.” “Quem era?” O oficial olhou para a tropa deitada na escuridão do chão enlameado. “O tenente-médico Soares Silva, ele teve um surto, algo assim, apanhou o revólver e tentou obrigar seu ordenança a atirar nele. Já está tudo sob controle, comandante.” “Muito bem, obrigado.” O oficial fez continência e se afastou. Mascarenhas procurou Zenóbio, ambos se olharam em silêncio. “Começamos mal, companheiro” disse Zenóbio. “Não vou subestimar este episódio” respondeu Mascarenhas, “mas já esperava algo parecido. A viagem foi muito tensa, estamos parecendo um bando de mendigos, vamos ter muito trabalho, meu amigo.” Zenóbio bocejou, apanhou um charuto. “Um médico, hein? Quem diria.” “Nossos tenentes vêm da turma de aspirantes a oficiais que deixou Agulhas Negras três meses atrás, Zenóbio, às vésperas de partir. Foram promovidos a 2º-tenentes no dia do embarque. Tudo era festa de estudantes. A maioria desses oficiais nunca viu um corpo de tropa, nunca entrou numa caserna.”  E agora estão aqui.” “Numa terra estranha, numa noite escura, no chão enlameado. Vamos ter muito trabalho, meu amigo.” Recolheram-se a suas barracas, mas foi difícil dormir. A frase “A viagem foi muito tensa” ficou repercutindo em seus ouvidos. Mascarenhas lembrava-se de que estava na sala de oficiais do General Mann ouvindo o noticiário da BBC quando o locutor anunciou: “Aproxima-se de Nápoles, navegando pelo Mediterrâneo, o comboio conduzindo o primeiro contingente de tropas brasileiras para participar da luta no Teatro de Operações europeu.” Era absurdo, mas verdadeiro. A operação mais secreta e sigilosa do exército brasileiro era anunciada aos quatro ventos pelos poderosos microfones da BBC. Um coronel americano esbravejou: “Ingleses filhos da mãe! Nos entregaram aos alemães!” E esse possível exagero do coronel logo se tornou realidade. O oficial de ligação do navio estendeu um telegrama para o major Brayner. “Um forte esquadrão de bombardeiros inimigos, oriundo do norte da Itália, devidamente protegido, voa na direção do comboio, que poderá ser atingido dentro de uma hora, caso não seja interceptado. Todos os meios de interceptação, das bases do norte da África, Sicília, Nápoles e Sardenha, foram acionados e deverão dar a cobertura ao comboio. Convém estar preparado para a luta antiaérea.” Mascarenhas lembra o olhar atento dos americanos para a reação dos brasileiros. Ele e Brayner ficaram impassíveis, mas a notícia se espalhou. Houve um calafrio na tropa amontoada nos porões, mas o ataque não aconteceu. Agora na sua barraca, sente o chão duro, dores no corpo. Pudera. Está com 61 anos, não é idade de ir para a guerra. No dia anterior sofrera uma humilhação inesperada, que ainda remoía.  Já passara uma semana do desembarque, continuavam amontoados no porto, via com apreensão os homens se misturando às prostitutas e aos proxenetas, às crianças famintas, às mulheres desesperadas. E nada de o comando americano lhes fornecer as armas do acordo firmado. Protelavam, davam desculpas, Mascarenhas olhava os soldados vagando sem objetivo, tomou uma decisão, chamou Brayner. “Major, vamos falar com o órgão provedor. Temos um acordo, eles nos devem.” Rumaram de jipe para o antigo e imponente Palácio Real, no bairro de Caserta, onde funcionava a base de suprimento. Esperaram mais de uma hora numa saleta barroca, olhando o quadro a óleo de um antigo e afetado monarca italiano. Enfim apareceu o general Harris, comandante do órgão. Denotava pressa, e brandiu no ar com desprezo a lista de petições enviada a ele. “Afinal de contas, o que vocês trouxeram para lutar?” O major tradutor se esforçou para amenizar a atitude do general americano, chegando a lembrar que Mascarenhas organizara a defesa do nordeste brasileiro para a América. “Para a América, não,” disse Mascarenhas, “para o mundo ameaçado pelo nazismo, meu senhor. E essa petição é produto do acordo firmado em Washington pelos nossos governos. Apenas isso.” Mas o clima da reunião estava definitivamente abalado, embora o general Harris tenha moderado seu tom. Mascarenhas e Brayner voltaram em silêncio no jipe, olhando a paisagem ferida, as ruínas e as pessoas vagando sem rumo.

domingo, 22 de abril de 2012

Alguns homens a mais

15.

No segundo dia da viagem, Atílio descobriu a função das duplas de PM americanos musculosos que ficavam de prontidão na porta do dormitório. “S-s-se o na-navio f-for t-t-totorpedeado, eles nos fecham aqui dentro.” Atílio era o melhor ouvido do batalhão. Ficava sentado quieto num canto, olho parado, e nem o mais leve sussurro a 10 metros de distância passava despercebido. Porque assim como sua fala era truncada, sua inteligência era rápida e musculosa, capaz de acionar as mais diversas informações e organizá-las com precisão de matemático. “N-no-nosso alojamento fica cinco metros abaixo da li-li-linha d’água.” “Os torpedos batem direto onde nós estamos”, intrometeu-se uma voz na conversa, “abrem um rombo do tamanho de uma porteira e o compartimento se enche de água. Esta banheira vai ao fundo em cinco minutos.” Atílio, Pedrinho e o Alemão olharam um tanto surpresos para o praça que se intrometera na conversa deles, com forte sotaque gaúcho. “É por isso”, continuou o praça, “que botaram aqueles dois postes de vigia, para fechar a porta imediatamente.” “Mas, por quê?”, perguntou Pedrinho alarmado. “Porque, índio velho, se eles fecham as portas, a água não passa para o resto do navio, e eles ganham tempo pra dar o fora.” “E nós?” “Nós? Nós morremos afogados.” Pedrinho puxou a coberta para o queixo. Escutou o navio. Agora estava silencioso, flutuando no meio do oceano. Lembrava da primeira noite. Depois que Getúlio foi embora cercado por uma corte de homens de terno e de farda que distribuía sorrisos e afagos, depois que todos estavam instalados em seus catres, depois que as luzes tinham se apagado e uma sombra melancólica descia sobre os 5 mil homens inquietos e cansados, a voz do capitão, em inglês, invadiu o navio através dos altofalantes, seguida por uma voz em português, rápida, traduzindo. “Soldados brasileiros! Sois a força sul-americana que primeiro deixou seu continente para combater em ultramar, com destino ao teatro de guerra europeu, constituindo um novo exército de homens livres, que se vêm juntar a tantos outros na luta pela liberdade dos povos oprimidos...” Atílio ouviu perfeitamente o praça de sotaque gaúcho dar uma risadinha: “Homens livres? Esse gringo tá brincando com a gente”. Atílio se mexeu inquieto: “P-por que? Vovo- você não é um homem livre?”. O praça sorriu no escuro. Tinha oponente. “Boa pergunta, gago.” “N-nnão me chama de gago que eu não gosto.” “Tá bueno, desculpe, não te chamo mais de gago. Como é teu nome?” “A-a-atílio.” “Atílio, certo. O meu é Quevedo. Não existem homens livres.” “O quê?” “Não existem homens livres.” “... Quem poderá avaliar da suprema importância que podereis representar no campo de batalha?”, continuava o comandante. E sua voz rouca encerrou a mensagem, flutuando nas sombras: “...não será a primeira vez na História que a adição de alguns homens a mais, num determinado setor da luta, fizesse pender definitivamente para ele o fiel da balança e os louros da vitória”. “P-p por que você dd-diz isso?” “Gato escaldado tem medo de água fria. Tu vem de onde, che?” “Imbituba.” “Nunca ouvi falar. Tu sabe de onde eu venho?” “N-n-não sou adivinho.” “De Uruguaiana. Mas não é pra me exibir.” Alemão Wolper, no catre em cima, deu um suspiro acintoso e murmurou em tom suficiente para ouvirem ao redor. “Agora sim, vamos ganhar a guerra.” Quevedo deu uma risadinha: “De pleno acordo, companheiro”. Finalmente a bruma foi levantando, e Nápoles começou a aparecer. O US General Mann estava cercado de destroços retorcidos e queimados de navios, dezenas e dezenas de gigantescas embarcações transformadas em monstros disformes, meio submersos na água oleosa, fruto dos ataques da força aérea aliada na batalha pela posse do porto. Os pracinhas foram descendo a rampa, sacos às costas, olhando com perplexidade e medo para aquelas ruínas. Algo espantoso, algo enorme e terrível tinha acontecido ali. No porto, pequena multidão silenciosa e em farrapos os examinava com desconfiança descendo a rampa. Aqueles soldados não carregavam armamento, a cor de suas fardas era verde, na mesma tonalidade usada pelo exército alemão, e não tardou para que fossem confundidos com prisioneiros alemães. A hostilidade começou com gritos de longe, tedeschi!, em seguida alguns mais valentes se aproximaram e gritavam rente a eles. Eram em sua maioria sujos, barba por fazer, olhos no fundo e com expressões de nojo, rancor e fome, que assustou e espantou a fila de homens morenos, saco às costas, se equilibrando no estreito caminho de tábuas sobre a lama. Um deles cuspiu num pracinha. Depois outro. E outro. Uma pedrada voou de longe, batendo numa cabeça, que começou a sangrar. O sangue despertou a ira da pequena multidão que começou a despejar pedras com fúria cada vez maior sobre os pracinhas estupefatos. A intervenção dos PM americanos foi rápida e brutal, avançando contra os esfarrapados e os afastando com golpes de coronha. Um oficial americano, falando italiano perfeitamente, gritava bem alto que os recém-chegados eram “aliados, aliados do Brasil, que vieram lutar pela Itália contra Hitler!”. Quando a compreensão se fez, os apupos mudaram em aplausos, em seguida se ouviam gritos de “bravo, bravissimo brasiliani!”. Quando, horas depois, sentado na calçada junto com os outros soldados, em longa fila, costas apoiadas na parede destruída do armazém, Pedrinho ainda relembrava  o episódio e pensava como enquadrá-lo em seu entendimento, viu, na sua frente, a poucos metros, várias mulheres com crianças de colo, olhando para eles. Olhavam para eles buscando captar suas atenções até sentirem que eram vistas, e então começaram a mastigar. Nada tinham para colocar na boca, porém mastigavam e mastigavam, caladas, olhando fixo para os soldados. Aquilo foi  surpreendente, e eles a princípio acharam graça. Mas as mulheres os olhavam nos olhos e moviam as bocas, salivando, num ritual silencioso. Pedrinho se levantou e se afastou para trás do armazém, nauseado. Uma mulher o seguiu, colocou-se na frente dele olhando-o nos olhos, um olhar duro e sem tradução, a boca se movendo. Pedrinho afastou-se, a mulher o seguiu. Ele dava meia-volta, ela persistia, ela escorregou, quase caiu, equilibrando a criança em seus braços, Pedrinho afastou-se para o meio da lama e a mulher o seguiu, escorregando, buscando seu olhar, mastigando, mastigando, mastigando sem parar.



sábado, 14 de abril de 2012

Embarque para o desconhecido

DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO


O major Brayner olhou demoradamente a rua silenciosa lá embaixo, pela janela do seu quarto. Só estavam ele e a mulher na casa, os empregados foram dispensados nesse dia. Formavam um casal sem filhos, e talvez por isso conviviam numa espécie de redoma de melancolia, ou talvez fosseapenas o caráter introspectivo do major. O carro chegou. Consultou o relógio, 1h30min. Apanhou o quepe, colocou-o na cabeça. Tivera que ser muito carinhoso para que o choro dela fosse silencioso e digno. Trocaram um beijo rápido, como se fosse uma despedida de poucas horas. “Vamos precisar de muita coragem, meu amor, nós dois.” Saiu e fechou a porta. O ordenança o esperava no carro, trocaram continência mas não falaram. O carro avançou pelas ruas desertas em direção ao porto. Tinha sido uma semana intensa. As notícias chegavam a toda hora, os boatos circulavam esencontrados, alguns afirmavam que o Dia D tinha sido acionado, que a invasão da Europa pelos Aliados tinha começado, que Hitler tinha sido morto num atentado. Era preciso muito sangue frio, era preciso examinar com calma cada uma dessas histórias, porque agora o que se aproximava realmente de sua vida era a partida para a guerra, e ele, Brayner, como chefe do Estado Maior da FEB, fora o oficial designado para a missão de coordenar o embarque do 1º Escalão. Quando o carro se aproximou do portão do cais, tornou a olhar o relógio. 2 horas emponto. Estava na hora de colocar os soldados no trem. E era o que acontecia, longe dali, na Vila Militar. “Acorda, vagabundo.” A mão pesada do sargento Onda quase derruba Pedro Diax do seu beliche. Pedrinho esfrega os olhos no susto do despertar e então se dá conta: “É hoje.” Sentou na cama e sentiu todo o corpo estremecer. “Puxa vida.” Não precisavam dizer nada, ele sabia. “É hoje. Não adianta choro nem reza.” 29 de junho, madrugada, escuridão. Sob o comando dogeneral Zenóbio da Costa, espremidos nos vagões da Central do Brasil, as aberturas completamente lacradas, sete composições sucessivas seguem da Estação de Deodoro, na Vila Militar, para o cais do porto. Na quarta delas, apertados no segundo banco da direita, Pedro, Atílio e João Wogler bocejam. “Vamos embarcar”, disse o alemão, “estamos indo para a guerra”. O rancho tinha sido rápido, mal enfiaram na boca uma bolacha e engoliram o café preto. Estamos indo para a guerra, pensou Atílio, e percebeu que estava com dores no corpo, com sono, com fome, vontade de chorar. Vou para a guerra, pensou, sou gago, podia ser dispensado, podia ficar em casa comendo rapadura e indo aos bailes da igreja no fim de semana. Estou indo para a guerra, pensou Pedrinho. Posso ficar aleijado, posso ficar louco, posso morrer. O trem sacudia levando milhares de homens de 18 a 25 anos de Pernambuco, da Bahia, do Rio, do Amazonas, do Piauí e de todos os recantos do Brasil que pensavam “estou indo para a guerra, posso ficar aleijado ou louco ou morrer. A metade dos que estão dentro deste trem vão morrer. Talvez mais, talvez todos”. O alemão Wogler ressonava de boca aberta. “Vamos para a morte. Este trem está nos levando para a morte.” Não muito longe, no carro que as levava para o aeroporto, Dulce, Zoé e Virgínia apertadas no banco de trás, entrelaçavam seus dedos, olhavam a cidade do Rio de Janeiro mais bela do que nunca ir passando deserta e silenciosa, como se também estivesse adormecida. “Todos estão dormindo.” “O que?” “Todos estão dormindo.” “É claro, sua boba. Émadrugada.” “Nossa partida é secreta?” “Ai, Zoé, tu me dá nos nervos com essas perguntas. E secreta é uma palavra muito idiota.” “Pela conversa do major Ernestino é mais ou menos secreta.” “Ou é secreta ou não é secreta.” “Ontem eu perguntei para ele para onde a gente vai e sabe o que ele me disse?” “É melhor não me dizer, começo a conhecer o major Ernestino e não estou gostando.” “Vamos para a base de Natal, depois para Dacar, depois só Deus sabe.” “O Marcos disse pra a gente não confiar no major Ernestino.” “Eu não confio é no bonitão do capitão Marcos.” E as três deram risadas, o carro avançou um sinal vermelho na madrugada enquanto o capitão Marcos olhava a roleta girar. A mão de unhas pintadas da estupenda Adelaide acariciava as fichas sobre a mesa, ao fundo Dick Farney acariciava um piano. “Soubeste do triste fim do nosso amigo gordinho?” “Nosso, vírgula. Teu amigo gordinho”. “Eu marquei outro encontro teu com ele.” “É, mas ele não apareceu.” “Apareceu. Morto na praia.” “O Rio é uma cidade perigosa.” A roleta parou de girar. “Bem, querida, perdi meu último centavo. Hora de partir.” “É cedo, meu capitão. Não é tua hora habitual.” “É que hoje vou pegar um avião”, e o capitão Marcos deu seu sorriso mais sedutor. Adelaide estudou-o inquieta, desconfiada. “Um avião? Que beleza! E para onde, pode-se saber?” “Ah, minha querida, para um lugar maravilhoso, mas vou te deixar com esse gostinho na memória, pra tu ficar saboreando enquanto eu vou saindo. Tchauzinho!” E o capitão Marcos se afastou entre os homens de terno de linho branco e as mulheres de vestidos com profundos decotes, a melodia do jazz de Dick em seus ouvidos, no momento exato em que o trem do 1º Escalão chegava no porto. Os 5 mil soldados ficaram fechados ali dentro quase duas horas, com as cortinas cerradas, até que um oficial abriu a porta e comandou: “Em fila, emordem e em silêncio!” Era um navio gigantesco, parado ali com sua enorme porta aberta, onde a fila de homens ia sumindo. Pedrinho, Atílio e João Wogler caminharam pela rampa carregando seus sacos, aproximando-se da boca escancarada, leram num costado o nome do monstro:”US Gen. Mann”. Ficariam amontoados na barriga dele durante 15 dias, à mercê dos submarinos e dos aviões da Alemanha, pensando em mutilação, loucura e morte, viajando através do mar para um lugar do mundo que nenhum deles sabia qual era.

terça-feira, 10 de abril de 2012

O Dia D está próximo


Décimo Terceiro Capítulo

No segundo domingo de maio de 1944, os praças Pedrinho, Atílio e João Wogler, que agora todos
chamavam de Alemão, saíram cedo do quartel e pegaram o ônibus para Laranjeiras. Estavam dominados por um entusiasmo quase infantil: iriam assistir Fluminense x Botafogo pelo Campeonato Carioca. Era a primeira vez que os três assistiriam a um clássico carioca. As equipes do Rio de Janeiro dominavam as imaginações jovens e tomavam um espaço enorme do afeto nos corações pelo Brasil todo. Os nomes dos craques cariocas retumbavam como tambores nas árduas discussões sobre futebol no quartel: Heleno de Freitas, Perácio, Barbosa, Biguá eram emblemas de uma alegria e glória que eles não sabiam definir. Em Imbituba e nas alturas geladas de Vacaria, ouvir o Campeonato Carioca pelo rádio era um rito que confortava a alma e acalmava a imaginação. O Alemão Wogler era um dissidente cauteloso nessas discussões, pois o futebol gaúcho era forte e competitivo, e ele alternava as escutas do campeonato carioca com o gaúcho. Mas seu clube, o Grêmio, não passava por um bom momento há muitas temporadas. O Internacional montara uma máquina de jogar futebol, arrogantemente chamada de Rolo Compressor, e isso, para o Alemão, era uma triste verdade: o Colorado simplesmente esmagava quem passava em seu caminho. Seus craques tinham nomes que ultrapassavam as fronteiras do Estado e despertavam a cobiça dos grandes do Rio, de São Paulo e de Buenos Aires. Carlitos, Tesourinha, Nena, Ruy e Villalba eram mais do que nomes e apelidos, se revestiam da aura mítica dos invencíveis. O Alemão não queria saber disso, e seus amigos tampouco. Numa parada da viagem, entraram no ônibus três moças bonitas e queimadas de sol, com uniformes de enfermeiras do Exército. Os três se inquietaram e trocaram olhares coniventes, mas sem muito entusiasmo. “Vamos convidar elas para o jogo”, sussurrou o Alemão, que era o mais despachado. As três enfermeiras passaram altivas, indiferentes, e os pracinhas sentiram sua condição de provincianos na grande cidade. Era verdade, e eles sabiam. Adoravam, aos domingos e dias de folga, pegar um ônibus e circular pela cidade, olhando-a com seus olhos juvenis, fáceis ao espanto. Sabiam intuitivamente que entre eles e aquelas garotas havia um áspero e grosso muro social que os separava. Dulce e Zoé estavam mais bonitas do que nunca, e sua amiga Virginia tinha olhos verdes e os cabelos louros: sua mãe era inglesa, casada com um engenheiro carioca. Conheceram-se num Carnaval, e a turista pálida e frágil ficou para sempre na cidade. As três moças não olharam nem repararam nos três pracinhas. Seu destino era Copacabana, passear na beira-mar, dar uma recorrida no Cassino e voltar para casa. Na segunda-feira bem cedo, recomeçaria a estafante rotina de treinamento. Perto das Laranjeiras perceberam a agitação das torcidas chegando para o jogo, e os três pracinhas se levantaram precipitadamente. O casquete de Pedrinho caiu e quando ele foi levantá-lo uma mão branca, pequena, apanhou-o antes e o estendeu. Os olhos de Pedrinho encontraram os de Virginia. Ele corou, sem remédio. Murmurou “Obrigado”, e enquanto era arrastado por Atílio e Alemão se perguntava se ela também tinha sorrido para ele ou fora apenas impressão. Já na calçada, olhou com ínfima esperança. Ela o olhava! Deu um adeusinho, e o ônibus se foi no meio do trânsito e da multidão que chegava. Pedrinho ajeitou o casquete com cuidado, pensativo, no exato momento em que o major Brayner ajeitava seu quepe, entrando no elevador do Ministério da Guerra. Outro oficial acelerava o passo para tomar o elevador, e Brayner segurou a porta para esperá-lo. Reconheceu o tenente-coronel Castello Branco, o Humberto de Alencar, considerado intelectual e influente em algumas áreas do Exército. Trocaram continências, mas não falaram. Quando foram apertar o botão de comando os dedos de ambos procuraram o número 10. Curioso. No 10º andar do Ministério ficava o Gabinete Secreto do Ministro da Guerra, e para ir até lá só com convite especial. Subiram em delicado silêncio até o 10º e quando saíram do elevador encontraram, refestelados nas poltronas do saguão, o general Mascarenhas de Moraes, o coronel Henrique Lott e o tenente-coronel Amaury Kruel. Todos tinham recebido convites sigilosos e individuais. Não havia justificativa ou definição de finalidade. E nenhum sabia que o outro tinha sido convidado. Logo juntou-se a eles o general americano Hayes Kröner, adido militar dos Estados Unidos, acompanhado de dois tenentes-coronéis também americanos. A porta do gabinete se abriu, e o coronel José Bina Machado, chefe de gabinete do general Dutra, convidou-os a entrar. Dutra cumprimentou um por um e passou para seu lugar na grande mesa no centro da sala. “Senhores”, começou, “agradeço a presença e a pontualidade de todos. Este é um encontro totalmente sigiloso, como podem deduzir, e sem mais delongas vou passar a palavra ao general Kröner, com quem deliberei sobre convocar esta reunião”. Brayner mentalmente classificou o americano de “enigmático e autoritário”. Era muito magro, e não conseguia esconder certo ar superior, que colocou um invisível e tênue mal-estar no ambiente. “Senhores, comunicados oficiais alemães desde ontem já anunciam ao mundo que o Brasil enviará tropas de seu Exército ao Teatro Europeu”, começou Hayes. “Esses comunicados avisam, ou melhor, ameaçam que nenhum combatente brasileiro tomará pé em terras da Europa. Ou seja, o barco que os transportar será afundado por seus submarinos. Quero dizer aos senhores que o governo dos Estados Unidos afirma o contrário.” Fez uma pausa (teatral, pensou Brayner), e olhou seus interlocutores, que sequer piscaram. “O governo dos Estados Unidos assume a responsabilidade e o risco de transportar as tropas brasileiras para qualquer lugar a que sejam destinadas. Mas, senhores, isso exige um grave compromisso de todos nós. E por isso, pedi ao senhor ministro da Guerra que nos reunisse aqui, no mais absoluto caráter sigiloso. Os oficiais que aqui se encontram, neste momento, não podem transmitir a quem quer que seja o que se vai debater e decidir. Nem mesmo as esposas poderão ouvir confidências sobre o que aqui for tratado. Se alguma desgraça acontecer, na partida ou na travessia do Atlântico, a responsabilidade ficará conosco, pela inconfidência de algum de nós. A preparação final ficará a cargo do Estado-Maior da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária.” Olhou para Brayner, que assentiu com a cabeça. “O navio que transportará o 1º Escalão é americano. Seu nome, onde se encontra, quando chegará, nada sabemos, por enquanto. Mas esse dia, posso afirmar, está próximo.”

terça-feira, 3 de abril de 2012

Décimo Segundo Capítulo

Três senhores da guerra


“O exército alemão já foi batido na União Soviética, disso não há mais dúvida, foram escorraçados da periferia de Stalingrado, estão refluindo para a Europa Central e Ocidental”, disse Mascarenhas. “No estágio em Washington percebi, várias vezes, membros do Alto Comando Americano expressarem a urgência da nossa presença como reforço imediato.” Mascarenhas falava como de habitual, pausadamente, olhando nos olhos seus dois interlocutores, os generais Cordeiro de Farias e Zenóbio da Costa. Ambos estavam sentados em poltronas diante dele, fumando. Zenóbio, seu tradicional e enorme havana perfumado, e Cordeiro, um rústico cigarro de palha, um palheiro dos nossos, como disse para Mascarenhas quando lhe ofereceu, sabendo que o outro recusaria. “Os americanos não me disseram, é claro, mas eu sentia isso claramente nas nossas conversas e nas aulas a que assisti. Eu tenho a convicção de que eles precisam desesperadamente de reforços, por menor que seja o contingente, por menos preparado que esteja. Eles precisam recompor o IV Corpo de Exército, que está reduzido à 6ª Divisão Blindada Sul-africana e algumas frações de tropa antiaérea americana, agindo como infantaria, vejam só que precariedade, com o rótulo de Task Force 45, sem qualquer eficiência ou combatividade. Eles precisam de gente para combater.” “Precisam é de carne para canhão”, disse Zenóbio, “e o que eu gostaria de saber é para onde pensam em nos mandar. Meu palpite é a Itália, eles já tomaram Nápoles e se preparam para avançar para o norte da península. A França vai ser invadida a partir da Inglaterra, disso não há dúvida, só resta saber quando será o famoso Dia D e em que parte da costa vai ser a invasão”. “Acho que você está certo, Zenóbio”, disse Mascarenhas, “não é por nada que o Rommel está montando uma linha de defesa impressionante na Normandia”. Cordeiro de Farias, levantou-se da poltrona e se dirigiu para o mapa da Europa preso no cavalete. Era o mais jovem dos três generais, tinha 42 anos, e aparentemente o que tinha mais experiência em ação de combate, fruto de sua participação nas várias revoluções brasileiras das últimas décadas, incluindo a marcha da Coluna Prestes. Esticou a jaqueta com um rápido estirão e apontou o dedo para um lugar no mapa. “A lenda do Afrikan Korps acabou. Os alemães foram batidos na África. O aclamado Rommel está comandando a construção da linha de defesa da Normandia, mas ele agora é um fantasma, uma imagem gasta daquele herói que os alemães idealizavam.” “Exatamente. E é ali que a guerra vai se decidir, na França e na Itália. A invasão da Europa pelos Aliados será por esses países”, disse Zenóbio. “O ataque terá que ser pelo Mediterrâneo e pelo Adriático, com os russos vindos do norte”, continuou Cordeiro, “os aliados vão tentar recuperar a França e a Itália em um intervalo pequeno de tempo. A Alemanha vai ficar encurralada. E nós, general Mascarenhas, nesse jogo de xadrez, onde é que nós entramos, no seu ponto de vista?”. “O Zenóbio disse que nós vamos ser bucha de canhão. É deprimente conjeturar que aliados pensem assim de nós, mas vamos ter que encarar isso como uma possibilidade concreta, sem idealismo tolo, sem ressentimento. Se querem saber, acho que vão nos mandar para onde haja necessidade de boi de piranha.” “Isso não interessa, essa é a guerra que nos coube. Graças a Deus vamos para uma guerra de verdade.” “Tem gente que pensa diferente”, e Cordeiro de Farias estendeu para Mascarenhas um jornal com uma matéria assinalada em vermelho. A manchete anunciava com estardalhaço a queda de Benito Mussolini, no dia 25 de julho de 1943, poucos dias antes do afundamento do U-199 pelos aviões da FAB. Cordeiro indicou com o dedo uma sessão assinada por Adelaide Scoraro. A deslumbrante Adelaide escrevia artigos publicados em vários jornais do país: “Se é verdade, como dizem por aí, que o destino da imaginária expedição do Brasil à guerra será a Itália, então é bom guardar os tamborins e fazer o desfile por aqui mesmo, pois se nossos galantes futuros heróis forem para a Itália será para fazer turismo”. “A quinta-coluna continua ativa e fazendo graça.” “Essa senhora está fazendo piada um tanto atrasada”, disse Mascarenhas. “As coisas se precipitaram, senhores, e eu não tenho clareza, ainda, para dizer onde ficamos no meio dessa poeira toda. Hoje chegou um telegrama dando conta de que um comando alemão libertou Mussolini da prisão e o levou para uma reunião em Berlim com Hitler. Parece um folhetim rocambolesco, mas foi assim. Vamos aguardar, senhores, vamos aguardar. Não podemos dar um passo em falso ou seremos esmagados pela imprensa, pela direita, pela esquerda, pelos americanos e pelos alemães.” “Sabem o que andam dizendo por aí? Sabem por que não embarcamos logo?”, perguntou Zenóbio. “Porque o comandante em chefe é De Moraes, o comandante da Infantaria é Da Costa, e o comandante da Artilharia não é de briga, pois é Cordeiro.” Zenóbio jogou a grande cabeça para trás e deu a gargalhada que fazia a delícia de seus comandados, quando estava de bom humor. “Essa é boa, essa é muito boa, mas a melhor mesmo...” Mascarenhas fez um ruído discreto com a garganta, deu um de seus raros sorrisos, como pedindo desculpas: “Com licença, Zenóbio, mas preciso acrescentar um pequeno detalhe para encerrarmos a reunião, e é justo a respeito dessa demora e dos entraves ao nosso trabalho que enfrentamos no dia a dia. A natureza da nossa missão é extremamente simples: junto com os Aliados, ajudar a derrotar o nazismo. O lado complexo, e delicado, e mesmo antagônico dessa premissa é que, e isso é uma ideia que circula em todas as rodas pensantes do país, é que derrubando o nazismo estaremos também derrubando o governo que nos manda para o teatro de operações. Todos nós sabemos disso. É um dos motivos de tanto entrave para nossa preparação e para nossa partida. Portanto, senhores, seja lá o que cada um de nós pense a respeito desse assunto, e todos somos livres para pensarmos o que bem entendermos, vamos deixar a política de lado, e como muito bem disse o Zenóbio, vamos cuidar só da guerra que nos coube lutar”.

Próximo capítulo: o Dia D está próximo