“Quem é esse
tenente?” perguntou Mascarenhas de Moraes, com a xícara de café bem quente na
mão. “Ainda não sabemos ao certo, comandante” respondeu Brayner “mas é bem
moço.” “Todos os tenentes são moços, Brayner, mas nem todos fazem loucuras.”
“Abençoada loucura” disse Brayner. “Não me retruque, Brayner. Leia o
relatório.” “O nome dele é Mário Cabral de Vasconcelos, 2º- tenente da 2ª-
Companhia do 6º- Regimento de Infantaria, general. Ele e seu pelotão assumiram a
vanguarda da manobra depois de galgarem 1.200 metros sob fogo contínuo, como se
fossem uma tropa de montanha, especializada e adestrada, e sabemos que nunca
subiram nada mais alto do que 500 metros. Deram um susto nos alemães. A
surpresa foi total. Tomamos Monte Prano e com isso ficamos senhores de toda a
região, agora somos nós que dominamos lá no alto e temos visibilidade de todas
as estradas em torno. Até o momento contabilizamos 32 prisioneiros, e recolhemos
todo material bélico abandonado.” “Muito bem. E baixas?” Brayner pareceu
hesitar. “Nada confirmado, comandante, mas há informes de três mortos por
granada, três praças, os nomes estão sendo verificados para confirmação.”
“Quero os nomes o mais rápido possível” disse Mascarenhas. Arrastou a cadeira,
levantou-se, olhou o mapa na parede atrás dele. Monte Prano. Procurou com o
dedo. Não achou. Ninguém nunca vai achar nada com esse nome. Mortos. Mortos em
Monte Prano. Todos jovens. Quase garotos. Escrever cartas para os pais. Mandar
despojos. Medalhas. Pequenas coisas inúteis para alguma cidadezinha perdida no
interior do Brasil, ao pé de alguma montanha ou na beira de um rio...
“General.” Voltou a si. Não é bom um general divagar. Principalmente se é um
general comandante de uma expedição de guerra. “O senhor parece longe.” “Eu
estava longe, Brayner, mas não estou mais.” “Precisamos terminar a documentação para a reunião com os
americanos.” “Sim, Brayner.” “Os americanos estão nos levando na conversa,
comandante. Prometeram carabinas 0.30 e chegaram fuzis Springfield, mais velhos
que minha avó. Nem sinal dos Colt 45 para os oficiais. Vieram metralhadoras de
mão, também antigas, muito usadas. Isso dificulta a instrução da tropa. Nos
caixões não vem sequer uma nota explicando o conteúdo, e quando diz uma coisa
tem outra. O 2º- Escalão está chegando aí, e ainda não temos...” “Eu sei,
Brayner. Eu sei que eles estão chegando, mas vamos fazer o quê? Nos queixar
para quem? Só se for a Nosso Senhor Jesus Cristo...” “Nosso orgulho,
general...” Mascarenhas endureceu o olhar. “Orgulho, Brayner? A primeira coisa
que eu esqueci quando aceitei esta missão foi o orgulho.” “Sim, senhor.” “E se
você quer ser um chefe de Estado-Maior competente também vai esquecer o
orgulho. Veja esses caixotes: artigos de inverno, capacetes, perneiras,
capotes, jaquetas, japonas, cobertores, pijamas, roupões de hospital... tudo
americano! Cigarros, chocolates, chicletes. Do general comandante até o último
soldado recebem essas porcarias. Orgulho? Eu já faço força para não parecer um
mercenário. Essa é a guerra que nos tocou, major Brayner. Ela é bem mais
difícil do que parece.” “Sim, senhor.” “Vamos ter orgulho quando esta guerra
acabar. Orgulho dos nossos rapazes, das missões que cumprimos sem queixas. Não
podemos ter auto comiseração, não podemos mostrar sinais de fraqueza. Esta
guerra, pelo pouco que pudemos ver, é a mais monstruosa invenção da raça humana
até hoje. Mas nós podemos tirar daqui nossa parcela de dignidade.” “Sim,
senhor, comandante.” “Vamos subir essa estrada agora, depois que eu beber este café
que já esfriou. Quero ir lá em cima ver nossos praças e nossos oficiais.” O
caminho que a tropa levou seis dias para percorrer o Alto Comando da FEB
percorreu em cinco horas. Mascarenhas chegou lá no alto no meio da tarde,
sentindo no rosto o vento frio. As marcas dos combates estavam por tudo.
Crateras, árvores espedaçadas e calcinadas, rostos de camponeses perplexos e
crianças assustadas nas pequenas janelas das casas rústicas. Uma tropa de
burros passava na estrada, obrigando o jipe de Mascarenhas a dar passagem.
“Para que tanto burro, Brayner?” “Foram cedidos para nós pelos guerrilheiros,
comandante. Metade deles foi tirado dos alemães. São mais de 20 muares por
pelotão, os condutores são guerrilheiros da região ou membros de uma tropa de
alpinos italianos. Sem os muares é praticamente impossível fazer o
reabastecimento e remuniciamento da nossa gente. Agora nada vai nos faltar aqui
em cima.” Numa curva da estrada, rente ao abismo, havia um olmo com sinais de
que fora atingido por uma bomba ou canhoneio. Dele se despegava uma fumaça
negra, mas o que fez o cabo Adão frear sem aviso foi o insólito fruto que
pendia do seu galho principal. O corpo ficou balançando a poucos metros do jipe,
os pés sujos do enforcado parados no ar, logo acima deles. “O que é isso?”
rosnou Mascarenhas com repulsa. “Era um colaborador dos nazistas, comandante”
explicou o major Duílio, que ciceroneava o grupo do comandante em chefe. “Foi
justiçado pelos moradores e pelos guerrilheiros.” “Não quero saber dessa
justiça na nossa área, major. Mande tirar esse corpo dali e enterrar
decentemente.” O major chamou um sargento que passava e transmitiu-lhe a ordem.
Pouco depois Pedrinho, o gago Atílio, Alemão e Quevedo estavam embaixo do
enforcado, pensando um jeito de tirá-lo dali. “Precisamos duma escada” disse o
Alemão “vamos pedir numa dessas casas aí.” Mascarenhas observou um instante o grupo de
pracinhas em torno à árvore, lidando para descer o enforcado. “Isso é trabalho
para os alemães que a gente aprisionou” disse Quevedo “nós não temos que
enterrar ninguém.” “Isso é o que tu pensa, mandrião” disse o sargento Nilson se
aproximando. Um pássaro deu um grito agudo e fez um largo voo em torno ao
abismo. Todos pararam para olhar, e depois ficaram um instante olhando a
sucessão de cadeias montanhosas que se estendia sem fim, até tornar-se uma
coisa cinza e nebulosa no horizonte. “Vamos ter que atravessar tudo isso?” perguntou
o Alemão. “É claro, istepô.” E olhando para os soldados com um sorriso feroz.
“Isto é só o começo, moçada.” Quevedo tirou o capacete, coçou o cabelo sujo, sentou
numa pedra. “Então, se é assim, o distinto pendurado aí
que me desculpe, sargento, mas vou fumar um cigarrinho porque temos muito
tempo.” O sargento Nilson teve um impulso de autoridade, mas ponderou, sorriu e
também sentou numa pedra. Os outros o foram imitando e logo ficaram os quatro
soldados sentados lado a lado, fumando, contemplando a imensidão a se desdobrar
diante deles, o enforcado atrás, levemente agitado pelo vento frio da
cordilheira.
O escritor Tabajara Ruas convida para acompanhar em Zero Hora, todos os sábados, o folhetim “VOCÊ SABE DE ONDE EU VENHO”, narrativa épica sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Os Canhões de Monte Prano - II
21.
Pedrinho parou
numa curva da estrada e sentou numa pedra. Começou a descalçar a botina do pé
direito. O sargento Nilson parou na frente dele. “O que estás fazendo, estupor?”
“Tô com os pés cheios de bolha, sargento, mal posso caminhar.” O sargento
Nilson já ia despejar uma série de impropérios, mas conteve-se. Conhecia esse
praça, sabia que ele não era dissimulado nem mandrião. “Vais ter de aguentar.
Logo vai escurecer e aí vamos parar. Não vamos subir essa montanha no escuro.”
“E vamos dormir onde, sargento?” “No hotel de luxo que te falei.” Esse praça
não era dissimulado nem mandrião, mas as vezes parecia muito idiota. Dizem que
ele foi levado pra dentro de um submarino. Deve ser por isso, devem ter
injetado algum soro nele para ser tão bobo. “Vamos lá, istepô, em marcha.” Em
marcha, em marcha, isso era o que mais Pedrinho escutava desde que saíram de
Camaiore. O tenente Mário disse que a caminhada até o cimo do Monte Prano iria levar
umas vinte horas, mas já fazia dois dias que estavam nessa marcha e ainda não
tinham chegado nem na metade do caminho, isso porque os alemães não deixavam.
Desde o dia anterior caía sobre eles uma carga de bombas e metralhas
incessante, que os obrigava a buscar abrigo atrás de pedras e árvores, sem
verem sequer o vulto do inimigo. Passavam a maior parte do tempo abaixados e
escondidos do que avançando. Isso era a manobra envolvente que ordenara
Zenóbio. O fato é que ele tinha razão. Se subissem de peito aberto já contariam
dezenas de mortos. Milagrosamente, até agora nenhum soldado brasileiro fora
morto. Já havia quase 100 feridos, morto nenhum, graças a Deus. Mas mal
Pedrinho calçou a botina do pé direito e deu o laço no cadarço, o soldado que
passava na sua frente, na desordenada fila que subia a montanha, caiu com um
grito, rosto coberto de sangue. Pedrinho ficou estarrecido e sentiu-se erguido
no ar. Era a mão pesada do sargento Nilson que o agarrava pelo pescoço e o
arrastava para fora da estrada, que estalava de estilhaços, pó e o cheiro
nauseante de pólvora. Padioleiros apanharam o corpo do pracinha ferido debaixo
de uma torrente de explosões e o arrastaram para uma reentrância da parede
rochosa. O capitão Ernani apareceu na frente de todos: “Em marcha, em marcha!”
e eles continuaram a marchar, na beira do precipício de mais de mil metros de
profundidade, de onde subia uma fina camada de nuvens. Passaram por casas
abandonadas. Entraram para conferir: as salas vazias davam angústia, tudo fora
abandonado ás pressas. Quevedo brincou com um gato pardo que se enroscou em
suas botinas. Bandeira sentou numa cadeira de balanço e fingiu que roncava. “É
igualzinha a de minha avó, só que ela roncava mais grosso.” Depois de se
alimentar, continuaram a escalada, a estrada tornava-se cada vez mais estreita,
as curvas mais fechadas. Anoiteceu e a sensação de medo e desconforto aumentou.
Como nas duas noites anteriores, formaram círculos para dormir, os comandantes
dos grupos um pouco afastados. Agora a ordem era silêncio absoluto. Sabiam que
o grosso dos alemães estava muito próximo, e eles podiam tentar um golpe de mão
aproveitando a escuridão. “Golpe de mão” era a expressão da moda, e os enchia
de pavor. Os alemães eram mestres em “golpes de mão”, uma manobra rápida feita
por um grupo reduzido, cair sobre o alvo, metralhar, esfaquear e retirar,
deixando mortos e feridos. Dormiram sonhando com “golpes de mão”, envoltos por
uma cerração que encharcou as fardas, os calçados e as armas, e os deixou
enregelados. “Não sinto minha mão” murmurou o Alemão para Atílio, mas já era de
manhã e o sargento Nilson passava cutucando com o coturno e sussurrando “de pé,
de pé, mandriões” e em pouco estavam novamente naquele estrada agora
escorregadia e sem fim. “Onde estamos, capitão?” perguntou o tenente Mário, e o
capitão Ernani o olhou com profunda irritação: “Isso eu gostaria de saber, tenente.”
Prosseguiram em meio ao torpor da cerração gelada mais um dia inteiro, com
paradas cada vez mais frequentes. Numa curva da estrada Bandeira ouviu vozes. Da
cerração surgiu um vulto estranho. Era um burro carregado com cestas, tocado
por um homem e um menino. Ficaram paralisados, se olhando, Bandeira colocou o
indicador nos lábios e fez sinal para eles seguirem. O burro, o homem e a
criança passaram espremidos entre o exército que subia a montanha e o abismo. E
finalmente, no dia seguinte, com a cerração ainda mais densa e indevassável, o
esclarecedor Bandeira tropeçou numa cerca de arame farpado. Ficou sem mover um
dedo, rezando para que não fosse ligada a uma mina. Afastou-se e chamou o
sargento. Examinaram a cerca. “Chegamos” sussurrou o sargento Nilson “isto deve
ser a primeira linha de defesa deles.” O capitão Ernani arrastou-se até eles.
Tocou no arame como em algo nunca visto. “Aqui é o começo da tal Linha Gótica.”
De repente a névoa abre uma brecha e
podem ver mais adiante. Fortificações, maciços de concreto, um enorme canhão
105. “É aquele o filho da mãe” diz o tenente Mário, procurando espaço entre
eles. “São dois” diz o sargento, apontando outro mais adiante. “São três” diz o
tenente Mário, apontando o terceiro. “E agora?” o sargento olha para o capitão.
“Um grupo de combate avança, dois dão cobertura” diz Ernani. “Vamos nos
arrastar até lá e cair de surpresa sobre eles, duvido que pensem que estamos
tão perto.” “Sargento, você vem comigo” diz o tenente Mário “traga seu Grupo de
Combate.” E o tenente Mário Cabral de Vasconcelos, 23 anos, começou a se
arrastar em direção ao posto de artilharia alemã, sem dar tempo do sargento
Nilson dizer sim, senhor. Eram quinze homens se arrastando em silêncio. Suas
únicas experiências de guerra até o momento tinha sido a tomada de Camaiore e aquela
subida penosa pela estrada da montanha. Pedrinho, o gago Atílio, Alemão,
Quevedo, Bandeira, com os dedos duros de frio, apertando os fuzis, agarrando as
granadas, se arrastavam com o máximo de cuidado. O sargento Nilson colado no
tenente Mário. Mal respiravam. Escorregaram por baixo de uma cerca de arame
farpado. A farda do gago Atílio se prendeu e ele safou-se com um arranco
nervoso, que fez um ruído de coisa rasgada. A névoa se abriu por um momento e
eles viram os alemães a menos de 10 metros, com seus capotes cinzentos.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Os canhões de Monte Prano
20.
O QG de Zenóbio, numa sala do único hotel de Camaiore, estava cheia de oficiais, todos com os olhos brilhantes e grandes sorrisos. Estacionou um jipe diante do hotel. Levava escrito Liliana no para-choque. Abriram passagem para o general Mascarenhas que chegou silencioso como sempre. Apertou mãos, concordou com a cabeça para uma quantidade de frases proferidas ao mesmo tempo, olhou Zenóbio nos olhos e todos silenciaram. “Nenhuma baixa, general”, disse Zenóbio. Os oficiais bateram palmas. “Alguns feridos, 15, ao que parece, nenhum grave. E 23 prisioneiros.” Novas palmas. “Nossos soldados e oficiais estão de parabéns, general Zenóbio, e o senhor de modo especial. Tomar Camaiore dos alemães, nossa primeira missão, foi bem sucedida, graças a Deus, mas isto é só o princípio. Avançamos um passo, agora precisamos avançar outro” disse Mascarenhas. “O Comando Aliado já nos deu a próxima missão: vamos nos mover para cerrar contra a Linha Gótica, que inicia aqui perto, nos contrafortes dos Apeninos. Para avançar, precisamos dominar o Monte Prano e silenciar os canhões que lá estão instalados. Eles têm um posto de observação de artilharia muito competente.” “Esses canhões estão nos dando trabalho, comandante”, disse Zenóbio, “mal terminamos a ponte para Camaiore e ela já foi atingida por cinco projéteis, tiros de canhão disparados do Monte Prano.” “Eles dominam toda a região lá de cima, e os canhões tem longo alcance. Vai ser uma subida dura, general. O senhor precisa estudar esse assunto.” Zenóbio inflou o peito de orgulho. “Já estou pensando nisso, comandante” e bateu uma continência vistosa, como se fosse um cadete recém-formado. Nesse momento uma gritaria chamou a atenção de todos. Aproximaram-se da janela. Centenas de cidadãos de Camaiore tomava a rua fazendo alvoroço, gritando e gesticulando. Três mulheres eram empurradas e espancadas. Tinham as cabeças raspadas, vestiam sacos de estopa e estavam sem sapatos, pisando a rua de pedra. As cabeças raspadas mostravam cortes e sangravam. “São colaboracionistas”, disse o major Brayner, “já impedimos dois linchamentos desde ontem.” “Isso é degradante”, disse Mascarenhas, “vamos impedir esses fatos a todo custo, quero reforço no policiamento. Se alguém tem de ser punido que seja pelos tribunais.” Olharam durante alguns instantes a chegada de PMs que tiveram muita dificuldade para separar as mulheres de seus espancadores. Zenóbio se afastou da janela. Zenóbio tinha dito a Mascarenhas que já estava pensando num plano de ataque, mas na verdade não havia muito em que pensar. O Monte Prano tem 1,2 mil metros de íngremes escarpas rochosas, coberta de vegetação rala, onde ninguém pode se ocultar. A subida é praticamente de peito aberto, e isso é suicídio puro. A única possibilidade é uma manobra envolvente; no fim da manhã essa proposta já estava claro na Ordem do Dia despachada pelo Estado-Maior do Destacamento Zenóbio. “Inicialmente envolver Monte Prano, se possível capturar Monte Prano pelo Oeste; conquistando em seguida a Linha Monte Valimona-Monte Acuto; finalmente, conforme as informações, retificar a linha de frente, na altura de Monte Prano.” Zenóbio reuniu seus oficiais, mostrou o mapa no cavalete: “Vamos envolver o Monte Prano com três batalhões justapostos. Estamos praticamente sem reservas, mas vamos fazer o que esperam de nós, sem lamúrias. O 1º Batalhão faz o desbordamento pelo Oeste, o 3º Batalhão pelo centro, vai subir o Rondinaja, um local medonho, cheio de minas, e o 2º Batalhão vai pela direita, o Segundo vai se lançar sobre as vilas de Fabiano e Austiciana. Iniciamos a manobra amanhã às sete. E vamos nos encontrar todos lá em cima, se Deus quiser.” O Destacamento Zenóbio, que a rigor era todo o 6º RI, começou a manobra envolvente ao Monte Prano no início da manhã do dia 20 de setembro, com um dia mais frio do que o habitual para essa época do outono, e com nuvens cinzas cobrindo os contrafortes da cordilheira. Os milhares de brasileiros avançavam cuidadosamente, cobrindo uma frente de 12 quilômetros. Diante deles, o terreno a palmilhar era áspero, todo em aclive. Passaram por localidades de poucas casas, todas de pedra, onde os moradores temerosos abanavam para os soldados. A subida pouco a pouco ficava mais íngreme. Passaram pelas localidades de Vado e Lombrici. A uma da tarde chegaram em Casoli, casas de pedra construídas ao lado da estrada. Fizeram uma parada para o rancho. “Daqui pra frente não sobe nem jipe”, disse o sargento Nílson, sentando no chão, costas contra uma parede, acendendo um cigarro. Olhou ao redor: a cordilheira agora realmente começava. Onde ele estava, rodeado de seus soldados, podia ver as imensidões se sucedendo em gigantescos contrafortes de pedra. A única estrada era estreita, cheia de curvas, e na beira de um precipício que causava calafrios. “Este lugar é bom para o turismo”, disse Nilson, mas todos estavam muito cansados para conversar. Cada um carregava em torno de 12 quilos, contando armas, munição, cobertor e a ração K. Esta ração era uma caixa embalada em papelão, que continha uma pequena caixa com pasta de carne, um pacote de bolacha, uma latinha com queijo, dois chocolates, uma caixa de chicletes, uma caixa de fósforos e três cigarros, palitos, balas, band-aid e papel higiênico. Todos começaram a abrir suas rações K, todos mastigavam olhando as montanhas se desdobrando interminavelmente. “Quanto tempo vamos levar até lá em cima, sargento?”, perguntou Quevedo, sentado a seu lado. “Pelo que ouvi falar só chegamos lá em cima depois de vinte horas de marcha”. “Então, só amanhã”. “Só amanhã. Por quê? Tá com pressa?”. “Pressa não digo, mas tô curioso pra ver os tais canhões”. Nesse instante ouviram o som dos canhões disparando para os alvos lá embaixo na planície. O ruído era assustador e todos se olharam. Sorriram, escondendo os sentimentos, mas pálidos. “Onde vamos dormir, sargento?”, perguntou Pedrinho. “Tem um hotel de luxo especialmente para ti, logo ali.” Todos deram risada. Os canhões tornaram a atirar. O som de morte se espalhou sobre os soldados sentados ao longo da estrada à beira do abismo. “Calma que eu tô chegando!”, gritou Quevedo. Deram novas risadas. O capitão Ernani passou por eles, parou um pouco, contemplou a imensidão. Falou olhando para Nilson. “Sargento, vamos recomeçar a marcha.” O sargento se pôs de pé, os soldados foram todos ficando em pé, e em pouco a enorme fila estava a subir a estrada cheia de curvas, onde começava a açoitar o vento frio.
domingo, 20 de maio de 2012
Horror em Camaiore
19.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Batismo de fogo na noite escura
18.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
A porta do inferno está aberta
17.
terça-feira, 1 de maio de 2012
Numa terra estranha
16.
Zoé, Dulce e Virgínia voaram do Rio para Natal, de onde seguiriam imediatamente para Dacar. Mas após uma série de confabulações misteriosas entre os oficiais da FAB e os comandantes do Corpo de Enfermagem, acompanhadas por elas com ouvidos atentos, souberam que deveriam ficar em Natal, “talvez por alguns dias”. Enquanto arrastavam suas mochilas para os alojamentos no outro extremo da pista ouviram que um avião tinha sido abatido nesse mesmo dia, na rota que tomariam para Dacar. Somente decolaram três dias depois e pousaram após 12 horas de voo numa faixa estreita de terra que tinha o nome de Ilha de Ascensão. Abastecido o aeroplano, levantou para Acra, capital da Costa do Ouro. Pernoitaram em Dacar, mas após novas confabulações misteriosas foram para Atar, abasteceram, rumaram para Robert Field, depois Marrakesh, onde foram atropeladas por um camelo na saída do aeroporto. As 25 enfermeiras chegaram a Casablanca num final de tarde avermelhado, onde descansaram por três dias, em meio ao calor infernal, o pó da rua onde ficava o hotel e o alarido dos vendedores. Finalmente levantaram voo mais uma vez e aterrissaram em Alger. Era 12 de julho, tinham saído do Rio na madrugada do dia 2 e todas estavam confusas e atemorizadas. Elza, a mais despachada e influente do Corpo de Enfermeiras, disse “Vamos para Nápoles. O 1º Escalão já está lá”. Era verdade. O 1º Escalão já estava lá, mais exatamente nos arredores da cidade, em Agnano, acampado no barro, sem barracas, sem cozinha, sem mantas para se cobrir. Era pleno verão, mas a noite parecia de gelo. Estavam acampados na cratera do vulcão Astronia, abaixo do nível do mar, o que aumentava a sensação de frio. A maioria dos 5.800 homens não sabia desses detalhes. Estenderam-se no chão, cobriram-se com seus casacos. Foi oferecido aos generais Mascarenhas de Moraes e Zenóbio da Costa hospedagem no Parco Hotel de Nápoles, mas eles recusaram terminantemente. Foram montadas duas barracas onde passaram a noite com a tropa. Seria uma longa noite, ouviam-se tosses, gemidos, algum palavrão em voz contida. Os homens sonhavam com a devastação do porto de Nápoles, com os estranhos balões presos por cordas ao longo de todo o litoral, a fim de atemorizar voos rasantes de aviões inimigos. Súbito, irrompeu um alarido agudo e iniciou um corre-corre no lado direito do acampamento. Um oficial se aproximou da barraca de Mascarenhas. “Tentativa de suicídio”, disse o oficial, “já foi dominado.” “Quem era?” O oficial olhou para a tropa deitada na escuridão do chão enlameado. “O tenente-médico Soares Silva, ele teve um surto, algo assim, apanhou o revólver e tentou obrigar seu ordenança a atirar nele. Já está tudo sob controle, comandante.” “Muito bem, obrigado.” O oficial fez continência e se afastou. Mascarenhas procurou Zenóbio, ambos se olharam em silêncio. “Começamos mal, companheiro” disse Zenóbio. “Não vou subestimar este episódio” respondeu Mascarenhas, “mas já esperava algo parecido. A viagem foi muito tensa, estamos parecendo um bando de mendigos, vamos ter muito trabalho, meu amigo.” Zenóbio bocejou, apanhou um charuto. “Um médico, hein? Quem diria.” “Nossos tenentes vêm da turma de aspirantes a oficiais que deixou Agulhas Negras três meses atrás, Zenóbio, às vésperas de partir. Foram promovidos a 2º-tenentes no dia do embarque. Tudo era festa de estudantes. A maioria desses oficiais nunca viu um corpo de tropa, nunca entrou numa caserna.” E agora estão aqui.” “Numa terra estranha, numa noite escura, no chão enlameado. Vamos ter muito trabalho, meu amigo.” Recolheram-se a suas barracas, mas foi difícil dormir. A frase “A viagem foi muito tensa” ficou repercutindo em seus ouvidos. Mascarenhas lembrava-se de que estava na sala de oficiais do General Mann ouvindo o noticiário da BBC quando o locutor anunciou: “Aproxima-se de Nápoles, navegando pelo Mediterrâneo, o comboio conduzindo o primeiro contingente de tropas brasileiras para participar da luta no Teatro de Operações europeu.” Era absurdo, mas verdadeiro. A operação mais secreta e sigilosa do exército brasileiro era anunciada aos quatro ventos pelos poderosos microfones da BBC. Um coronel americano esbravejou: “Ingleses filhos da mãe! Nos entregaram aos alemães!” E esse possível exagero do coronel logo se tornou realidade. O oficial de ligação do navio estendeu um telegrama para o major Brayner. “Um forte esquadrão de bombardeiros inimigos, oriundo do norte da Itália, devidamente protegido, voa na direção do comboio, que poderá ser atingido dentro de uma hora, caso não seja interceptado. Todos os meios de interceptação, das bases do norte da África, Sicília, Nápoles e Sardenha, foram acionados e deverão dar a cobertura ao comboio. Convém estar preparado para a luta antiaérea.” Mascarenhas lembra o olhar atento dos americanos para a reação dos brasileiros. Ele e Brayner ficaram impassíveis, mas a notícia se espalhou. Houve um calafrio na tropa amontoada nos porões, mas o ataque não aconteceu. Agora na sua barraca, sente o chão duro, dores no corpo. Pudera. Está com 61 anos, não é idade de ir para a guerra. No dia anterior sofrera uma humilhação inesperada, que ainda remoía. Já passara uma semana do desembarque, continuavam amontoados no porto, via com apreensão os homens se misturando às prostitutas e aos proxenetas, às crianças famintas, às mulheres desesperadas. E nada de o comando americano lhes fornecer as armas do acordo firmado. Protelavam, davam desculpas, Mascarenhas olhava os soldados vagando sem objetivo, tomou uma decisão, chamou Brayner. “Major, vamos falar com o órgão provedor. Temos um acordo, eles nos devem.” Rumaram de jipe para o antigo e imponente Palácio Real, no bairro de Caserta, onde funcionava a base de suprimento. Esperaram mais de uma hora numa saleta barroca, olhando o quadro a óleo de um antigo e afetado monarca italiano. Enfim apareceu o general Harris, comandante do órgão. Denotava pressa, e brandiu no ar com desprezo a lista de petições enviada a ele. “Afinal de contas, o que vocês trouxeram para lutar?” O major tradutor se esforçou para amenizar a atitude do general americano, chegando a lembrar que Mascarenhas organizara a defesa do nordeste brasileiro para a América. “Para a América, não,” disse Mascarenhas, “para o mundo ameaçado pelo nazismo, meu senhor. E essa petição é produto do acordo firmado em Washington pelos nossos governos. Apenas isso.” Mas o clima da reunião estava definitivamente abalado, embora o general Harris tenha moderado seu tom. Mascarenhas e Brayner voltaram em silêncio no jipe, olhando a paisagem ferida, as ruínas e as pessoas vagando sem rumo.
Zoé, Dulce e Virgínia voaram do Rio para Natal, de onde seguiriam imediatamente para Dacar. Mas após uma série de confabulações misteriosas entre os oficiais da FAB e os comandantes do Corpo de Enfermagem, acompanhadas por elas com ouvidos atentos, souberam que deveriam ficar em Natal, “talvez por alguns dias”. Enquanto arrastavam suas mochilas para os alojamentos no outro extremo da pista ouviram que um avião tinha sido abatido nesse mesmo dia, na rota que tomariam para Dacar. Somente decolaram três dias depois e pousaram após 12 horas de voo numa faixa estreita de terra que tinha o nome de Ilha de Ascensão. Abastecido o aeroplano, levantou para Acra, capital da Costa do Ouro. Pernoitaram em Dacar, mas após novas confabulações misteriosas foram para Atar, abasteceram, rumaram para Robert Field, depois Marrakesh, onde foram atropeladas por um camelo na saída do aeroporto. As 25 enfermeiras chegaram a Casablanca num final de tarde avermelhado, onde descansaram por três dias, em meio ao calor infernal, o pó da rua onde ficava o hotel e o alarido dos vendedores. Finalmente levantaram voo mais uma vez e aterrissaram em Alger. Era 12 de julho, tinham saído do Rio na madrugada do dia 2 e todas estavam confusas e atemorizadas. Elza, a mais despachada e influente do Corpo de Enfermeiras, disse “Vamos para Nápoles. O 1º Escalão já está lá”. Era verdade. O 1º Escalão já estava lá, mais exatamente nos arredores da cidade, em Agnano, acampado no barro, sem barracas, sem cozinha, sem mantas para se cobrir. Era pleno verão, mas a noite parecia de gelo. Estavam acampados na cratera do vulcão Astronia, abaixo do nível do mar, o que aumentava a sensação de frio. A maioria dos 5.800 homens não sabia desses detalhes. Estenderam-se no chão, cobriram-se com seus casacos. Foi oferecido aos generais Mascarenhas de Moraes e Zenóbio da Costa hospedagem no Parco Hotel de Nápoles, mas eles recusaram terminantemente. Foram montadas duas barracas onde passaram a noite com a tropa. Seria uma longa noite, ouviam-se tosses, gemidos, algum palavrão em voz contida. Os homens sonhavam com a devastação do porto de Nápoles, com os estranhos balões presos por cordas ao longo de todo o litoral, a fim de atemorizar voos rasantes de aviões inimigos. Súbito, irrompeu um alarido agudo e iniciou um corre-corre no lado direito do acampamento. Um oficial se aproximou da barraca de Mascarenhas. “Tentativa de suicídio”, disse o oficial, “já foi dominado.” “Quem era?” O oficial olhou para a tropa deitada na escuridão do chão enlameado. “O tenente-médico Soares Silva, ele teve um surto, algo assim, apanhou o revólver e tentou obrigar seu ordenança a atirar nele. Já está tudo sob controle, comandante.” “Muito bem, obrigado.” O oficial fez continência e se afastou. Mascarenhas procurou Zenóbio, ambos se olharam em silêncio. “Começamos mal, companheiro” disse Zenóbio. “Não vou subestimar este episódio” respondeu Mascarenhas, “mas já esperava algo parecido. A viagem foi muito tensa, estamos parecendo um bando de mendigos, vamos ter muito trabalho, meu amigo.” Zenóbio bocejou, apanhou um charuto. “Um médico, hein? Quem diria.” “Nossos tenentes vêm da turma de aspirantes a oficiais que deixou Agulhas Negras três meses atrás, Zenóbio, às vésperas de partir. Foram promovidos a 2º-tenentes no dia do embarque. Tudo era festa de estudantes. A maioria desses oficiais nunca viu um corpo de tropa, nunca entrou numa caserna.” E agora estão aqui.” “Numa terra estranha, numa noite escura, no chão enlameado. Vamos ter muito trabalho, meu amigo.” Recolheram-se a suas barracas, mas foi difícil dormir. A frase “A viagem foi muito tensa” ficou repercutindo em seus ouvidos. Mascarenhas lembrava-se de que estava na sala de oficiais do General Mann ouvindo o noticiário da BBC quando o locutor anunciou: “Aproxima-se de Nápoles, navegando pelo Mediterrâneo, o comboio conduzindo o primeiro contingente de tropas brasileiras para participar da luta no Teatro de Operações europeu.” Era absurdo, mas verdadeiro. A operação mais secreta e sigilosa do exército brasileiro era anunciada aos quatro ventos pelos poderosos microfones da BBC. Um coronel americano esbravejou: “Ingleses filhos da mãe! Nos entregaram aos alemães!” E esse possível exagero do coronel logo se tornou realidade. O oficial de ligação do navio estendeu um telegrama para o major Brayner. “Um forte esquadrão de bombardeiros inimigos, oriundo do norte da Itália, devidamente protegido, voa na direção do comboio, que poderá ser atingido dentro de uma hora, caso não seja interceptado. Todos os meios de interceptação, das bases do norte da África, Sicília, Nápoles e Sardenha, foram acionados e deverão dar a cobertura ao comboio. Convém estar preparado para a luta antiaérea.” Mascarenhas lembra o olhar atento dos americanos para a reação dos brasileiros. Ele e Brayner ficaram impassíveis, mas a notícia se espalhou. Houve um calafrio na tropa amontoada nos porões, mas o ataque não aconteceu. Agora na sua barraca, sente o chão duro, dores no corpo. Pudera. Está com 61 anos, não é idade de ir para a guerra. No dia anterior sofrera uma humilhação inesperada, que ainda remoía. Já passara uma semana do desembarque, continuavam amontoados no porto, via com apreensão os homens se misturando às prostitutas e aos proxenetas, às crianças famintas, às mulheres desesperadas. E nada de o comando americano lhes fornecer as armas do acordo firmado. Protelavam, davam desculpas, Mascarenhas olhava os soldados vagando sem objetivo, tomou uma decisão, chamou Brayner. “Major, vamos falar com o órgão provedor. Temos um acordo, eles nos devem.” Rumaram de jipe para o antigo e imponente Palácio Real, no bairro de Caserta, onde funcionava a base de suprimento. Esperaram mais de uma hora numa saleta barroca, olhando o quadro a óleo de um antigo e afetado monarca italiano. Enfim apareceu o general Harris, comandante do órgão. Denotava pressa, e brandiu no ar com desprezo a lista de petições enviada a ele. “Afinal de contas, o que vocês trouxeram para lutar?” O major tradutor se esforçou para amenizar a atitude do general americano, chegando a lembrar que Mascarenhas organizara a defesa do nordeste brasileiro para a América. “Para a América, não,” disse Mascarenhas, “para o mundo ameaçado pelo nazismo, meu senhor. E essa petição é produto do acordo firmado em Washington pelos nossos governos. Apenas isso.” Mas o clima da reunião estava definitivamente abalado, embora o general Harris tenha moderado seu tom. Mascarenhas e Brayner voltaram em silêncio no jipe, olhando a paisagem ferida, as ruínas e as pessoas vagando sem rumo.
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