quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Um Dragão Mora Lá Em Cima

27.

Os pracinhas subiam com esforço, tentando ignorar a chuva fina nas costas e a massa de neblina que dificultava a visão, quando Mascarenhas instalou-se no Posto de Comando do 6º- RI, para observar a operação. Estava acompanhado de Cordeiro de Farias e de um oficial de operações do IV Corpo. Todos munidos de binóculos, telefones e rádios, planilhas e códigos secretos. Os generais Mascarenhas e Cordeiro estavam evidentemente tensos. A presença do oficial americano não os ajudava em nada para relaxar. Brayner falava simultaneamente ao telefone e por rádio. Zenóbio estava lá adiante, comandando a largada dos pelotões, observando os grupos subindo a montanha. Pelo binóculo ele via os pracinhas escorregando, se agarrando, aguentando a chuva fininha caindo nas costas. Mascarenhas atendeu o telefone. “General, aqui é Zenóbio.” “Fala, Zenóbio.” “O avanço continua sem interrupções.” “Que Deus os abençoe. Traga uma vitória, Zenóbio.” Essa frase o preocupou. Pensou que fora injusto. Estava dando uma responsabilidade para Zenóbio que na realidade não era dele. A operação fora planejada e conduzida pelo comando americano. Os brasileiros não foram consultados e não deram uma palavra á respeito da missão que receberam. Brayner e os oficiais do Estado Maior estavam apreensivos e irritados. Não recebiam dos aliados um tratamento digno e sabiam disso. “Onde eles estão?” perguntou Mascarenhas. “Na cota 750, general.” Exatamente na cota 750, e nesse mesmo instante, Pedrinho, o gago Atílio, Alemão e Quevedo se jogaram atrás de um renque de pedras redondas, lisas pela chuva, onde a água escorregava. Estavam exaustos, precisavam duma pausa. Eles subiam na esteira dos tanques americanos, usando-os como escudo. Quevedo consultou o relógio. Dez da manhã. “Estamos subindo esta lomba há mais de quatro horas e de barriga vazia” disse. “Sabem no que estou pensando? Não é numa picanha mal passada, nem numa costela gorda. É coisa bem mais modesta. Tô pensando numa caneca de café bem quente, com açúcar mascavo e uma bolacha daquelas comprada em Libres.” “Deus me livre” disse Pedrinho, “eu penso é num pastel de banana, como só minha mãe sabia fazer e a gente levava para a feira depois da missa, nos domingos.” Olharam os tanques americanos passando ao lado deles, patinando na lama, escorregando, mas avançando com lentidão. “Esses bichos me dão medo” disse o Alemão. “Espero que ele dê mais medo nos teus parentes que estão nos esperando lá em cima” disse Quevedo. “Meus parentes não moram lá em cima” disse o Alemão, “lá em cima mora uma princesa loira, com uns cabelos que vem até o meio das costas.” “Um dragão mora lá em cima e vai engolir vocês todos, seus mandriões, se não levantarem e começarem a andar” berrou o sargento Nilson, passando por eles. Nesse instante acontece uma explosão em baixo de um tanque americano, a dez metros de onde estavam. As lagartas do tanque rebentaram e saltaram em pedaços. O tanque ficou imobilizado. E como se fosse um movimento orquestrado, os canhões de 88 mm dos tanques alemães começaram a despejar fogo na posição em que estavam. O grupo se encolheu atrás das pedras. “Já estava demorando pra começar o baile!” disse Quevedo. “Atrás dos tanques, atrás dos tanques!” ordenou Nilson. Todos correram para a proteção ordenada, enquanto as explosões aumentavam. Mas os tanques não se moviam. O capitão Uzeda apareceu ao lado de Nilson. “O que há, sargento? Por que estão parados?” “Alguma coisa impede o avanço dos tanques americanos, capitão.” “Minas, sargento. Vou falar com eles.” Nilson viu o capitão Uzeda subir num tanque e falar com um tenente americano.  Pouco depois pulou para o solo, aproximou-se de Nilson de cara amarrada. “Ele disse que não vão prosseguir, o terreno é minado.” “E nós, o que vamos fazer, capitão?” “Estamos perto do cume, mais duzentos metros e estamos lá, vamos tentar dar a volta nos tanques alemães e subir até lá em cima, que vamos ter a proteção dos americanos da 370 de Infantaria, a Divisão dos negros. Eles também devem estar chegando.” “Muito bem, capitão.” E Nilson reuniu-se ao seu Grupo de Combate. “Vamos tentar escapar aos tanques alemães e chegar lá em cima, macacada! Vamos!” Com o capitão Uzeda a frente, a tropa brasileira foi se afastando dos tanques americanos que lhes davam proteção e se deslocando em direção ao cimo do Monte Castelo, enquanto o fogo das armas aumentava cada vez mais de intensidade.  Pedrinho sentiu que alguma coisa grande começava a acontecer. “Vamos tomar o Monte Castelo, vamos ser os primeiros a chegar lá em cima!” Havia uma energia eletrizante que se propagava com o olhar, uma ferocidade alegre que lhes dava força, e havia aquele capitão de bigode fininho que olhava bem dentro do olho de cada um quando falava e isso fazia todos esquecerem a barriga pedindo comida, as pernas pedindo descanso, só havia o ritmo da subida e os pulmões chegando ao limite da capacidade. E de repente estavam numa esplanada. Com um sentimento de esplendor viram as casamatas alemães na beirada dos precipícios, os canhões molhados, as metralhadoras sobre os sacos de cimento, os capacetes alemães reluzentes de chuva e neblina. Atacaram com fúria, jogando as granadas e ocupando as primeiras casamatas. Os alemães, surpresos e atarantados, saíam com as mãos para cima ou corriam metendo-se no bosque de árvores ralas e machucadas pelos bombardeios. O grupo avançou tomado pelo frenesi da vitória, gritando e jogando granadas. Depois, foi uma longa pausa, onde olharam para os lados. “Cadê os americanos?” perguntou o sargento Nilson, “era para estarem aqui antes de nós.” O capitão Uzeda olhou perplexo para todos os lados, até escutar um rumor surdo de tanques avançando. “Aí vem eles” disse. Os tanques surgiram em formação de três, com os canhões de 88 mm apontados para os brasileiros, e não eram tanques americanos. Eram alemães. E começaram a despejar fogo, uma barragem ensurdecedora e mortal. Os brasileiros se jogaram no chão ou se enfiaram nas casamatas. O capitão Uzeda ainda lançou um olhar de esperança ao redor, mas não havia sinal dos americanos. “Deus do céu, os malditos nos abandonaram” exclamou  com um sentimento de rancor crescendo no peito. “Vamos nos retirar enquanto dá! Em ordem e acelerado!”

Monte Castelo

26.

Os três generais ficaram um bom tempo olhando para as montanhas meio encobertas pela névoa. “O Monte Castelo é aquele bem no centro, o mais arredondado. Os outros são pontiagudos” disse Zenóbio. Os três estiveram um bom tempo olhando a cadeia de montanhas, apoiados no jipe, fumando. Era de manhã bem cedo. O frio, a cada dia, se tornava mais intenso. O major Brayner aproximou-se com um binóculo pendurado no pescoço. Onde estavam era uma espécie de mirante, com uma cerca de pedra. “Foi dado a entender que é uma espécie de presente de Natal antecipado para nós” disse Mascarenhas. “Mas o major Brayner acha que está mais para presente de grego” disse Zenóbio.  “Nossa missão é um ataque frontal ao Monte Castelo” disse Brayner. Cordeiro de Farias apanhou o binóculo de Brayner e olhou demoradamente as montanhas. “Frontal? Ataque frontal é suicídio” disse Cordeiro. Brayner fez cara de eu-não-disse. “Esse Monte Castelo, que os americanos chamam de Cota 970, é a nossa parte na operação. Os americanos vão atacar pelos flancos e nos dar cobertura.” “O general Cordeiro de Farias acha que é suicídio” disse Zenóbio. “Eu ouvi. O general Cordeiro é um homem de bom senso, mas esta é uma determinação do comando do V Exército Americano.” Mascarenhas de Moraes olhou com seus olhos mansos os três homens sob seu comando. “Estamos sob as ordens do V Exército e como soldados nos cabe cumprir a determinação.” “Vamos cumprir a missão, general” disse Zenóbio, endurecendo a voz. “Vamos mostrar para americanos e alemães nossa capacidade como soldados.” “Eu desconfio dessa missão” disse Brayner. Zenóbio ficou sombrio. “Desconfia, Brayner? Desconfia de que?” “Desconfio, general Zenóbio, de que não haverá teto para os aviões decolarem, e, consequentemente, desconfio de que não haverá cobertura para uma operação desse tipo.” “Esta operação é responsabilidade da Task Force 45, sob o comando do coronel Truscott. Nenhuma responsabilidade é nossa” disse Mascarenhas. “Os americanos tomarão o Monte Belvedere na direita e o Monte de la Torraccia na esquerda, e nos darão cobertura adequada para avançarmos pelo centro.” “Se eles não tomarem essas posições estaremos no mato sem cachorro” disse Zenóbio. “Como chefe do Estado-Maior é minha obrigação alertar para os riscos desta missão, comandante” disse Brayner, com cautela. “Nossa tropa está em combate há 70 dias, não teve tempo suficiente para descansar e recuperar as forças, e, principalmente, as baixas não foram repostas. Há claros evidentes nas nossas fileiras.” “Precisamos ter confiança na ação de nossos aliados, Brayner. É difícil estar sob o comando de outro país, é uma experiência nova para todos nós, mas precisamos nos acostumar, como todos que estão nesta guerra. Vamos voltar para o PC.” Entraram no jipe e o motorista arrancou. Brayner olhou com amargura para a cadeia de montanhas, fria e poderosa. “Amanhã vai estar chovendo” disse, acendendo um cigarro e soprando a fumaça para o alto. Houve missa na madrugada do dia 24, e a chuva caindo sobre o teto de lona da capela deixava todos taciturnos. Assistiu à missa o comando da FEB inteiro, mais um bom número de oficiais, sargentos, praças e enfermeiras. Fora da capela havia uma enorme agitação. Caminhões passavam cheios de soldados e carros tanques esmagavam o barro e esparramavam água suja. “Vamos pedir a Deus que nos ilumine nesta hora de provação” disse o capelão, “porque vamos enfrentar as forças do ódio e da maldade e vamos pedir a Deus Nosso Senhor que nos dê coragem para a batalha que se aproxima.” Vários oficiais comungaram, o capelão lançou uma benção e a tensão que pairava no ar frio da capela de lona pareceu assomar. Todos apertaram as mãos, desejaram sucesso, deram palmadas nas costas. “A cobra vai fumar!” gritou alguém. Deram risadas e repetiram o grito: “A cobra vai fumar!” Quevedo levantou a lona do caminhão e espiou. “O caminhão parou, não tem nem estrada aqui. Ei, vamos ter que subir essa montanha toda?” O Alemão, o gago Atílio e Pedrinho também espiaram. “Vai ser fogo” disse o Alemão, “só nos dão pedreira pra subir.”  “Menos mal que a chuva parou” disse Pedrinho, “mas mesmo assim não se vê nada com essa cerração.” “Não precisa ver nada mesmo daqui de baixo” disse Quevedo “nós vamos é lá em cima ver os tedescos bem de pertinho.” “Só de olhar essa subida já me doem as pernas” disse o Alemão. O sargento Nilson saiu lá do fundo da carroceria do caminhão. “Descendo, macacada, descendo!”  Os soldados foram saltando para o chão enlameado. “Ve-ve-jam o chão” disse o gago Atílio. “Ge-ge-gelo! T-t-tá tu-tu-tudo gelado!” Escarvaram com a ponta das botas o chão, arrancaram pequenas lascas de gelo. “O frio está chegando.” “Em fila, em fila!” gritava o sargento Nilson. Da longa e sinistra fila de caminhões, vultos escuros na madrugada, os soldados foram saltando para o solo gelado e começando a se organizar em longa fila. Todos olhavam para o maciço paredão a sua frente com um peso na alma. “Como vamos subir isso tudo?” era a pergunta em todas as mentes. “Sabe o quê” disse Quevedo “nem uma caneca de café nos serviram.” “É verdade” disse o Alemão “estou começando a sentir um buraco no estômago.” “Ei, sargento” gritou Quevedo “esqueceram do rancho?” “Não é hora de perguntar isso, praça, vai entrando em fila e batendo os pés para não encarangar.” “Mas, sargento, saco vazio não fica em pé.” “Anda estupor, começa a se mexer, em frente, vamos.” Começaram a se mexer no escuro, avançando sem saber para onde, apenas iam em frente. “Dizem que é uma operação conjunta com os americanos” disse o Alemão. “Então vai ser barbada, vamos tomar esse morro sem sofrer muito.” “E os americanos, será que tomaram café?” Alguns deram risadas, outros responderam com palavrões. “Como é mesmo o nome de morro?” perguntou Pedrinho. “Dizem que é Monte Castelo” disse o Alemão. “Lá em cima a vista deve ser bonita” disse Pedrinho. “Em frente!” gritava o sargento Nilson. “Em frente, molengas! Vamos chegar lá em cima antes do sol aparecer! Vamos tomar esse morrinho antes dos americanos, pra eles verem a força do carvão de pedra!” Eram mais de mil soldados curvados, tiritando de frio, escorregando no chão enlameado, com os dedos duros aferrados aos fuzis, subindo lentamente a montanha escura. 

Pânico no Hospital de Campanha

25.

“Não aconteceu um massacre porque o capitão Ramagem mandou o pessoal bater em retirada. Foi a única coisa que ele pode fazer para salvar seus homens.” O refeitório do hospital estava lotado, era hora do jantar e todos falavam em voz baixa. “Mas o que houve mesmo?” insistiu Elza, com seu olhar penetrante, “ouvi falar de que houve desleixo, tinham tomado as posições e não fizeram o mínimo para se precaver contra um contra-ataque.” O capitão Marcos estava sentado entre Virginia e Dulce, com Zoé e Elza no outro lado da mesa, á sua frente. “Eu não estava lá para saber exatamente o que houve, tenente Elza. Eu estava em meu quarto de hotel, com fogo na lareira e uma taça de vinho na mão. Falar vão falar muito e inventar uma série de medidas que deveriam ser tomadas, mas só os que estavam lá, debaixo da chuva e no meio do fogo, é que sabem exatamente o que aconteceu.” “O que eu sei” disse Elza “é que cabeças vão rolar. Depois do capitão Ramagem outras companhias o imitaram e bateram em retirada.” “Não foi uma retirada, tenente, os homens voltaram ás suas posições de origem.” “Qual a diferença?” perguntou Verônica. “Retirada é abandonar tudo e...” Marcos interrompeu a fala porque alguém batia palmas com força na entrada do refeitório. “Atencion, please, atencion, please!” Era um major americano, e havia certa pressa na sua voz. “Todos os oficiais em reunião urgente no PC. Os demais comecem a preparação para evacuar o hospital imediatamente.” “O que está acontecendo?” perguntou Zoé, olhos assustados. “Vamos evacuar imediatamente” disse Elza, que falava um excelente inglês.  “Porque não sei, ele não disse.” Com pressa, mas com um sincronismo perfeito, as longas mesas foram ficando vazias. “Acho que vão nos bombardear” gemeu Zoé. “Posso fazer alguma coisa?” perguntou Marcos para a tenente Elza. “Pode voltar para sua lareira no seu quarto de hotel, capitão, aqui atendemos mais de mil pacientes e não precisamos de ninguém para atrapalhar.” Marcos não esperava a dureza da resposta, mas conseguiu sorrir, fez uma breve continência. “Vamos tornar a conversar, tenente, olho no olho.” Afastou-se depois de abanar para as suas três amigas, que se paralisaram estupefatas. “Comecem a preparar para evacuar” disse Elza para as três enfermeiras, “eu vou ao PC saber o que está havendo.” Dulce, Zoé e Virginia correram para a enfermaria dos brasileiros. O hospital abrigava mais de mil pacientes, a maioria deles americanos, e com os médicos, enfermeiras e pessoal de apoio a sua população somava mais de 3 mil pessoas. Por uma das alamedas dos hospitais aproximava-se um comboio de caminhões enormes, as luzes acesas, buzinando sem parar para abrir caminho. “O que está acontecendo?” exclamavam as pessoas. Eram caminhões anfíbios, usados pelas tropas para atravessar rios. “Levem os pacientes para os caminhões!” gritavam vozes. Algumas luzes se apagaram e ouviram-se as vozes de susto. Elza apareceu de repente. “Meninas, vamos trabalhar com pressa mas sem correria! Não quero ver ninguém histérica!” “O que está havendo afinal?” gritou Dulce, “o que eles disseram?” “Os alemães explodiram a represa nas montanhas, abriram as comportas do caminho e o rio está descendo em direção a nós, vem levando tudo pelo caminho, precisamos sair daqui senão também vamos ser levados.” “Nossa Senhora!” “O rio já arrasou várias aldeias, disseram que vai levar pelo menos duas horas para chegar até nós, mas temos que colocar nossos pacientes nesses caminhões e salvar tudo que pudermos de medicamentos e roupas e tudo que for útil. Mexam-se, suas vacas grã-finas!”  Elza estava há dois meses na guerra, tinha padecido nas mãos das instrutoras americanas e aprendera com muitas lágrimas escondidas á noite na barraca que aquele era um negócio duro, onde o trabalho delas era neutralizar a dor, motivo daquele jogo sinistro, e não podia dar moleza nem ser sentimental ou sofreria ainda mais e os que dependiam dos seus serviços também. Adotar a postura de durona foi apenas uma espécie de maquiagem na sua personalidade, pois sabia que já era assim desde criança, e agora precisava mais do que nunca desse atributo. Os caminhões anfíbios foram se enchendo de feridos, mutilados e doentes. Havia uma grande enfermaria só com casos graves de soldados com distúrbios psicológicos. Alguns desses se recusavam a entrar nos caminhões. A retirada organizada ás vezes estremecia com surtos breves de tumultos e empurrões, mas pouco a pouco os caminhões foram se enchendo e começaram a se afastar. Tudo era levado para um prédio em construção distante quatro quilômetros dali, num lugar alto, onde as águas não chegariam. Pouco a pouco, sobre o rumor do hospital em retirada, sobre o ronco dos motores dos caminhões e dos jipes e das vozes e dos lamentos, começou a se ouvir um surdo e assustador coro de fantasmas, uma espécie de ladainha de mortos, uma sinfonia que por um instante paralisou a todos e dirigiu os olhares para o mesmo ponto. As águas do rio Arno chegavam. Com uma força e uma rapidez que ninguém ali esperava, as águas escuras avançavam com avidez, levando de roldão barracas, camas, cadeiras, armários, explodindo contra os veículos, derrubando pessoas e arrastando-as, gerando um medo e um pânico que ainda não conheciam.  Elza e suas três enfermeiras se enfiaram dentro de um jipe onde já estavam quatro soldados. As águas bateram neles com força, o jipe sacudiu e estremeceu, mas resistiu e as águas foram passando. “A correnteza está perdendo a força” disse o cabo na direção do jipe. “Me disseram que lá na encosta da montanha ela arrastou casas e caminhões, graças a Deus o hospital está bem longe.” Passavam boiando sapatos, panelas, bolsas, guarda-chuvas. Todos estavam encharcados e agora tomados de violento frio. “Não vamos ficar paradas” comandou Elza. “Vamos recuperar tudo que for possível. A documentação do hospital ficou lá dentro e nós vamos voltar lá e salvar o que for possível salvar.” As quatro enfermeiras saltaram do jipe. A água chegou até acima de seus joelhos, sentiram nas coxas a força e o ímpeto que queria arrastá-las, mas elas enfrentaram a correnteza e avançaram tropeçando, de mãos dadas, em direção a sua enfermaria.

O Medo do Capitão Ramagem

24.

Zenóbio estava imponente diante da mesinha de madeira: “Após as vitórias de Camaiore e Monte Prano, avançamos em perseguição aos focos nazistas no Vale do Serchio, e tomamos Fornachi, Barga, Gallicano, Monte São Quirico e Lama di Sopra, combatendo e vencendo o inimigo.” Os jornalistas tomavam notas, a chuva pingava no teto de lona da barraca. “Em Barga, tivemos a honra de receber a visita do senhor ministro da Guerra, general Eurico Dutra, que oficializou o emblema da Força Expedicionária Brasileira para esta campanha, a cobra fumando.” Deu um tapa no braço, mostrando a faixa onde estava bordada a cobra fumando. “Como os senhores sabem, o Brasil só viria para a guerra no dia que cobra fumasse. Bom senhores, a cobra fumou e continua fumando. Neste exato momento, o 6º-RI avança em direção a Castelnuovo di Grafagnana, um reduto nazista importante. É uma fortaleza fincada num terreno íngreme e escorregadio, que com esta chuva com certeza estará muito pior.” A 2ª- Companhia do 6º- RI de fato se arrastava por terreno íngreme e escorregadio sob o comando do capitão Aldenor, a chuva caindo sem parar em suas costas. O sargento Nilson conhecia o capitão Aldenor de vista, lá de Floripa. Ele tinha casado com uma moça da família Cardoso, família amiga da sua. O sargento Nilson recostou-se numa rocha e olhou ao redor. Na paisagem cinza os homens se moviam quase imperceptivelmente, num silêncio temeroso: os alemães não estavam longe, e mais uma vez guardavam uma posição favorável. Lá de cima, naquele castelo medieval, atrás daquelas paredes de pedra com centenas de anos, era fácil defender a posição. A 2ª- Companhia tinha começado a marcha de manhã bem cedo, e tinham envolvido a vila La Rochette sem grandes problemas. Perto do meio-dia se aproximaram deste lugar, Lama di Sotto, e foram recebidos com forte canhoneio. Aí travou-se um combate feroz com troca de tiros ininterrupta durante duas horas, até que o Grupo de Combate do sargento Nilson conseguiu deslizar por um buraco no muro. Pedrinho, o gago Atílio, Quevedo e Alemão rastejaram num pátio de pedras, cheio de tonéis gigantescos, e deram de cara com um alemão urinando na parede. Uma rajada de metralhadora e ele se dobrou e caiu de braços abertos. “Ultima mijada, alemão” murmurou Quevedo. Outro alemão apareceu no pátio e foi recebido a bala. Sumiu atrás dos tonéis. Pedrinho correu atrás dele, dez segundos depois voltou correndo. “São mais de trinta!” Dois alemães apareceram mas foram varridos por disparos simultâneos das cinco metralhadoras. O sargento Nilson subiu numa escada de pedra num ângulo do pátio e desferiu várias rajadas. Viu que os alemães aparentemente entraram em pânico, pois desataram a correr. “Estão fugindo!” gritou para seus homens. Pelo buraco no muro apareceram mais pracinhas que foram buscando posição atrás dos tonéis. Pouco depois apareceu o próprio capitão Aldenor com uma bazuca. A arma foi acionada e um potente tiro derrubou uma porta de madeira no outro lado do pátio. Pouco depois outro grupo de brasileiros entrou correndo pelo portão estilhaçado. Os tiros foram cessando e em breve o silêncio desceu sobre o antigo castelo. Apenas a chuva caía sem parar. Todos buscaram abrigo sob as marquises. O capitão Aldenor fez um sinal para o sargento Nilson se aproximar. “Nosso objetivo é Castelnuovo de Garfagnana. Vamos tomar um pouco de fôlego aqui e depois vamos prosseguir. Pelo mapa estamos a dois quilômetros do lugar.” “Com essa chuva vai parecer dez” disse Nilson. Meia hora depois retomaram a marcha, escorregando na lama. Pedrinho feriu a mão numa pedra ao escorregar. Quando tentava colar um band-aid no corte viu os capacetes de vários alemães mal ocultos pela vegetação rala. A uns 300 metros de onde estava. “Eles estão perto” avisou ao sargento. “Epa, o que é isso?” “Parece que eles estão vindo, sargento.” “É isso mesmo, estão vindo pra cima da gente!” Naqueles trinta dias de guerra como soldado de infantaria o sargento Nilson  ainda não tinha a experiência de ser atacado por outro grupo de infantaria. Nenhum deles tinha. E era isso que estava acontecendo. Puxou o praça que manejava o rádio. “Avise o comando que estamos sofrendo um contra-ataque.” Olhou para a frente diante dele e entendeu que os alemães eram centenas e avançavam com cautela, mas avançavam. Olhando melhor, não eram centenas, eram milhares. Para a esquerda e para a direita, até onde seu olho alcançava, o sargento Nilson via os capacetes cinzentos reluzindo á chuva que caía. “Diga que é uma Divisão inteira e que vamos ser cercados.” “C-c-cer-cados?” “Diga que precisamos de uma barragem de artilharia com urgência para impedir o avanço deles.” O capitão Aldenor se aproximou. “Estou pedindo uma barragem de artilharia, capitão.” “Eu já pedi. A 3º- Companhia está sendo envolvida. Falei com o capitão Ramagem. Eles não têm mais munição e os alemães já estão em cima deles.” “E estão em cima de nós também, capitão.” “Nós vamos aguentar o tranco, sargento. Todo mundo de granada na mão. E dê a ordem de calar baionetas.” Calar baionetas é uma ordem que dá calafrio em qualquer um. O sargento deu a ordem e viu Pedrinho calçando a baioneta na ponta do rifle, e viu o gago Atílio, e Quevedo e todos os outros soldadinhos estirados no chão molhado, com a interminável chuva escura caindo sobre eles como uma maldição, e sentiu seu coração contra a lama fria batendo, batendo, e viu que os alemães estavam a menos de 20 metros e eram na proporção de cinco para um e o sargento Nilson pensou friamente vou morrer. Vou morrer aqui neste lugar desgraçado enquanto lá em Floripa deve estar um dia sol e ao meio dia é bom ficar olhando a Lagoa da Conceição sorvendo um caldo de cana. O praça estendeu o rádio para o capitão Aldenor. “É o capitão Ramagem, senhor.” “Alô, Aldenor, estamos totalmente cercados. Agora eu sei, não é uma Divisão, nem duas. São três Divisões vindo pra cima da gente.” “Eu pedi a ação da artilharia, mas nada.” “Aldenor, estou sem munição, vamos entrar num corpo-a-corpo em alguns minutos.” “Nós também, Ramagem. Estamos sem saída e esses filhos da mãe não acionam a artilharia.” “Não estou entendendo, passei a manhã toda pedindo munição e nada.” “Vou aguentar o quanto puder.” “Eu também, Aldenor, mas sabe do que eu tenho medo? É que matem todos os meus rapazes, Aldenor.”

Dulce e Zoé no Hospital de Campanha

23.

“Então isto é o Hospital de Campanha” disse Zoé, largando a mala no chão. Dulce olhou ao redor com desconforto. Já estavam há dois meses na Itália e aquele era seu primeiro Hospital de Campanha. Até agora tinham trabalhado e feito estágio em dois grandes hospitais montados em Nápoles, nas dependências onde foi realizada a Feira Mundial. Peças arejadas, grandes corredores, pé direito gigantesco e cheiro de éter e substâncias semelhantes pairando no ar. Desfrutavam de relativo conforto para trabalhar. Virginia postou-se ao lado das duas e também largou sua mala no chão. “Que horror” murmurou, baixinho. O que viam não era muito animador. A chuva tinha parado a pouco, o barro tomava conta dos caminhos, a água empoçava no teto das centenas de barracas. A noite se formava pegajosa, alguns relâmpagos estalavam abrindo claros na escuridão. Um jipe se aproximou. A enfermeira chefe, Elza, desceu e foi direto a elas. “Não fiquem aí paradas como baratas tontas. Guardem suas tralhas na barraca e se preparem que vem aí grande confusão.” As três se olharam. Elza examinou-as um instante, carrancuda, e depois sorriu. “Mas antes tenho uma surpresa para vocês.” Fez um gesto para o jipe e o oficial desembarcou e se aproximou e elas reconheceram o capitão Marcos. Zoé se pendurou no pescoço dele, trocaram forte e demorado abraço. Zoé chorava. “Desculpem, eu sei que sou boba.” Marcos apanhou um lenço, ofereceu-o a Zoé. “Pode chorar, prima. Eu sei que vocês estão sendo maravilhosas.” Marcos ajudou-as a levar as malas para a barraca mas foi impedido de entrar pela enfermeira-chefe. “Homem não entra nessas barracas, capitão, principalmente se for um oficial bonitão.” “Não sabia que era bonitão, tenente Elza.” “Sua fama corre desenfreada como um garanhão pelas enfermarias, capitão Marcos, e eu tenho que zelar pela reputação das minhas moças. Diga-me uma coisa, capitão: como oficial de ligação, que inconfidência o senhor pode fazer a pessoas tão famintas de novidades?” “O Ministro da Guerra vem aí, fazer uma visita ao front.” “Essa já sabíamos, capitão. Conte outra.” “Churchill manca da perna direita.” “O que?” “Winston Churchill, o grande estadista, visitou nossas tropas na semana passada. Foi uma grande honra. Ele manca da perna direita. Ele passou nossas tropas em revista. O velhinho caminha apoiado numa bengala.” “Grande novidade, capitão, obrigado. E vá ver se estou na esquina, por favor.” E afastou-se em passos rápidos, sumindo no tumulto dos soldados e enfermeiras que iam e vinham no lusco fusco. “É bonitinha, mas não tem senso de humor” pensou Marcos, quando viu suas amigas saírem da barraca. “Vocês estão muito bem, meninas, estão lindas. Parece que vão para um baile no Copa.” “Capitão Marcos, o senhor é um grande mentiroso” disse Dulce “estamos horrorosas.” “Acabamos de chegar de seis horas de viagem, por uma estrada que era um suplício” disse Zoé. “Muito trabalho nos hospitais em Nápoles?” “Chegamos um dia antes do 1º- Escalão e trabalho não faltou desde o momento em que ele desembarcou. Nada menos que 300 homens foram diretamente de bordo para os dois hospitais.” “Cruzes.” “E isso que um número enorme foi mandado para o Hospital de Venéreas.” “Mas lá não tem enfermeiras” disse Virginia, corando. “Ainda bem” disse Marcos, e todos riram. “Onde você está, Marcos?” “Por enquanto em Pisa, pertinho daqui, 40 quilômetros. Bom hotel, bons restaurantes. Vou sequestrar vocês um dia desses e vamos comer num restaurante fantástico que eu descobri.” “E visitar a Torre.” “Naturalmente.” “Tenho amigos lá. A Aviação vai se instalar em Pisa brevemente, e o tenente Torres está lá organizando a chegada. Mas isso é segredo militar, gurias, é só para saberem que o queridinho das moças, o heroico capitão aviador Torres está perto.” As três riram com prazer, lembrando do tenente Torres, mas a inquietação que pairava sobre o Hospital, com a ameaça de chuva e os relâmpagos distantes, pareceu de repente desabrochar num tumulto de ruídos e buzinaços e ordens em voz urgente. Se aproximava um comboio de ambulâncias. Elza apareceu. “É um regimento de infantaria americano, só de negros, o 370.” A enfermaria de choque se preparou para o desembarque dos feridos, e á medida que as portas das ambulâncias eram abertas o ar começou a se saturar do som de gemidos e gritos de dor. Marcos percebeu a transformação nas suas três amigas. Elas rapidamente adotaram atitude profissional. Com rapidez, mas sem alarme, posicionaram-se para receber as macas. Elza falava com o médico americano. Parecia contrariada. Aproximou-se de Marcos. “A coisa foi feia” ela disse. “São mais de 60 feridos, e talvez a metade já sem vida.” Tomou o pulso de um soldado que era desembarcado numa maca, olhou para Marcos e sacudiu a cabeça. “Este se foi.” Marcos notou que a enfermeira-chefe era bonita, uma beleza nordestina, morena e com olhos de onça. “Sabe o que esse médico idiota me disse? Que esses soldados são covardes, que eles bateram em retirada e que mereceram o que aconteceu.” Estava chocada, pálida, e com raiva. Marcos tentou dizer alguma coisa. “Os americanos são um povo bastante racista, tenente Elza, sabemos disso.” “Sabemos, mas é repugnante falar assim de feridos.” “Tenente Elza” chamou Virginia “acho que temos um brasileiro aqui.” Elza e Marcos aproximaram-se. Numa maca estava um negro enorme, com a calça rasgada e uma bandagem na coxa. Curvaram-se sobre ele. “Praça Bandeira” disse o negro “fui atingido, mas o sargento Nilson me resgatou. Devo minha vida para ele.” “Muito bem, soldado, vamos tomar conta de você” disse Elza. “Tá sentindo dor no ferimento?” “Não senhora, não está doendo mais, me deram uma injeção e eu tô leve como uma pluma.” “Onde você estava, soldado?” perguntou Marcos. “Monte Prano, senhor. Fiquei cara a cara com os alemães, levei o maior susto da minha vida, mas acho que eles também levaram. Nunca viram de perto um negrão tão feio como eu.” A enfermeira Elza disse: “Você é um negrão muito bonito, soldado, e nós vamos tomar conta de você. Levem ele para a enfermaria.” Dulce e Zoé acompanharam a maca entrando na grande barraca de lona, Elza voltou-se para Marcos. “Pois é capitão, os americanos são racistas, mas os feridos deles, quando desembarcam no Hospital já vem com a Purple Heart no peito. Os nossos, se querem uma medalha, tem que requerer por escrito. Isso não é uma humilhação?” O capitão Marcos ficou calado. A enfermeira-chefe Elza, além de bonitinha e carrancuda, era mulher de caráter. Seria interessante tornar a vê-la.

Isto é só um começo, moçada!

22.

“Quem é esse tenente?” perguntou Mascarenhas de Moraes, com a xícara de café bem quente na mão. “Ainda não sabemos ao certo, comandante” respondeu Brayner “mas é bem moço.” “Todos os tenentes são moços, Brayner, mas nem todos fazem loucuras.” “Abençoada loucura” disse Brayner. “Não me retruque, Brayner. Leia o relatório.” “O nome dele é Mário Cabral de Vasconcelos, 2º- tenente da 2ª- Companhia do 6º- Regimento de Infantaria, general. Ele e seu pelotão assumiram a vanguarda da manobra depois de galgarem 1.200 metros sob fogo contínuo, como se fossem uma tropa de montanha, especializada e adestrada, e sabemos que nunca subiram nada mais alto do que 500 metros. Deram um susto nos alemães. A surpresa foi total. Tomamos Monte Prano e com isso ficamos senhores de toda a região, agora somos nós que dominamos lá no alto e temos visibilidade de todas as estradas em torno. Até o momento contabilizamos 32 prisioneiros, e recolhemos todo material bélico abandonado.” “Muito bem. E baixas?” Brayner pareceu hesitar. “Nada confirmado, comandante, mas há informes de três mortos por granada, três praças, os nomes estão sendo verificados para confirmação.” “Quero os nomes o mais rápido possível” disse Mascarenhas. Arrastou a cadeira, levantou-se, olhou o mapa na parede atrás dele. Monte Prano. Procurou com o dedo. Não achou. Ninguém nunca vai achar nada com esse nome. Mortos. Mortos em Monte Prano. Todos jovens. Quase garotos. Escrever cartas para os pais. Mandar despojos. Medalhas. Pequenas coisas inúteis para alguma cidadezinha perdida no interior do Brasil, ao pé de alguma montanha ou na beira de um rio... “General.” Voltou a si. Não é bom um general divagar. Principalmente se é um general comandante de uma expedição de guerra. “O senhor parece longe.” “Eu estava longe, Brayner, mas não estou mais.” “Precisamos terminar  a documentação para a reunião com os americanos.” “Sim, Brayner.” “Os americanos estão nos levando na conversa, comandante. Prometeram carabinas 0.30 e chegaram fuzis Springfield, mais velhos que minha avó. Nem sinal dos Colt 45 para os oficiais. Vieram metralhadoras de mão, também antigas, muito usadas. Isso dificulta a instrução da tropa. Nos caixões não vem sequer uma nota explicando o conteúdo, e quando diz uma coisa tem outra. O 2º- Escalão está chegando aí, e ainda não temos...” “Eu sei, Brayner. Eu sei que eles estão chegando, mas vamos fazer o quê? Nos queixar para quem? Só se for a Nosso Senhor Jesus Cristo...” “Nosso orgulho, general...” Mascarenhas endureceu o olhar. “Orgulho, Brayner? A primeira coisa que eu esqueci quando aceitei esta missão foi o orgulho.” “Sim, senhor.” “E se você quer ser um chefe de Estado-Maior competente também vai esquecer o orgulho. Veja esses caixotes: artigos de inverno, capacetes, perneiras, capotes, jaquetas, japonas, cobertores, pijamas, roupões de hospital... tudo americano! Cigarros, chocolates, chicletes. Do general comandante até o último soldado recebem essas porcarias. Orgulho? Eu já faço força para não parecer um mercenário. Essa é a guerra que nos tocou, major Brayner. Ela é bem mais difícil do que parece.” “Sim, senhor.” “Vamos ter orgulho quando esta guerra acabar. Orgulho dos nossos rapazes, das missões que cumprimos sem queixas. Não podemos ter auto comiseração, não podemos mostrar sinais de fraqueza. Esta guerra, pelo pouco que pudemos ver, é a mais monstruosa invenção da raça humana até hoje. Mas nós podemos tirar daqui nossa parcela de dignidade.” “Sim, senhor, comandante.” “Vamos subir essa estrada agora, depois que eu beber este café que já esfriou. Quero ir lá em cima ver nossos praças e nossos oficiais.” O caminho que a tropa levou seis dias para percorrer o Alto Comando da FEB percorreu em cinco horas. Mascarenhas chegou lá no alto no meio da tarde, sentindo no rosto o vento frio. As marcas dos combates estavam por tudo. Crateras, árvores espedaçadas e calcinadas, rostos de camponeses perplexos e crianças assustadas nas pequenas janelas das casas rústicas. Uma tropa de burros passava na estrada, obrigando o jipe de Mascarenhas a dar passagem. “Para que tanto burro, Brayner?” “Foram cedidos para nós pelos guerrilheiros, comandante. Metade deles foi tirado dos alemães. São mais de 20 muares por pelotão, os condutores são guerrilheiros da região ou membros de uma tropa de alpinos italianos. Sem os muares é praticamente impossível fazer o reabastecimento e remuniciamento da nossa gente. Agora nada vai nos faltar aqui em cima.” Numa curva da estrada, rente ao abismo, havia um olmo com sinais de que fora atingido por uma bomba ou canhoneio. Dele se despegava uma fumaça negra, mas o que fez o cabo Adão frear sem aviso foi o insólito fruto que pendia do seu galho principal. O corpo ficou balançando a poucos metros do jipe, os pés sujos do enforcado parados no ar, logo acima deles. “O que é isso?” rosnou Mascarenhas com repulsa. “Era um colaborador dos nazistas, comandante” explicou o major Duílio, que ciceroneava o grupo do comandante em chefe. “Foi justiçado pelos moradores e pelos guerrilheiros.” “Não quero saber dessa justiça na nossa área, major. Mande tirar esse corpo dali e enterrar decentemente.” O major chamou um sargento que passava e transmitiu-lhe a ordem. Pouco depois Pedrinho, o gago Atílio, Alemão e Quevedo estavam embaixo do enforcado, pensando um jeito de tirá-lo dali. “Precisamos duma escada” disse o Alemão “vamos pedir numa dessas casas aí.”  Mascarenhas observou um instante o grupo de pracinhas em torno à árvore, lidando para descer o enforcado. “Isso é trabalho para os alemães que a gente aprisionou” disse Quevedo “nós não temos que enterrar ninguém.” “Isso é o que tu pensa, mandrião” disse o sargento Nilson se aproximando. Um pássaro deu um grito agudo e fez um largo voo em torno ao abismo. Todos pararam para olhar, e depois ficaram um instante olhando a sucessão de cadeias montanhosas que se estendia sem fim, até tornar-se uma coisa cinza e nebulosa no horizonte. “Vamos ter que atravessar tudo isso?” perguntou o Alemão. “É claro, istepô.” E olhando para os soldados com um sorriso feroz. “Isto é só o começo, moçada.” Quevedo tirou o capacete, coçou o cabelo sujo, sentou numa pedra. “Então, se é assim, o distinto pendurado aí que me desculpe, sargento, mas vou fumar um cigarrinho porque temos muito tempo.” O sargento Nilson teve um impulso de autoridade, mas ponderou, sorriu e também sentou numa pedra. Os outros o foram imitando e logo ficaram os quatro soldados sentados lado a lado, fumando, contemplando a imensidão a se desdobrar diante deles, o enforcado atrás, levemente agitado pelo vento frio da cordilheira. 

Os Canhões de Monte Prano - II

21.

Pedrinho parou numa curva da estrada e sentou numa pedra. Começou a descalçar a botina do pé direito. O sargento Nilson parou na frente dele. “O que estás fazendo, estupor?” “Tô com os pés cheios de bolha, sargento, mal posso caminhar.” O sargento Nilson já ia despejar uma série de impropérios, mas conteve-se. Conhecia esse praça, sabia que ele não era dissimulado nem mandrião. “Vais ter de aguentar. Logo vai escurecer e aí vamos parar. Não vamos subir essa montanha no escuro.” “E vamos dormir onde, sargento?” “No hotel de luxo que te falei.” Esse praça não era dissimulado nem mandrião, mas as vezes parecia muito idiota. Dizem que ele foi levado pra dentro de um submarino. Deve ser por isso, devem ter injetado algum soro nele para ser tão bobo. “Vamos lá, istepô, em marcha.” Em marcha, em marcha, isso era o que mais Pedrinho escutava desde que saíram de Camaiore. O tenente Mário disse que a caminhada até o cimo do Monte Prano iria levar umas vinte horas, mas já fazia dois dias que estavam nessa marcha e ainda não tinham chegado nem na metade do caminho, isso porque os alemães não deixavam. Desde o dia anterior caía sobre eles uma carga de bombas e metralhas incessante, que os obrigava a buscar abrigo atrás de pedras e árvores, sem verem sequer o vulto do inimigo. Passavam a maior parte do tempo abaixados e escondidos do que avançando. Isso era a manobra envolvente que ordenara Zenóbio. O fato é que ele tinha razão. Se subissem de peito aberto já contariam dezenas de mortos. Milagrosamente, até agora nenhum soldado brasileiro fora morto. Já havia quase 100 feridos, morto nenhum, graças a Deus. Mas mal Pedrinho calçou a botina do pé direito e deu o laço no cadarço, o soldado que passava na sua frente, na desordenada fila que subia a montanha, caiu com um grito, rosto coberto de sangue. Pedrinho ficou estarrecido e sentiu-se erguido no ar. Era a mão pesada do sargento Nilson que o agarrava pelo pescoço e o arrastava para fora da estrada, que estalava de estilhaços, pó e o cheiro nauseante de pólvora. Padioleiros apanharam o corpo do pracinha ferido debaixo de uma torrente de explosões e o arrastaram para uma reentrância da parede rochosa. O capitão Ernani apareceu na frente de todos: “Em marcha, em marcha!” e eles continuaram a marchar, na beira do precipício de mais de mil metros de profundidade, de onde subia uma fina camada de nuvens. Passaram por casas abandonadas. Entraram para conferir: as salas vazias davam angústia, tudo fora abandonado ás pressas. Quevedo brincou com um gato pardo que se enroscou em suas botinas. Bandeira sentou numa cadeira de balanço e fingiu que roncava. “É igualzinha a de minha avó, só que ela roncava mais grosso.” Depois de se alimentar, continuaram a escalada, a estrada tornava-se cada vez mais estreita, as curvas mais fechadas. Anoiteceu e a sensação de medo e desconforto aumentou. Como nas duas noites anteriores, formaram círculos para dormir, os comandantes dos grupos um pouco afastados. Agora a ordem era silêncio absoluto. Sabiam que o grosso dos alemães estava muito próximo, e eles podiam tentar um golpe de mão aproveitando a escuridão. “Golpe de mão” era a expressão da moda, e os enchia de pavor. Os alemães eram mestres em “golpes de mão”, uma manobra rápida feita por um grupo reduzido, cair sobre o alvo, metralhar, esfaquear e retirar, deixando mortos e feridos. Dormiram sonhando com “golpes de mão”, envoltos por uma cerração que encharcou as fardas, os calçados e as armas, e os deixou enregelados. “Não sinto minha mão” murmurou o Alemão para Atílio, mas já era de manhã e o sargento Nilson passava cutucando com o coturno e sussurrando “de pé, de pé, mandriões” e em pouco estavam novamente naquele estrada agora escorregadia e sem fim. “Onde estamos, capitão?” perguntou o tenente Mário, e o capitão Ernani o olhou com profunda irritação: “Isso eu gostaria de saber, tenente.” Prosseguiram em meio ao torpor da cerração gelada mais um dia inteiro, com paradas cada vez mais frequentes. Numa curva da estrada Bandeira ouviu vozes. Da cerração surgiu um vulto estranho. Era um burro carregado com cestas, tocado por um homem e um menino. Ficaram paralisados, se olhando, Bandeira colocou o indicador nos lábios e fez sinal para eles seguirem. O burro, o homem e a criança passaram espremidos entre o exército que subia a montanha e o abismo. E finalmente, no dia seguinte, com a cerração ainda mais densa e indevassável, o esclarecedor Bandeira tropeçou numa cerca de arame farpado. Ficou sem mover um dedo, rezando para que não fosse ligada a uma mina. Afastou-se e chamou o sargento. Examinaram a cerca. “Chegamos” sussurrou o sargento Nilson “isto deve ser a primeira linha de defesa deles.” O capitão Ernani arrastou-se até eles. Tocou no arame como em algo nunca visto. “Aqui é o começo da tal Linha Gótica.” De  repente a névoa abre uma brecha e podem ver mais adiante. Fortificações, maciços de concreto, um enorme canhão 105. “É aquele o filho da mãe” diz o tenente Mário, procurando espaço entre eles. “São dois” diz o sargento, apontando outro mais adiante. “São três” diz o tenente Mário, apontando o terceiro. “E agora?” o sargento olha para o capitão. “Um grupo de combate avança, dois dão cobertura” diz Ernani. “Vamos nos arrastar até lá e cair de surpresa sobre eles, duvido que pensem que estamos tão perto.” “Sargento, você vem comigo” diz o tenente Mário “traga seu Grupo de Combate.” E o tenente Mário Cabral de Vasconcelos, 23 anos, começou a se arrastar em direção ao posto de artilharia alemã, sem dar tempo do sargento Nilson dizer sim, senhor. Eram quinze homens se arrastando em silêncio. Suas únicas experiências de guerra até o momento tinha sido a tomada de Camaiore e aquela subida penosa pela estrada da montanha. Pedrinho, o gago Atílio, Alemão, Quevedo, Bandeira, com os dedos duros de frio, apertando os fuzis, agarrando as granadas, se arrastavam com o máximo de cuidado. O sargento Nilson colado no tenente Mário. Mal respiravam. Escorregaram por baixo de uma cerca de arame farpado. A farda do gago Atílio se prendeu e ele safou-se com um arranco nervoso, que fez um ruído de coisa rasgada. A névoa se abriu por um momento e eles viram os alemães a menos de 10 metros, com seus capotes cinzentos.