quinta-feira, 17 de outubro de 2013

“Vamos Voltar Quantas Vezes For Preciso"

29.

Os vultos foram chegando no escuro, abaixados, bem devagarinho, em silêncio. Pedrinho olhou para eles com espanto. “Quem são vocês?” “Somos o Onze de São João del Rey. Nosso batalhão veio substituir o Sampaio.” “O Sampaio somos nós.” “Então aqui estamos.” “Ora, ora, já era tempo, parceiro.” “Onde estão os alemães?” Pedrinho examinou o rosto do pracinha que fez a pergunta. Era quase um menino, e parecia com medo. “Onde estão? Bem pertinho.” “Bem pertinho? Onde?” “Logo ali. Duzentos metros no máximo.” O pracinha se abaixou instintivamente. “Duzentos metros? Estamos ao alcance das balas.” Quevedo deu um risinho maldoso. “Mas dadonde vocês vieram, pelo amor de Deus. Estão ao alcance é das baionetas deles.” Quevedo passou o dedo indicador no pescoço e deu um assobio que arrepiou o pracinha. “Alemão gosta de degolar, nisso ele é meio parecido com castelhano.” O pracinha olhou com desconfiança para Quevedo, e o gago Atílio e o Alemão. “Acabamos de chegar” disse o pracinha, “somos do segundo escalão.” Pedrinho examinou o soldado e seu olhar de desamparo, sua absoluta fragilidade no meio da lama e da chuva e do escuro e de desconhecidos sarcásticos e pensou com um misto de orgulho e susto: somos veteranos. Estamos nesta guerra maldita há setenta dias e somos veteranos. Um oficial que não conheciam apareceu ao lado deles. Todos fizeram continência. “Onde está o capitão Uzeda?” “Aqui.” Uzeda rastejou para o lado do recém-chegado. Fizeram continência. O oficial se apresentou. “Capitão Almeida, do Onze de São João. Viemos substituir vocês.” ”Já entendi.” “Mas há uma coisa que eu não entendi, capitão.” “O que é?” “Vou ser franco. Esta é nossa primeira missão, saímos do navio há menos de um mês, sem preparo, sem instrução e já nos jogam no fogo.” “As coisas aqui são mais ou menos assim, Almeida, é melhor ir se acostumando.” Nesse instante uma luz intensa se abateu sobre eles e se enxergaram bem próximos e nítidos, e o que viram foi rostos pálidos e barbudos, olheiras de sono, vincos de cansaço nos rostos jovens e tensos. A claridade vinha de uma very-ligth, uma granada de iluminação jogada pelos alemães. E eles não perderam tempo.  Iniciaram o fogo, uma barragem intensa de morteiros, granadas de mão e bazucas, acompanhadas pelo som alucinado das metralhadoras. Os soldados recém-chegados pareciam á beira do pânico, tapando a cabeça com as mãos, se abaixando o mais que podiam na lama fofa. O mais jovem tirou o capacete e enfiou o rosto dentro dele. A intensidade dos bombardeios e o modo como estavam sendo operados denunciava que os alemães estavam na iminência de um ataque. “Não faz sentido” disse Almeida, “eles não tem porque nos atacar, estão no alto, em posição melhor.” “Eles viram vocês chegando” disse Uzeda, “e acharam que vamos atacar. Estão só dando um recado, tentando desorganizar o ataque antes da partida. Eles não são loucos. Venha comigo, capitão, vou lhe mostrar nossas linha.” A escuridão tinha voltado e os dois oficiais sumiram dentro dela. O sargento Nilson se aproximou. “Vamos começar a descer, bem quietos e sem pressa.” Pedrinho olhou para o praça que tinha os olhos arregalados de pavor. “Como é teu nome?” “Paraguassu.” “O meu é Pedro. Olha aqui, Paraguassu,  só uma coisa: não tira nunca o capacete. Você vai precisar dele mais do que pensa.”Uma semana depois Uzeda encontrou o capitão Almeida no rancho dos oficiais, de madrugada. Havia quase uma centena de oficiais e o burburinho de uma conversa sonolenta. Uzeda estendeu uma xícara de café para Almeida. “Como vão as coisas?” O capitão Almeida deu um sorriso amargo. “Há boatos de corte marcial.” “Já ouvi.” “E o que estamos fazendo aqui, a esta hora?” “Já vamos saber, mas parece que é outro ataque.” “Meu Deus” gemeu Almeida. E enrubesceu. “Vou lhe contar o que aconteceu lá.” “Não precisa.” “Acho que vai haver uma corte marcial, você estava lá e eu quero contar antes de ouvir alguma versão tendenciosa. Aliás, versões tendenciosas não vão faltar para o resto dos tempos.” Uzeda fez um gesto de deixa pra lá,  mas Almeida endureceu a voz. “Em primeiro lugar não era nem para a gente estar naquele lugar, mas fazendo exercícios, se preparando. Uma loucura mandar um batalhão cru, sem a menor experiência, subir uma montanha na noite escura, num terreno minado e escorregadio para substituir outro batalhão esgotado e desmobilizado como vocês estavam. Quando vocês foram embora passei o resto da noite e todo o dia percorrendo as linhas e encorajando os homens, mas ao anoitecer aconteceu um alarma falso no flanco esquerdo, o capitão da Primeira Companhia entrou em pânico e desceu correndo, com a tropa atrás dele, mas foram interceptados pelo major Jacy e por mim, e demos ordem de voltar para as posições, mas o capitão da Primeira estava tendo um colapso nervoso, e se rebelou, não quis obedecer ás ordens. Voltar? ele berrou, o major está alucinado, não sabe o que faz, e o major Jacy tirou o revolver do coldre e disse vai voltar sim capitão imediatamente, vamos todos voltar quantas vezes for preciso, e o major Jacy, o doce, o suave major Jacy ergueu a arma e apontou para o meio da testa do capitão, que se ajoelhou e começou a chorar. Até eu fiquei com pena dele, depois foi diagnosticado estado ansioso, sentimento de inferioridade, vários oficiais se aproximaram para apoiar, os praças foram parando e se reorganizando, mais oficiais acudiram e fomos levando os homens de volta para as posições. E isso foi tudo, mas foi um inferno. Pregaram no nosso batalhão a pecha de covarde. Viramos chacota, Uzeda, estão nos chamando de Laurindo.” “Laurindo?” “Conhece o samba? Laurindo desce o morro. Quando passa um dos nossos alguém cantarola Laurindo desce o morro. É um inferno. Já deu briga por causa disso e vai acabar dando em morte.”  Perceberam um movimento na multidão de oficiais dando passagem. Mascarenhas, Zenóbio e Cordeiro de Farias entraram na barraca acompanhados pelo Estado Maior inteiro. Todos tinham os rostos graves. Vai ser uma reunião tensa, pensou Uzeda. “A vontade, senhores” disse Brayner, “vamos dar início ao nosso trabalho. Estamos aqui para planejar e discutir novo ataque ao Monte Castelo.”  Ninguém se entreolhou nem comentou nada, mas todos sabiam que um calafrio percorreu cada homem dentro da barraca. Instintivamente, Uzeda e Almeida olharam, pela abertura, para a direção da montanha desgraçada, enorme, ameaçadora e escura, onde estalavam relâmpagos.

Segundo Ataque ao Monte Castelo

28.

No observatório do PC Mascarenhas olha com binóculos a figura de Zenóbio, agitado, gesticulando. “O que está havendo?” pergunta a Brayner. “A informação que temos é de que o capitão Uzeda chegou lá em cima, general.” “Graças a Deus, sabia que podia confiar nesses rapazes!” “Mas não temos como nos defender de um contra-ataque de blindados, se houver um.” “Não me irrite, Brayner. Não seja derrotista.” “O Uzeda disse que está lá sozinho, sem cobertura, general.” “O que? Como? E a cobertura dos americanos?”  “O capitão Uzeda nos comunicou que não viu nem sinal da 370. Simplesmente não apareceram.” “Não acredito nisso. Eles não nos deram nem um aviso?” “Nada. Nossos rapazes estão lá expostos a um ataque de blindados que já começou. O capitão Uzeda deu ordem de retrair, mas eles ainda estão na cota 800, bem vulneráveis. Convém dar a ordem de retrair até nossas linhas, pois não sabemos nada dos americanos.” Mascarenhas deu alguns passos a esmo e parou de repente. “Avise o Zenóbio. Diga para ele dar a ordem de retrair até nossas filas.” Zenóbio atendeu calmamente, mas com os dentes rangendo. “Entendi, Brayner, já me comuniquei com o Uzeda, eles estão flanqueados lá em cima. Vou mandar retirar antes que sejam cortados pelo meio.” Nilson passou o rádio para Uzeda. “Positivo, general, vamos retirar enquanto dá.” Uzeda se ergueu um pouco e olhou ao redor. Toda a tropa estava em posição defensiva, granadas e morteiros explodindo ao redor, os tanques alemães avançando sem vacilar e atirando com os canhões 88 mm. “Retrair!” berrou Uzeda “retrair, retrair!” a ordem foi passando ao longo das filas e a grande massa de soldados começou a descer a montanha em acelerado, protegendo-se nas dobras do terreno, atrás de pedras e de troncos de árvores. “A quem interessa isso?” gemeu Zenóbio. “Uma ação inimiga exatamente no flanco abandonado pelos americanos! Que interpretação podemos dar?” “Senhores” disse o general Mark Clark “a tentativa foi satisfatória, chegamos a conquistar posições dos alemães. Mas o contra-ataque foi muito forte. É evidente que não vamos desistir. Vamos fazer uma nova tentativa. Imediatamente.” “Se me permite, general” disse o general Crittenberg “antes precisamos fazer uma avaliação realista do que aconteceu no ataque.” “Seja breve, por favor.” “Na minha opinião os brasileiros não mantiveram as posições conquistadas e isso criou um efeito em cadeia que resultou no fracasso de toda a operação.” Na cozinha daquela casa de pedra, estavam cinco homens: os generais americanos Mark Clark e Willys Crittenberg,  o general Mascarenhas de Moraes e o major Brayner, mais o major Vernon Walters, oficial de ligação e tradutor. Mark Clark era um homem de mais de dois metros de altura, mas sutil e refinado no tratamento com seus colegas. Crittenberg tinha o temperamento germânico, era rude e direto. A observação que fez deixou a todos num silêncio embaraçoso. Mascarenhas olhou para o tradutor como se não tivesse entendido. Ele repetiu as palavras. Mascarenhas fez um breve aceno com a cabeça, ergueu os olhos para Crittenberg: “Discordo do senhor. Pelo que pude observar o motivo do fracasso da operação foi a falta da cobertura encarregada ao vosso 370º- Regimento de Infantaria, que simplesmente não apareceu no local combinado.” “Pelo que sei, general Mascarenhas, os seus soldados nem sequer procuraram uma forma de se estabelecer com firmeza no local onde chegaram.” “Fomos atacados por tanques, tínhamos o flanco desguarnecido, porque o 370 não apareceu.” “Acho que faltou vontade de fincar o pé e enfrentar os alemães.” “Senhores, senhores” interviu Mark Clark “vamos ter tempo de analisar isso. Tenho ordens lá de cima para não deixar a coisa esfriar e iniciar imediatamente um novo ataque.” “Imediatamente, general?” Mascarenhas consultou o relógio. “Meia-noite. O senhor quer dizer agora?” “As ordens são claras. Precisamos chegar em Bolonha antes do Natal, faltam exatamente trinta dias. As pressões são enormes. Eisenhower, Churchill, Stalin, até o Montgomery, todos eles, querem ver a Linha Gótica cortada ao meio e essa é nossa missão. Cortar a Linha Gótica. Vamos atacar dentro de uma hora.” “General” disse Mascarenhas “compreendo sua posição, mas vamos cair na mesma armadilha. No dia de hoje não tivemos cobertura pelos flancos e nem cobertura aérea. Com essa neblina os aviões não levantarão voo e eu me questiono se as tropas estarão recompostas para voltar a subir, sem descanso e sem uma preparação melhor para o ataque.” Crittenberg começou a esboçar um sorriso mas Mark Clark o cortou elevando a voz. “Também compreendo sua posição, general Mascarenhas, mas a decisão não é nossa. Temos ordens a cumprir. Vamos preparar o ataque.” Mascarenhas, Zenóbio, Cordeiro de Farias e Brayner falaram durante muito tempo em voz baixa ao redor da mesa de madeira, olhando o mapa amassado diante deles. “Tudo que podemos fazer” disse Mascarenhas “ é cobrir nosso flanco esquerdo com gente nossa, para não termos outra surpresa dessas.” “Vamos mandar para o setor uma Companhia do 6º-, ela nos dará a cobertura que os americanos não deram.” “As tropas estão exaustas” disse  Brayner “e um novo fracasso pode ser nocivo para o moral.” “Não temos mais tempo para divagações, major. Vamos com o que temos, vamos incentivar os homens, dar aos capitães ordens precisas, mas vamos subir essa montanha e cumprir a missão.” E assim, as 2:30 da manhã, os pracinhas receberam ordem de tomar posição para novo ataque. Lentamente foram se posicionando atrás dos tanques americanos, foram se deslocando ao longo da estrada esburacada pelas bombas, buscando proteção nas casas de paredes destruídas das fazendolas do caminho. Ás três da manhã foi chegando reposição de balas e granadas. Ás cinco, o rancho foi distribuído: café preto, bolachas e duas barras de chocolate. Os homens sentiram uma ponta de conforto. Ás sete uma cerração escura cobria tudo. Ás oito da manhã foi emitida ordem de avançar contra o inimigo. Os tanques começaram a se mover. Pedrinho abriu os olhos quando levou um empurrão do gago Atílio. Quevedo acendeu um cigarro: “Pode ser meu último.” Todos olharam para ele com censura, mas o Alemão apanhou um cigarro e acendeu-o. E deu uma risadinha. A tropa brasileira, pela segunda vez, começou a caminhada tensa e dura para o cimo do Monte Castelo.

Um Dragão Mora Lá Em Cima

27.

Os pracinhas subiam com esforço, tentando ignorar a chuva fina nas costas e a massa de neblina que dificultava a visão, quando Mascarenhas instalou-se no Posto de Comando do 6º- RI, para observar a operação. Estava acompanhado de Cordeiro de Farias e de um oficial de operações do IV Corpo. Todos munidos de binóculos, telefones e rádios, planilhas e códigos secretos. Os generais Mascarenhas e Cordeiro estavam evidentemente tensos. A presença do oficial americano não os ajudava em nada para relaxar. Brayner falava simultaneamente ao telefone e por rádio. Zenóbio estava lá adiante, comandando a largada dos pelotões, observando os grupos subindo a montanha. Pelo binóculo ele via os pracinhas escorregando, se agarrando, aguentando a chuva fininha caindo nas costas. Mascarenhas atendeu o telefone. “General, aqui é Zenóbio.” “Fala, Zenóbio.” “O avanço continua sem interrupções.” “Que Deus os abençoe. Traga uma vitória, Zenóbio.” Essa frase o preocupou. Pensou que fora injusto. Estava dando uma responsabilidade para Zenóbio que na realidade não era dele. A operação fora planejada e conduzida pelo comando americano. Os brasileiros não foram consultados e não deram uma palavra á respeito da missão que receberam. Brayner e os oficiais do Estado Maior estavam apreensivos e irritados. Não recebiam dos aliados um tratamento digno e sabiam disso. “Onde eles estão?” perguntou Mascarenhas. “Na cota 750, general.” Exatamente na cota 750, e nesse mesmo instante, Pedrinho, o gago Atílio, Alemão e Quevedo se jogaram atrás de um renque de pedras redondas, lisas pela chuva, onde a água escorregava. Estavam exaustos, precisavam duma pausa. Eles subiam na esteira dos tanques americanos, usando-os como escudo. Quevedo consultou o relógio. Dez da manhã. “Estamos subindo esta lomba há mais de quatro horas e de barriga vazia” disse. “Sabem no que estou pensando? Não é numa picanha mal passada, nem numa costela gorda. É coisa bem mais modesta. Tô pensando numa caneca de café bem quente, com açúcar mascavo e uma bolacha daquelas comprada em Libres.” “Deus me livre” disse Pedrinho, “eu penso é num pastel de banana, como só minha mãe sabia fazer e a gente levava para a feira depois da missa, nos domingos.” Olharam os tanques americanos passando ao lado deles, patinando na lama, escorregando, mas avançando com lentidão. “Esses bichos me dão medo” disse o Alemão. “Espero que ele dê mais medo nos teus parentes que estão nos esperando lá em cima” disse Quevedo. “Meus parentes não moram lá em cima” disse o Alemão, “lá em cima mora uma princesa loira, com uns cabelos que vem até o meio das costas.” “Um dragão mora lá em cima e vai engolir vocês todos, seus mandriões, se não levantarem e começarem a andar” berrou o sargento Nilson, passando por eles. Nesse instante acontece uma explosão em baixo de um tanque americano, a dez metros de onde estavam. As lagartas do tanque rebentaram e saltaram em pedaços. O tanque ficou imobilizado. E como se fosse um movimento orquestrado, os canhões de 88 mm dos tanques alemães começaram a despejar fogo na posição em que estavam. O grupo se encolheu atrás das pedras. “Já estava demorando pra começar o baile!” disse Quevedo. “Atrás dos tanques, atrás dos tanques!” ordenou Nilson. Todos correram para a proteção ordenada, enquanto as explosões aumentavam. Mas os tanques não se moviam. O capitão Uzeda apareceu ao lado de Nilson. “O que há, sargento? Por que estão parados?” “Alguma coisa impede o avanço dos tanques americanos, capitão.” “Minas, sargento. Vou falar com eles.” Nilson viu o capitão Uzeda subir num tanque e falar com um tenente americano.  Pouco depois pulou para o solo, aproximou-se de Nilson de cara amarrada. “Ele disse que não vão prosseguir, o terreno é minado.” “E nós, o que vamos fazer, capitão?” “Estamos perto do cume, mais duzentos metros e estamos lá, vamos tentar dar a volta nos tanques alemães e subir até lá em cima, que vamos ter a proteção dos americanos da 370 de Infantaria, a Divisão dos negros. Eles também devem estar chegando.” “Muito bem, capitão.” E Nilson reuniu-se ao seu Grupo de Combate. “Vamos tentar escapar aos tanques alemães e chegar lá em cima, macacada! Vamos!” Com o capitão Uzeda a frente, a tropa brasileira foi se afastando dos tanques americanos que lhes davam proteção e se deslocando em direção ao cimo do Monte Castelo, enquanto o fogo das armas aumentava cada vez mais de intensidade.  Pedrinho sentiu que alguma coisa grande começava a acontecer. “Vamos tomar o Monte Castelo, vamos ser os primeiros a chegar lá em cima!” Havia uma energia eletrizante que se propagava com o olhar, uma ferocidade alegre que lhes dava força, e havia aquele capitão de bigode fininho que olhava bem dentro do olho de cada um quando falava e isso fazia todos esquecerem a barriga pedindo comida, as pernas pedindo descanso, só havia o ritmo da subida e os pulmões chegando ao limite da capacidade. E de repente estavam numa esplanada. Com um sentimento de esplendor viram as casamatas alemães na beirada dos precipícios, os canhões molhados, as metralhadoras sobre os sacos de cimento, os capacetes alemães reluzentes de chuva e neblina. Atacaram com fúria, jogando as granadas e ocupando as primeiras casamatas. Os alemães, surpresos e atarantados, saíam com as mãos para cima ou corriam metendo-se no bosque de árvores ralas e machucadas pelos bombardeios. O grupo avançou tomado pelo frenesi da vitória, gritando e jogando granadas. Depois, foi uma longa pausa, onde olharam para os lados. “Cadê os americanos?” perguntou o sargento Nilson, “era para estarem aqui antes de nós.” O capitão Uzeda olhou perplexo para todos os lados, até escutar um rumor surdo de tanques avançando. “Aí vem eles” disse. Os tanques surgiram em formação de três, com os canhões de 88 mm apontados para os brasileiros, e não eram tanques americanos. Eram alemães. E começaram a despejar fogo, uma barragem ensurdecedora e mortal. Os brasileiros se jogaram no chão ou se enfiaram nas casamatas. O capitão Uzeda ainda lançou um olhar de esperança ao redor, mas não havia sinal dos americanos. “Deus do céu, os malditos nos abandonaram” exclamou  com um sentimento de rancor crescendo no peito. “Vamos nos retirar enquanto dá! Em ordem e acelerado!”

Monte Castelo

26.

Os três generais ficaram um bom tempo olhando para as montanhas meio encobertas pela névoa. “O Monte Castelo é aquele bem no centro, o mais arredondado. Os outros são pontiagudos” disse Zenóbio. Os três estiveram um bom tempo olhando a cadeia de montanhas, apoiados no jipe, fumando. Era de manhã bem cedo. O frio, a cada dia, se tornava mais intenso. O major Brayner aproximou-se com um binóculo pendurado no pescoço. Onde estavam era uma espécie de mirante, com uma cerca de pedra. “Foi dado a entender que é uma espécie de presente de Natal antecipado para nós” disse Mascarenhas. “Mas o major Brayner acha que está mais para presente de grego” disse Zenóbio.  “Nossa missão é um ataque frontal ao Monte Castelo” disse Brayner. Cordeiro de Farias apanhou o binóculo de Brayner e olhou demoradamente as montanhas. “Frontal? Ataque frontal é suicídio” disse Cordeiro. Brayner fez cara de eu-não-disse. “Esse Monte Castelo, que os americanos chamam de Cota 970, é a nossa parte na operação. Os americanos vão atacar pelos flancos e nos dar cobertura.” “O general Cordeiro de Farias acha que é suicídio” disse Zenóbio. “Eu ouvi. O general Cordeiro é um homem de bom senso, mas esta é uma determinação do comando do V Exército Americano.” Mascarenhas de Moraes olhou com seus olhos mansos os três homens sob seu comando. “Estamos sob as ordens do V Exército e como soldados nos cabe cumprir a determinação.” “Vamos cumprir a missão, general” disse Zenóbio, endurecendo a voz. “Vamos mostrar para americanos e alemães nossa capacidade como soldados.” “Eu desconfio dessa missão” disse Brayner. Zenóbio ficou sombrio. “Desconfia, Brayner? Desconfia de que?” “Desconfio, general Zenóbio, de que não haverá teto para os aviões decolarem, e, consequentemente, desconfio de que não haverá cobertura para uma operação desse tipo.” “Esta operação é responsabilidade da Task Force 45, sob o comando do coronel Truscott. Nenhuma responsabilidade é nossa” disse Mascarenhas. “Os americanos tomarão o Monte Belvedere na direita e o Monte de la Torraccia na esquerda, e nos darão cobertura adequada para avançarmos pelo centro.” “Se eles não tomarem essas posições estaremos no mato sem cachorro” disse Zenóbio. “Como chefe do Estado-Maior é minha obrigação alertar para os riscos desta missão, comandante” disse Brayner, com cautela. “Nossa tropa está em combate há 70 dias, não teve tempo suficiente para descansar e recuperar as forças, e, principalmente, as baixas não foram repostas. Há claros evidentes nas nossas fileiras.” “Precisamos ter confiança na ação de nossos aliados, Brayner. É difícil estar sob o comando de outro país, é uma experiência nova para todos nós, mas precisamos nos acostumar, como todos que estão nesta guerra. Vamos voltar para o PC.” Entraram no jipe e o motorista arrancou. Brayner olhou com amargura para a cadeia de montanhas, fria e poderosa. “Amanhã vai estar chovendo” disse, acendendo um cigarro e soprando a fumaça para o alto. Houve missa na madrugada do dia 24, e a chuva caindo sobre o teto de lona da capela deixava todos taciturnos. Assistiu à missa o comando da FEB inteiro, mais um bom número de oficiais, sargentos, praças e enfermeiras. Fora da capela havia uma enorme agitação. Caminhões passavam cheios de soldados e carros tanques esmagavam o barro e esparramavam água suja. “Vamos pedir a Deus que nos ilumine nesta hora de provação” disse o capelão, “porque vamos enfrentar as forças do ódio e da maldade e vamos pedir a Deus Nosso Senhor que nos dê coragem para a batalha que se aproxima.” Vários oficiais comungaram, o capelão lançou uma benção e a tensão que pairava no ar frio da capela de lona pareceu assomar. Todos apertaram as mãos, desejaram sucesso, deram palmadas nas costas. “A cobra vai fumar!” gritou alguém. Deram risadas e repetiram o grito: “A cobra vai fumar!” Quevedo levantou a lona do caminhão e espiou. “O caminhão parou, não tem nem estrada aqui. Ei, vamos ter que subir essa montanha toda?” O Alemão, o gago Atílio e Pedrinho também espiaram. “Vai ser fogo” disse o Alemão, “só nos dão pedreira pra subir.”  “Menos mal que a chuva parou” disse Pedrinho, “mas mesmo assim não se vê nada com essa cerração.” “Não precisa ver nada mesmo daqui de baixo” disse Quevedo “nós vamos é lá em cima ver os tedescos bem de pertinho.” “Só de olhar essa subida já me doem as pernas” disse o Alemão. O sargento Nilson saiu lá do fundo da carroceria do caminhão. “Descendo, macacada, descendo!”  Os soldados foram saltando para o chão enlameado. “Ve-ve-jam o chão” disse o gago Atílio. “Ge-ge-gelo! T-t-tá tu-tu-tudo gelado!” Escarvaram com a ponta das botas o chão, arrancaram pequenas lascas de gelo. “O frio está chegando.” “Em fila, em fila!” gritava o sargento Nilson. Da longa e sinistra fila de caminhões, vultos escuros na madrugada, os soldados foram saltando para o solo gelado e começando a se organizar em longa fila. Todos olhavam para o maciço paredão a sua frente com um peso na alma. “Como vamos subir isso tudo?” era a pergunta em todas as mentes. “Sabe o quê” disse Quevedo “nem uma caneca de café nos serviram.” “É verdade” disse o Alemão “estou começando a sentir um buraco no estômago.” “Ei, sargento” gritou Quevedo “esqueceram do rancho?” “Não é hora de perguntar isso, praça, vai entrando em fila e batendo os pés para não encarangar.” “Mas, sargento, saco vazio não fica em pé.” “Anda estupor, começa a se mexer, em frente, vamos.” Começaram a se mexer no escuro, avançando sem saber para onde, apenas iam em frente. “Dizem que é uma operação conjunta com os americanos” disse o Alemão. “Então vai ser barbada, vamos tomar esse morro sem sofrer muito.” “E os americanos, será que tomaram café?” Alguns deram risadas, outros responderam com palavrões. “Como é mesmo o nome de morro?” perguntou Pedrinho. “Dizem que é Monte Castelo” disse o Alemão. “Lá em cima a vista deve ser bonita” disse Pedrinho. “Em frente!” gritava o sargento Nilson. “Em frente, molengas! Vamos chegar lá em cima antes do sol aparecer! Vamos tomar esse morrinho antes dos americanos, pra eles verem a força do carvão de pedra!” Eram mais de mil soldados curvados, tiritando de frio, escorregando no chão enlameado, com os dedos duros aferrados aos fuzis, subindo lentamente a montanha escura. 

Pânico no Hospital de Campanha

25.

“Não aconteceu um massacre porque o capitão Ramagem mandou o pessoal bater em retirada. Foi a única coisa que ele pode fazer para salvar seus homens.” O refeitório do hospital estava lotado, era hora do jantar e todos falavam em voz baixa. “Mas o que houve mesmo?” insistiu Elza, com seu olhar penetrante, “ouvi falar de que houve desleixo, tinham tomado as posições e não fizeram o mínimo para se precaver contra um contra-ataque.” O capitão Marcos estava sentado entre Virginia e Dulce, com Zoé e Elza no outro lado da mesa, á sua frente. “Eu não estava lá para saber exatamente o que houve, tenente Elza. Eu estava em meu quarto de hotel, com fogo na lareira e uma taça de vinho na mão. Falar vão falar muito e inventar uma série de medidas que deveriam ser tomadas, mas só os que estavam lá, debaixo da chuva e no meio do fogo, é que sabem exatamente o que aconteceu.” “O que eu sei” disse Elza “é que cabeças vão rolar. Depois do capitão Ramagem outras companhias o imitaram e bateram em retirada.” “Não foi uma retirada, tenente, os homens voltaram ás suas posições de origem.” “Qual a diferença?” perguntou Verônica. “Retirada é abandonar tudo e...” Marcos interrompeu a fala porque alguém batia palmas com força na entrada do refeitório. “Atencion, please, atencion, please!” Era um major americano, e havia certa pressa na sua voz. “Todos os oficiais em reunião urgente no PC. Os demais comecem a preparação para evacuar o hospital imediatamente.” “O que está acontecendo?” perguntou Zoé, olhos assustados. “Vamos evacuar imediatamente” disse Elza, que falava um excelente inglês.  “Porque não sei, ele não disse.” Com pressa, mas com um sincronismo perfeito, as longas mesas foram ficando vazias. “Acho que vão nos bombardear” gemeu Zoé. “Posso fazer alguma coisa?” perguntou Marcos para a tenente Elza. “Pode voltar para sua lareira no seu quarto de hotel, capitão, aqui atendemos mais de mil pacientes e não precisamos de ninguém para atrapalhar.” Marcos não esperava a dureza da resposta, mas conseguiu sorrir, fez uma breve continência. “Vamos tornar a conversar, tenente, olho no olho.” Afastou-se depois de abanar para as suas três amigas, que se paralisaram estupefatas. “Comecem a preparar para evacuar” disse Elza para as três enfermeiras, “eu vou ao PC saber o que está havendo.” Dulce, Zoé e Virginia correram para a enfermaria dos brasileiros. O hospital abrigava mais de mil pacientes, a maioria deles americanos, e com os médicos, enfermeiras e pessoal de apoio a sua população somava mais de 3 mil pessoas. Por uma das alamedas dos hospitais aproximava-se um comboio de caminhões enormes, as luzes acesas, buzinando sem parar para abrir caminho. “O que está acontecendo?” exclamavam as pessoas. Eram caminhões anfíbios, usados pelas tropas para atravessar rios. “Levem os pacientes para os caminhões!” gritavam vozes. Algumas luzes se apagaram e ouviram-se as vozes de susto. Elza apareceu de repente. “Meninas, vamos trabalhar com pressa mas sem correria! Não quero ver ninguém histérica!” “O que está havendo afinal?” gritou Dulce, “o que eles disseram?” “Os alemães explodiram a represa nas montanhas, abriram as comportas do caminho e o rio está descendo em direção a nós, vem levando tudo pelo caminho, precisamos sair daqui senão também vamos ser levados.” “Nossa Senhora!” “O rio já arrasou várias aldeias, disseram que vai levar pelo menos duas horas para chegar até nós, mas temos que colocar nossos pacientes nesses caminhões e salvar tudo que pudermos de medicamentos e roupas e tudo que for útil. Mexam-se, suas vacas grã-finas!”  Elza estava há dois meses na guerra, tinha padecido nas mãos das instrutoras americanas e aprendera com muitas lágrimas escondidas á noite na barraca que aquele era um negócio duro, onde o trabalho delas era neutralizar a dor, motivo daquele jogo sinistro, e não podia dar moleza nem ser sentimental ou sofreria ainda mais e os que dependiam dos seus serviços também. Adotar a postura de durona foi apenas uma espécie de maquiagem na sua personalidade, pois sabia que já era assim desde criança, e agora precisava mais do que nunca desse atributo. Os caminhões anfíbios foram se enchendo de feridos, mutilados e doentes. Havia uma grande enfermaria só com casos graves de soldados com distúrbios psicológicos. Alguns desses se recusavam a entrar nos caminhões. A retirada organizada ás vezes estremecia com surtos breves de tumultos e empurrões, mas pouco a pouco os caminhões foram se enchendo e começaram a se afastar. Tudo era levado para um prédio em construção distante quatro quilômetros dali, num lugar alto, onde as águas não chegariam. Pouco a pouco, sobre o rumor do hospital em retirada, sobre o ronco dos motores dos caminhões e dos jipes e das vozes e dos lamentos, começou a se ouvir um surdo e assustador coro de fantasmas, uma espécie de ladainha de mortos, uma sinfonia que por um instante paralisou a todos e dirigiu os olhares para o mesmo ponto. As águas do rio Arno chegavam. Com uma força e uma rapidez que ninguém ali esperava, as águas escuras avançavam com avidez, levando de roldão barracas, camas, cadeiras, armários, explodindo contra os veículos, derrubando pessoas e arrastando-as, gerando um medo e um pânico que ainda não conheciam.  Elza e suas três enfermeiras se enfiaram dentro de um jipe onde já estavam quatro soldados. As águas bateram neles com força, o jipe sacudiu e estremeceu, mas resistiu e as águas foram passando. “A correnteza está perdendo a força” disse o cabo na direção do jipe. “Me disseram que lá na encosta da montanha ela arrastou casas e caminhões, graças a Deus o hospital está bem longe.” Passavam boiando sapatos, panelas, bolsas, guarda-chuvas. Todos estavam encharcados e agora tomados de violento frio. “Não vamos ficar paradas” comandou Elza. “Vamos recuperar tudo que for possível. A documentação do hospital ficou lá dentro e nós vamos voltar lá e salvar o que for possível salvar.” As quatro enfermeiras saltaram do jipe. A água chegou até acima de seus joelhos, sentiram nas coxas a força e o ímpeto que queria arrastá-las, mas elas enfrentaram a correnteza e avançaram tropeçando, de mãos dadas, em direção a sua enfermaria.

O Medo do Capitão Ramagem

24.

Zenóbio estava imponente diante da mesinha de madeira: “Após as vitórias de Camaiore e Monte Prano, avançamos em perseguição aos focos nazistas no Vale do Serchio, e tomamos Fornachi, Barga, Gallicano, Monte São Quirico e Lama di Sopra, combatendo e vencendo o inimigo.” Os jornalistas tomavam notas, a chuva pingava no teto de lona da barraca. “Em Barga, tivemos a honra de receber a visita do senhor ministro da Guerra, general Eurico Dutra, que oficializou o emblema da Força Expedicionária Brasileira para esta campanha, a cobra fumando.” Deu um tapa no braço, mostrando a faixa onde estava bordada a cobra fumando. “Como os senhores sabem, o Brasil só viria para a guerra no dia que cobra fumasse. Bom senhores, a cobra fumou e continua fumando. Neste exato momento, o 6º-RI avança em direção a Castelnuovo di Grafagnana, um reduto nazista importante. É uma fortaleza fincada num terreno íngreme e escorregadio, que com esta chuva com certeza estará muito pior.” A 2ª- Companhia do 6º- RI de fato se arrastava por terreno íngreme e escorregadio sob o comando do capitão Aldenor, a chuva caindo sem parar em suas costas. O sargento Nilson conhecia o capitão Aldenor de vista, lá de Floripa. Ele tinha casado com uma moça da família Cardoso, família amiga da sua. O sargento Nilson recostou-se numa rocha e olhou ao redor. Na paisagem cinza os homens se moviam quase imperceptivelmente, num silêncio temeroso: os alemães não estavam longe, e mais uma vez guardavam uma posição favorável. Lá de cima, naquele castelo medieval, atrás daquelas paredes de pedra com centenas de anos, era fácil defender a posição. A 2ª- Companhia tinha começado a marcha de manhã bem cedo, e tinham envolvido a vila La Rochette sem grandes problemas. Perto do meio-dia se aproximaram deste lugar, Lama di Sotto, e foram recebidos com forte canhoneio. Aí travou-se um combate feroz com troca de tiros ininterrupta durante duas horas, até que o Grupo de Combate do sargento Nilson conseguiu deslizar por um buraco no muro. Pedrinho, o gago Atílio, Quevedo e Alemão rastejaram num pátio de pedras, cheio de tonéis gigantescos, e deram de cara com um alemão urinando na parede. Uma rajada de metralhadora e ele se dobrou e caiu de braços abertos. “Ultima mijada, alemão” murmurou Quevedo. Outro alemão apareceu no pátio e foi recebido a bala. Sumiu atrás dos tonéis. Pedrinho correu atrás dele, dez segundos depois voltou correndo. “São mais de trinta!” Dois alemães apareceram mas foram varridos por disparos simultâneos das cinco metralhadoras. O sargento Nilson subiu numa escada de pedra num ângulo do pátio e desferiu várias rajadas. Viu que os alemães aparentemente entraram em pânico, pois desataram a correr. “Estão fugindo!” gritou para seus homens. Pelo buraco no muro apareceram mais pracinhas que foram buscando posição atrás dos tonéis. Pouco depois apareceu o próprio capitão Aldenor com uma bazuca. A arma foi acionada e um potente tiro derrubou uma porta de madeira no outro lado do pátio. Pouco depois outro grupo de brasileiros entrou correndo pelo portão estilhaçado. Os tiros foram cessando e em breve o silêncio desceu sobre o antigo castelo. Apenas a chuva caía sem parar. Todos buscaram abrigo sob as marquises. O capitão Aldenor fez um sinal para o sargento Nilson se aproximar. “Nosso objetivo é Castelnuovo de Garfagnana. Vamos tomar um pouco de fôlego aqui e depois vamos prosseguir. Pelo mapa estamos a dois quilômetros do lugar.” “Com essa chuva vai parecer dez” disse Nilson. Meia hora depois retomaram a marcha, escorregando na lama. Pedrinho feriu a mão numa pedra ao escorregar. Quando tentava colar um band-aid no corte viu os capacetes de vários alemães mal ocultos pela vegetação rala. A uns 300 metros de onde estava. “Eles estão perto” avisou ao sargento. “Epa, o que é isso?” “Parece que eles estão vindo, sargento.” “É isso mesmo, estão vindo pra cima da gente!” Naqueles trinta dias de guerra como soldado de infantaria o sargento Nilson  ainda não tinha a experiência de ser atacado por outro grupo de infantaria. Nenhum deles tinha. E era isso que estava acontecendo. Puxou o praça que manejava o rádio. “Avise o comando que estamos sofrendo um contra-ataque.” Olhou para a frente diante dele e entendeu que os alemães eram centenas e avançavam com cautela, mas avançavam. Olhando melhor, não eram centenas, eram milhares. Para a esquerda e para a direita, até onde seu olho alcançava, o sargento Nilson via os capacetes cinzentos reluzindo á chuva que caía. “Diga que é uma Divisão inteira e que vamos ser cercados.” “C-c-cer-cados?” “Diga que precisamos de uma barragem de artilharia com urgência para impedir o avanço deles.” O capitão Aldenor se aproximou. “Estou pedindo uma barragem de artilharia, capitão.” “Eu já pedi. A 3º- Companhia está sendo envolvida. Falei com o capitão Ramagem. Eles não têm mais munição e os alemães já estão em cima deles.” “E estão em cima de nós também, capitão.” “Nós vamos aguentar o tranco, sargento. Todo mundo de granada na mão. E dê a ordem de calar baionetas.” Calar baionetas é uma ordem que dá calafrio em qualquer um. O sargento deu a ordem e viu Pedrinho calçando a baioneta na ponta do rifle, e viu o gago Atílio, e Quevedo e todos os outros soldadinhos estirados no chão molhado, com a interminável chuva escura caindo sobre eles como uma maldição, e sentiu seu coração contra a lama fria batendo, batendo, e viu que os alemães estavam a menos de 20 metros e eram na proporção de cinco para um e o sargento Nilson pensou friamente vou morrer. Vou morrer aqui neste lugar desgraçado enquanto lá em Floripa deve estar um dia sol e ao meio dia é bom ficar olhando a Lagoa da Conceição sorvendo um caldo de cana. O praça estendeu o rádio para o capitão Aldenor. “É o capitão Ramagem, senhor.” “Alô, Aldenor, estamos totalmente cercados. Agora eu sei, não é uma Divisão, nem duas. São três Divisões vindo pra cima da gente.” “Eu pedi a ação da artilharia, mas nada.” “Aldenor, estou sem munição, vamos entrar num corpo-a-corpo em alguns minutos.” “Nós também, Ramagem. Estamos sem saída e esses filhos da mãe não acionam a artilharia.” “Não estou entendendo, passei a manhã toda pedindo munição e nada.” “Vou aguentar o quanto puder.” “Eu também, Aldenor, mas sabe do que eu tenho medo? É que matem todos os meus rapazes, Aldenor.”

Dulce e Zoé no Hospital de Campanha

23.

“Então isto é o Hospital de Campanha” disse Zoé, largando a mala no chão. Dulce olhou ao redor com desconforto. Já estavam há dois meses na Itália e aquele era seu primeiro Hospital de Campanha. Até agora tinham trabalhado e feito estágio em dois grandes hospitais montados em Nápoles, nas dependências onde foi realizada a Feira Mundial. Peças arejadas, grandes corredores, pé direito gigantesco e cheiro de éter e substâncias semelhantes pairando no ar. Desfrutavam de relativo conforto para trabalhar. Virginia postou-se ao lado das duas e também largou sua mala no chão. “Que horror” murmurou, baixinho. O que viam não era muito animador. A chuva tinha parado a pouco, o barro tomava conta dos caminhos, a água empoçava no teto das centenas de barracas. A noite se formava pegajosa, alguns relâmpagos estalavam abrindo claros na escuridão. Um jipe se aproximou. A enfermeira chefe, Elza, desceu e foi direto a elas. “Não fiquem aí paradas como baratas tontas. Guardem suas tralhas na barraca e se preparem que vem aí grande confusão.” As três se olharam. Elza examinou-as um instante, carrancuda, e depois sorriu. “Mas antes tenho uma surpresa para vocês.” Fez um gesto para o jipe e o oficial desembarcou e se aproximou e elas reconheceram o capitão Marcos. Zoé se pendurou no pescoço dele, trocaram forte e demorado abraço. Zoé chorava. “Desculpem, eu sei que sou boba.” Marcos apanhou um lenço, ofereceu-o a Zoé. “Pode chorar, prima. Eu sei que vocês estão sendo maravilhosas.” Marcos ajudou-as a levar as malas para a barraca mas foi impedido de entrar pela enfermeira-chefe. “Homem não entra nessas barracas, capitão, principalmente se for um oficial bonitão.” “Não sabia que era bonitão, tenente Elza.” “Sua fama corre desenfreada como um garanhão pelas enfermarias, capitão Marcos, e eu tenho que zelar pela reputação das minhas moças. Diga-me uma coisa, capitão: como oficial de ligação, que inconfidência o senhor pode fazer a pessoas tão famintas de novidades?” “O Ministro da Guerra vem aí, fazer uma visita ao front.” “Essa já sabíamos, capitão. Conte outra.” “Churchill manca da perna direita.” “O que?” “Winston Churchill, o grande estadista, visitou nossas tropas na semana passada. Foi uma grande honra. Ele manca da perna direita. Ele passou nossas tropas em revista. O velhinho caminha apoiado numa bengala.” “Grande novidade, capitão, obrigado. E vá ver se estou na esquina, por favor.” E afastou-se em passos rápidos, sumindo no tumulto dos soldados e enfermeiras que iam e vinham no lusco fusco. “É bonitinha, mas não tem senso de humor” pensou Marcos, quando viu suas amigas saírem da barraca. “Vocês estão muito bem, meninas, estão lindas. Parece que vão para um baile no Copa.” “Capitão Marcos, o senhor é um grande mentiroso” disse Dulce “estamos horrorosas.” “Acabamos de chegar de seis horas de viagem, por uma estrada que era um suplício” disse Zoé. “Muito trabalho nos hospitais em Nápoles?” “Chegamos um dia antes do 1º- Escalão e trabalho não faltou desde o momento em que ele desembarcou. Nada menos que 300 homens foram diretamente de bordo para os dois hospitais.” “Cruzes.” “E isso que um número enorme foi mandado para o Hospital de Venéreas.” “Mas lá não tem enfermeiras” disse Virginia, corando. “Ainda bem” disse Marcos, e todos riram. “Onde você está, Marcos?” “Por enquanto em Pisa, pertinho daqui, 40 quilômetros. Bom hotel, bons restaurantes. Vou sequestrar vocês um dia desses e vamos comer num restaurante fantástico que eu descobri.” “E visitar a Torre.” “Naturalmente.” “Tenho amigos lá. A Aviação vai se instalar em Pisa brevemente, e o tenente Torres está lá organizando a chegada. Mas isso é segredo militar, gurias, é só para saberem que o queridinho das moças, o heroico capitão aviador Torres está perto.” As três riram com prazer, lembrando do tenente Torres, mas a inquietação que pairava sobre o Hospital, com a ameaça de chuva e os relâmpagos distantes, pareceu de repente desabrochar num tumulto de ruídos e buzinaços e ordens em voz urgente. Se aproximava um comboio de ambulâncias. Elza apareceu. “É um regimento de infantaria americano, só de negros, o 370.” A enfermaria de choque se preparou para o desembarque dos feridos, e á medida que as portas das ambulâncias eram abertas o ar começou a se saturar do som de gemidos e gritos de dor. Marcos percebeu a transformação nas suas três amigas. Elas rapidamente adotaram atitude profissional. Com rapidez, mas sem alarme, posicionaram-se para receber as macas. Elza falava com o médico americano. Parecia contrariada. Aproximou-se de Marcos. “A coisa foi feia” ela disse. “São mais de 60 feridos, e talvez a metade já sem vida.” Tomou o pulso de um soldado que era desembarcado numa maca, olhou para Marcos e sacudiu a cabeça. “Este se foi.” Marcos notou que a enfermeira-chefe era bonita, uma beleza nordestina, morena e com olhos de onça. “Sabe o que esse médico idiota me disse? Que esses soldados são covardes, que eles bateram em retirada e que mereceram o que aconteceu.” Estava chocada, pálida, e com raiva. Marcos tentou dizer alguma coisa. “Os americanos são um povo bastante racista, tenente Elza, sabemos disso.” “Sabemos, mas é repugnante falar assim de feridos.” “Tenente Elza” chamou Virginia “acho que temos um brasileiro aqui.” Elza e Marcos aproximaram-se. Numa maca estava um negro enorme, com a calça rasgada e uma bandagem na coxa. Curvaram-se sobre ele. “Praça Bandeira” disse o negro “fui atingido, mas o sargento Nilson me resgatou. Devo minha vida para ele.” “Muito bem, soldado, vamos tomar conta de você” disse Elza. “Tá sentindo dor no ferimento?” “Não senhora, não está doendo mais, me deram uma injeção e eu tô leve como uma pluma.” “Onde você estava, soldado?” perguntou Marcos. “Monte Prano, senhor. Fiquei cara a cara com os alemães, levei o maior susto da minha vida, mas acho que eles também levaram. Nunca viram de perto um negrão tão feio como eu.” A enfermeira Elza disse: “Você é um negrão muito bonito, soldado, e nós vamos tomar conta de você. Levem ele para a enfermaria.” Dulce e Zoé acompanharam a maca entrando na grande barraca de lona, Elza voltou-se para Marcos. “Pois é capitão, os americanos são racistas, mas os feridos deles, quando desembarcam no Hospital já vem com a Purple Heart no peito. Os nossos, se querem uma medalha, tem que requerer por escrito. Isso não é uma humilhação?” O capitão Marcos ficou calado. A enfermeira-chefe Elza, além de bonitinha e carrancuda, era mulher de caráter. Seria interessante tornar a vê-la.