quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O Resgate do Capitão Bueno

36.


O soldado negro rastejava com uma agilidade de atleta, não parecia que tinha escalado centenas de metros escorregadios sob fogo cerrado e que com certeza seus músculos doíam tensos e machucados. O soldado negro de quem o major Jacy e o coronel Almeida sequer o nome sabiam avançava com um ímpeto e uma coragem sem exaltação que os emocionou por um momento, até que quando ele já estava bem longe e era mais um contorno do que uma figura humana começou a desabar a seu redor uma carga de fogos e explosivos que levantavam terra e o obrigaram a jogar-se no barro e ficar ali, quieto, esperando que o pior passasse. “O pior ainda nem começou, meu amigo, posso sentir isso, e seria um idiota se não sentisse: o pior vai ser essa reunião com o Crittenberg, ele parece um cabra difícil, durão.” “Ele é durão, ministro” disse Brayner, para Salgado Filho, “ele é um osso duro de roer, parece sofrer de síndrome de cowboy, e não sei se é nosso amigo.” “Bem, eu sou seu amigo, major, e posso lhe garantir que não estou aqui como espião ou fiscal do governo. Simplesmente sou o ministro da aeronáutica, é natural que eu esteja aqui. Percebo que fatos poucos agradáveis estão ocorrendo e que os senhores estão procurando desviar do meu conhecimento, o que eu entendo. Mas discordo dessa atitude. Em hipótese alguma eu me solidarizaria com quem quer que fosse, contra os senhores, oficiais brasileiros. Sei quem os senhores são, e eu, aqui, sou um brasileiro a mais, para defendermos, em conjunto, o nome e os interesses do Brasil” “Obrigado, ministro. Na guerra, sabemos agora, nem sempre as coisas acontecem como são planejadas. Há dias menos felizes. Hoje é um dia assim, aconteceram fatos imprevistos que modificaram nossas expectativas. Mas não vamos afundar no pessimismo. Um dos meus trabalhos é por a razão acima de todos os sentimentos.” “Bem, vou voltar a Porreta Terme. Deixo os senhores para preparar a reunião com o cowboy. Mas tornaremos a falar antes de eu voltar para o Brasil.” Não vou voltar para o Brasil, não vou voltar para o Brasil, agora eu sei, as balas não atingiram meu estômago, foi o pulmão direito e agora sei que arrebentaram um bom número de costelas e agora sei que mal posso respirar e estou quase em estado de choque mas com uma lucidez que me assusta, o pior foi que o alemão não atirou em mim, ele já estava morto, foi um acidente, ele caiu morto sobre a metralhadora e ela disparou na minha direção, não acertou a barriga, acertou mais acima e perfurou o pulmão, olhou o relógio, o mostrador estava coberto pelo sangue, fechou os olhos e escutou o silêncio daquela farinha branca gelada caindo sobre seu rosto e ouviu então vozes  trata-se de consolidar o saliente existente na direção de Bolonha, dizia uma das vozes e fazer ações limitadas em seus flancos, tentando melhorar as posições e outra voz se infiltrou e se tornou mais clara e era o Pereira que como o habitual falava sem parar com seu sotaque de caipira paulista eles podem praticar tiro ao alvo em quem estiver lá embaixo, capitão, é uma diversão. O senhor sabe que alemão gosta de caçada. Então os americanos montaram uma máquina de fumaça para manter a região mais baixa permanentemente nublada, tem uma em cada cabeceira da ponte, eles bolaram isso para encobrir a ponte de Sila, a ponte de Sila é vital para nós, sem a ponte de Sila a frente brasileira fica sem suprimentos. Os alemães bombardeiam a ponte todos os dias, nas horas mais diferentes, a engenharia já reconstruiu a ponte umas cinco vezes desde que eu estou aqui. Quando chego perto da ponte eu acelero, todo mundo passa com o pé no fundo pela ponte, porque mesmo coberta de fumaça os alemães ouvem o barulho dos motores e mandam bala. Quem trabalha na operação fumaça é o Magro, da dupla o Gordo e o Magro.” “Essa não.” “Pura verdade. Tá todo mundo indo lá dar uma olhada nele, mas ele não gosta. Não dá uma risadinha. Ele nunca dá risadinha, nem nos filmes, só faz chorar. Ele é assim.” “Eu sei.” “Mas quando eu fui lá e fiz sinal de positivo com o polegar, assim ó, ele achou engraçado e tirou o capacete e coçou o cabelo como faz nos filmes e fez cara de choro e aí eu me animei e peguei uma rapadura que tinha chegado lá de Pirapora e dei pra ele e ele pegou, cheirou, deu uma mordidinha e fez sinal de positivo, depois meteu a mão no bolso da túnica e tirou uma barra de chocolate e me deu.” O soldado negro sentiu o impacto da bala em sua perna quando calculava que estava a apenas 20 metros do corpo caído do capitão Bueno, e instantaneamente pensou outra vez estava quase salvo, estava salvo e então um obus explodiu bem ao lado dele e com o impacto o corpo do soldado negro de quem o major Jacy e o coronel Almeida sequer o nome sabiam partiu-se em três pedaços sanguinolentos. O major Jacy e o coronel Almeida trocaram um olhar estarrecido. Acabara de acontecer algo que os assombraria para o resto de suas vidas e eles sabiam. Enquanto estavam ali paralisados, sem reação, o sargento Max disse: “Quero voluntários.” Os soldados que tinham parado para acompanhar a tentativa do soldado negro, olharam com temor para ele porque o sargento Max já estava granjeando a fama de temerário, capaz de algumas façanhas de arrepiar os mais valentes. “Voluntários para que?” perguntou Almeida. “Não vou deixar meu capitão caído na terra de ninguém. Quero três voluntários.” Apesar de os pracinhas repetirem entre si várias vezes por dia para nunca se apresentarem voluntários para nada, absolutamente nada, o cabo Leite e os soldados Manoel Filho e Barbosa Lima se apresentaram ao sargento Max. E depois de checar  as armas e largar as pesadas mochilas, os quatro homens subiram o barranco e começaram a rastejar em direção ao corpo caído do capitão Bueno.

O Sexto Corpo à Direita

35.


“Os batalhões estão regressando á base de partida” confirmou o coronel Castelo Branco “era uma decisão inevitável.” O general Crittenberg  mostra um tênue sorriso de desprezo. “Inevitável?” e dirigindo-se diretamente a Mascarenhas: “O senhor empregou sua reserva?” “Não. Nem poderia, sem sua permissão direta.” “Como assim?” “Está escrito na Ordem Geral de Operações emitida por seu comando, general Crittenberg.”. O general americano olhou para o major seu secretário que confirmou com a cabeça. “Qual a dotação de munição que lhe foi fornecida para esta operação?” “Recebi 12 mil tiros de todos os calibres, de artilharia e morteiros.” “Quanto gastou, até este momento?” Mascarenhas olhou para Brayner, Brayner consultou sua caderneta de anotações. “Pelo informado, gastamos cerca de 4 mil tiros, general.” Crittenberg não conteve um largo gesto de impaciência, que alertou todos em redor. Sua voz se elevou: “Se o senhor não empregou ainda sua reserva e dispõe de um saldo de 8 mil tiros de artilharia e de morteiros, e sendo ainda menos de 15 horas, decide renunciar a continuar a atacar, outras razões mais fortes devem existir para que desista do cumprimento da missão.” No silêncio da sala se ouviram os ruídos distantes das explosões, esporádicas mas ainda assustadoras. O ministro Salgado Filho depositou sua xícara de café na mesa rústica e ficou olhando para ela um instante antes de erguer a cabeça e ver a face crispada de Mascarenhas. “General Crittenberg” disse o general Mascarenhas pausadamente e num tom de voz contido “de fato, uma sequência de fatores negativos, inesperados e de alguma maneira ainda não explicados, está influindo para que o moral de certa parte da tropa se sinta abalada, e acredito que com tendência para piorar.” Nesse instante a figura enorme de Zenóbio entrou no recinto, trazendo ainda no uniforme o cheiro e a sensação física da batalha que estava comandando. “De minha parte, general Mascarenhas e meus senhores, posso afirmar que o moral de minha infantaria não sofreu qualquer arranhão. Peço permissão para discordar quanto a sua afirmação, comandante, de que não se cumpriu a missão por fracasso moral da infantaria. Outros fatores podem e devem ser encontrados, menos este.”  O general Cordeiro de Farias acabara também de entrar, exalando frio do seu capote molhado, dirigiu-se á mesa de café e se serviu. “De minha parte, senhores,  também posso garantir de que o moral da artilharia está intacto. Aconteceu muita coisa que necessita ser explicada antes de se falar em perda de moral.” Os três generais brasileiros se entreolharam, surpresos com eles mesmos. O general americano apontou com o dedo seu relógio de pulso. “Muito bem. Vamos nos reunir as 17 horas, no QG avançado do IV Corpo, em Taviano, para retomar a discussão deste assunto. Com licença.” Saiu pomposamente, talvez mais do que o necessário. Os americanos tinham generais teatrais e espalhafatosos como Patton e Mac Arthur, entretanto Crittenberg era controlado e os brasileiros sentiram que estavam na borda de um abismo. Os americanos não queriam dividir fracassos. O ministro Salgado Filho se aproximou de Cordeiro de Farias e apertou sua mão, no momento em que o capitão Bueno olhava ao redor tentando descobrir onde estava. Ele desconhecia o que estava acontecendo com o ataque principal. Onde estariam os dois pelotões de primeiro escalão que tinham obrigação de lhe dar apoio? Onde estaria ferido? A dor ainda era apenas uma ameaça e só o de que tinha certeza era que respirava mal, algo acontecera com seu pulmão esquerdo. Lembrava que o rádio de mão fora inutilizado pelo deslocamento de ar causado por uma explosão logo que chegaram naquele corredor, o corredor como dissera aquele soldado atrevido, o corredor da morte, e é onde estava, no tal corredor da morte, sem comunicação, cabos telefônicos partidos, vários corpos caídos ali perto, e a sensação de algo molhado na barriga, levou a mão trêmula até ali, olhou para ela, sangue, a vida ia se escoando devagarinho daquele buraco em sua barriga e em volta o silêncio e essa farinha bem fininha que cai do céu e faz cócegas em seu nariz e vai deixando tudo delicadamente alvo, sua mulher ia gostar de ver. E ali no observatório a 600 metros do corpo imóvel do capitão Bueno, precariamente protegidos, o major Jacy e o coronel Almeida apontam o binóculo e vão contando os corpos, cinco, seis, oito, dez, doze... “Que desastre, Almeida, o que deu errado?” “Muita coisa, major, mas eu acho que o sexto corpo á direita é do capitão Bueno.” “Sim, é ele mesmo.” “Eu tive a impressão que ele está se mexendo.” “Me parece imóvel, completamente imóvel.” “Eu vi sua mão se mexer.” “Então está vivo. Não podemos deixar ele lá. Vai congelar. Está caindo essa saraiva, ele vai congelar se não for resgatado.” O major comandante e o coronel rastejaram na lama para fora do abrigo e se aproximaram da trilha por onde descia cautelosa a longa fila de pracinhas, abatidos, receosos, esperando os obuses que tinham temporariamente cessado. O major Jacy fez um gesto para o soldado mais próximo, ele se aproximou. Era negro e forte, com ombros largos de estivador. “Soldado” disse o major Jacy “teu capitão está caído ali na terra-de-ninguém, está vivo, dá uma olhada.” O soldado se surpreendeu , mas apanhou o binóculo e olhou com vagar. “Sim” disse ele, “é o capitão Bueno.” “Ele está se mexendo?” “Me parece que não, major.” “Eu vi ele se mexer, soldado” disse o coronel Almeida, “eu sei que ele está vivo.” O soldado negro baixou o binóculo e olhou para os dois oficiais, com desconfiança. “Soldado” disse o major “tens coragem de voltar á terra-de-ninguém e puxar o capitão para uma vala onde possa ser resgatado mais tarde?” O soldado sorriu sem jeito. “Coragem eu tenho, major, só não sei se consigo.” “Mas você quer tentar?” O soldado coçou o rosto, mostrou os dentes brancos, alargando o sorriso. “Bom, acho que mal não faz.” “Vou providenciar cobertura” disse Almeida, “vou mandar fogo cerrado pra cima deles, enquanto você se aproxima.” “Sim, senhor.” “Então, vai. E boa sorte.” O soldado negro fez uma continência vacilante, olhou para o corpo do capitão Bueno lá longe, caído entre vários corpos, com aquela coisa fininha, fria e leve derramando sobre ele e suspirou fundo. Merda, pensou, merda, merda e merda. Estava quase salvo, quase salvo, quase salvo. Estava voltando para a base. Estava salvo. O soldado negro sentiu o tapa do coronel no seu ombro, vai, e mergulhou na direção da terra de ninguém, abaixado, rastejando, procurando as reentrâncias do terreno, as valas e os barrancos. “Como é o nome dele, Almeida?” “Não perguntei.” Olharam para o soldado que se afastava cada vez mais, na direção do corpo caído do capitão Bueno.

Quem Ordenou a Retirada?

34.

O major Franklin olha o relógio de pulso. 1h:30min e nada da cobertura da artilharia. Arranca o telefone do sargento das comunicações e brada enfurecido: “General Zenóbio, e a cobertura da artilharia? Isto aqui vai ficar insustentável. Estamos flanqueados e no meio do fogo!” “Aguenta um pouco mais, major. Os americanos informaram que tomaram Mazzancana. Já, já vamos nos colocar lá para proteger seu flanco.” “Mazzancana, general? Mas é de lá de Mazzancana que estou recebendo bala sem parar. Os americanos não tomaram Mazzancana coisa nenhuma.” “Vou checar isso, major. Enquanto isso, sustente a posição e procure avançar o mais que puder na direção de Mazzancana.” “Sim, senhor.” E o major Franklin olhou para Mazzancana com ódio. Mazzancana: aquelas altas casas de pedra, duras como fortalezas, de onde descia sobre seu batalhão uma torrente de fogo e de projéteis explosivos. “Alô, major Franklin, é o Zenóbio. Os americanos me confirmaram, tomaram Mazzancana sim.” “Positivo, general.” “ Leve seu batalhão para lá.” “Sim, senhor, general.” O major Franklin olha para o capitão Otávio. Dois olhares perplexos se encontram. “O Zenóbio diz que os americanos tomaram Mazzancana. Diz que isso foi confirmado. Vamos para lá.” “Tomaram? Tomaram uma ova.” “O Zenóbio confirmou.” “Com todo o respeito, ele não está aqui.” “Os americanos confirmaram.” “Então porque continuam a atirar contra a gente? Será fogo amigo? Com todo o respeito, major, não podemos dar um passo fora deste barranco, vão nos varrer. Se os americanos tomaram Mazzancana por que não param de atirar de lá?” “Isso eu não sei. Vamos nos mover, capitão, essa é a ordem do general.” “Sim, senhor. Sargento Gutierrez, vamos em frente, abaixados, vamos sair deste buraco e avançar.” “Avançar, capitão?” “Ficou surdo, sargento?” “Não senhor.” O sargento Gutierrez pensou minha pressão vai subir e explodir meu cérebro dentro do capacete, mas ordens são ordens e não vou dar parte de cagão. Não tô surdo mas vou acabar ficando com tanto rojão rebentando nos meus ouvidos. Olhou para os homens amontoados no chão uns sobre os outros, pálidos, molhados, e disse, procurando um tom de voz que motivasse: “Agora vocês vão conhecer a força do carvão de pedra.” O sargento Gutierrez era de Joaçaba mas foi criado em Criciúma e tinha trabalhado nas minas quando era adolescente. “Vamos macacada que aqui não tem mais nada.” Saltou para fora do buraco e começou a correr abaixado, sentindo que os homens vinham atrás dele quando as balas começaram a pipocar ao redor levantando postas de barro e pedaços de pedra e viu cair o negrinho Peralta segurando a barriga, e logo viu o galego João Maria cair segurando a perna direita e logo viu o cabo Jeovânio cair segurando o braço e rastejar buscando seu fuzil e o sargento Gutierrez entrou em desespero: “Major, major, assim não vai dar, vem bala de tudo que é lado e estamos sem proteção nenhuma.” “Voltem para o barranco, voltem para o barranco!” gritou o major Franklin no momento em que Mascarenhas apertava a mão do ministro Salgado Filho, observado pelo general Crittenberg. “Que honra para nós, ministro.” O general Mascarenhas, Crittenberg e Salgado Filho foram para um canto, onde estava uma mesa servida com café e sanduíches. “Ofereço um humilde lanche para as ilustres visitas.” Salgado Filho aceitou o café com evidente prazer, mas Crittenberg parecia desconfortável. Foi direto ao ponto. “Quais são as novidades, general?” O major Vernon Walters se aproximou para fazer a tradução da conversa. “Está sendo um dia duro, general. As primeiras iniciativas não saíram bem como esperávamos. O sigilo do ataque foi quebrado.” “O sigilo foi quebrado? Por que o senhor afirma isso?” “Porque estamos recebendo fogo antes mesmo de iniciarmos a subida. Vossa artilharia se precipitou e abriu fogo bem antes do combinado, chamando a atenção do inimigo para nossa movimentação.” “Discordo, general, Mascarenhas. Os tiros de nossa artilharia foram fogos de inquietação. Não prenunciavam um ataque.” “Então algo mais grave aconteceu, porque é evidente que os alemães começaram a disparar sobre nós com pleno conhecimento de que era um ataque em massa. O fogo deles não deixa dúvidas.” Os dois homens ficaram se olhando num silêncio incômodo. “Algo mais grave? O que por exemplo?” “É exatamente isso que me inquieta, general.” “Onde está o general Zenóbio?” “Em seu posto de combate.” O general Zenóbio ouvia cada vez mais lívido as palavras do major Franklin ao telefone. “Meus homens estão morrendo ás chusmas, general, na minha frente vi pelo menos vinte tombarem, estamos num maldito corredor, com fogo dos dois lados e de frente, e não temos cobertura. Onde está a maldita artilharia, onde está a maldita aviação?” “Controle os nervos, Franklin, comece a retirar seus homens.” O general Zenóbio chamou o tenente-coronel Castelo Branco. “Coronel, o que me diz da aviação? Ela vem ou não vem?” O Castelo Branco falou nervosamente ao telefone, durante minutos que pareciam não acabar, sob o olhar duro de Zenóbio. Castelo Branco largou o telefone. “Desligaram os motores. Eles não tem condições de decolar.” “Coronel, não vou deixar meus homens serem massacrados. Avise o comando que ordenei a retirada.” Castelo Branco telefonou para Mascarenhas, que atendeu sobre o crivo dos olhares de Salgado Filho e Crittenberg. Sacudiu a cabeça, bem devagar, e com uma tristeza de animal abatido. “Zenóbio ordenou a retirada.” Crittenberg pareceu se contorcer dentro do uniforme. “Quem ordenou a retirada?” disse com voz abafada, no exato momento em que o capitão Bueno lá em Abetaia percebia  que estava completamente imóvel, percebia que os flocos gelados caíam no seu rosto, provocando leves cócegas, que lhe davam vontade de rir,  percebia que havia algo muito estranho ao redor dele, e custou a descobrir que era o silêncio. As explosões tinham cessado, os tiros de metralhadora tinham cessado e os gritos em língua estranha tinham cessado. Estava completamente imóvel, caía no seu rosto essa pequena coisa gelada que lhe dava cócegas e o mundo estava mergulhado num silêncio assustador.


A Neve é tão Bonita

33.

No visor do binóculo do general Mascarenhas os homens subindo a montanha eram apenas vultos escuros. A chuva gelada tinha parado e no lugar dela ocupara as montanhas uma cerração fechada, cinzenta, que dissolvia tudo. No entanto eles estavam lá, via os vultos. Ás vezes a cerração abria uma brecha e lá estavam eles, subindo, lentamente, penosamente, coração na boca, cheios de paura, mas sem parar. Lá vão eles, o general os vê,  encharcados, transidos, respirando mal, dois mil moços brasileiros, o sargento Nilson, o capitão Bueno, o Alemão João, o gago Atílio, Francisco, Miguelim, Antônio, Ivo, Saulo, Tavares, Lucas, Pedrinho, Tiago, o negro Bandeira, vão abaixados porque obuses explodem ao redor, o negro Bandeira se levanta de repente e berra: “É mais pra cá, alemão batata!” O general não ouve o grito nem as risadas que ele desperta em meio ás explosões, mas já conhecia a piada e sempre se surpreendia com a capacidade de sua gente ironizar inimigo e desgraça e a própria morte. Mas seu chefe de Estado Maior não tinha senso de humor e murmura em seu ouvido, com gravidade: “As ordens de batalha não foram cumpridas à risca, general. A artilharia americana se precipitou na abertura de fogo e começou a atirar as 6h00 em ponto, quando o combinado era meia hora mais tarde. Em consequência, o terceiro Batalhão, comandado pelo major Franklin, começou a avançar assim que ouviu a artilharia americana e agora está isolado lá no alto.” “E o segundo?” “O segundo Batalhão, do major Sizeno, foi atrapalhado por uma série de contra ordens, primeiro diziam que Belvedere era nosso, depois que era dos alemães e assim atrasou a partida, mas agora vai avançando dentro das possibilidades, porque o fogo alemão se concentrou nele já que o terceiro está praticamente cercado.” “Começamos mal, Brayner, muito mal.” Zenóbio se aproximou, lívido. “Meus homens estão expostos lá em cima e onde está nossa artilharia?” Com o telefone colado ao ouvido o general Cordeiro o olhou calmamente: “Estou fazendo o possível, Zenóbio, mas não temos visibilidade.” “O que? O que você está me dizendo?” “Que não temos visibilidade. Que não posso mandar a artilharia atirar as cegas. Vou massacrar nossos próprios soldados. Você não está vendo a cerração fechando tudo?” “Eu preciso de cobertura lá em cima, o terceiro está caindo numa ratoeira.” “O segundo está impedido de avançar porque a concentração do fogo do Belvedere está todo concentrada nele” disse Brayner. “Nossos dois batalhões estão em apuros, general. O pior em que já estivemos até agora.” Era meio em dia em ponto quando a cerração começou preguiçosamente a se desfazer, e um grupo de pracinhas se amontoou em um canto e buscou avidamente as rações nas mochilas. É bom comer com essa música” disse Quevedo, “abre o apetite.” O capitão Bueno rastejava no barro e pensou meu Deus, estou chegando no tal corredor da morte. Ali estavam as casamatas dos alemães. A menos de quinze metros. Pereira, seu ordenança, tirou uma granada da mochila e apontou a casamata para o capitão Bueno. Piscou o olho para o capitão. O ordenança Pereira idolatrava o capitão Bueno. Se tinha um oficial que merecesse respeito era o capitão Bueno. Estendeu a granada para o capitão Bueno. Faltava um minuto para a uma hora da tarde. O capitão Bueno apanhou a granada, olhou para o céu, viu uma nesga azul. “Vai nevar” sussurrou alguém, “o Paolo me disse que hoje com certeza vai nevar.” O Paolo era um italiano de dois metros de altura, chefe dos guerrilheiros de Gaggio Montano. Ele sabia o que dizia.  O capitão Bueno jogou a granada na casamata e ergueu ligeiramente o corpo e viu a explosão e o alemão se dobrando sobre a metralhadora que soltou sua carga bem na direção do capitão Bueno. Á uma hora da tarde a bala rasgou a coxa de Pedrinho, quando ele dizia para Quevedo que na terra dele caçavam baleias no mês de julho, quando era pleno inverno. O praça Pedrinho tinha dito que lá em Imbituba caçavam baleias com arpões, enormes e negros arpões bem afiados, que entravam na carne das baleias e tingiam o mar de vermelho. Ele contava isso com um certo desespero, como se fosse culpado e como se a dor das baleias o acompanhasse ali, naquele lugar cheio de explosões e gritos inumanos. Todos os invernos as baleias chegavam e os homens as esperavam em seus barcos compridos, afiando os arpões e olhando o mar com ansiedade de caçador. Pedrinho se contorceu de dor e não gritou, mas fez sinal para o Alemão pedindo um torniquete, no momento em que a bala se aproximava do peito do capitão Bueno e este pensava que tinha tudo para finalmente nevar. Á uma da tarde a bala da metralhadora fincada na casamata perfurou o pulmão do capitão Bueno e ele sentiu a dor como se tivesse sido fisgado por um arpão de caçar baleias. Todo seu corpo estremeceu e o capitão Bueno sentiu um pingo gelado no nariz, era o primeiro floco de neve daquele inverno que começava. Sua mulher costumava dizer a neve é tão bonita, se Deus quiser um dia eu vou conhecer a neve. Á uma da tarde a ordenança estendeu uma xícara de café para o general Mascarenhas, quando o telefone tocou e Brayner atendeu. “Bem, se não houver o apoio da aviação, e isso está sendo confirmado, estamos definitivamente ferrados.” Brayner disse as palavras entre dentes, com uma mal disfarçada ferocidade, que surpreendeu Mascarenhas. O general comandante já estava por dizer para seu chefe do Estado Maior contenha seu pessimismo Brayner, quando viu o grupo entrando galpão a dentro (Posto de Observação a dentro, corrigiu mentalmente) e na frente do grupo, com ares de dono da casa, vinha o general Crittenberg e, ao lado dele, quem diria, o Ministro da Aeronáutica, um dos homens de confiança de Getúlio, o doutor Salgado Filho em pessoa. Era uma grande comitiva e apresentava certa pompa de pintura renascentista, com as capas encharcadas brilhantes da água da chuva e da neblina, e não tinham pudor de esconder o ar curioso, quase festivo: havia nos olhares deslumbramento com a proximidade do combate e todos procuravam afetar familiaridade com as explosões assustadoras e os estremecimentos das paredes, a fuligem que caía do teto e os rostos pálidos e cansados dos oficiais que estavam ali desde as duas horas da manhã. 

O Corredor da Morte

32.

O general Von Gablez contempla suas mãos brancas e longas e sussurra. “Há muitos negros?” “Boa parte deles são negros, general, mas nem todos. A maioria são mestiços” respondeu o coronel Pfeffer. O general Von Gables suspira. “Agora lutamos contra mestiços... que guerra! Chegou o relatório?” “Neste momento, general.” “Algo interessante?” “Como previmos, o ataque foi entregue aos brasileiros.” “O Mark Clark é, como eu pensava, um comandante previsível. É lógico que entregariam o comando aos brasileiros agora que não tem mais o Belvedere.” “Temos também o dossiê dos brasileiros.” “Alguma novidade?” “Não, senhor. Tudo que está aqui já sabemos. Diz que o Moraes tem o desprezo dos americanos, e, ao que parece, também dos brasileiros. Acreditamos que os americanos esperavam um tipo de caudilho indiático, de bigodão, espalhafatoso. Diz que o Moraes é tímido, pequeno, sem carisma. O Crittenberg riu dele. Chamou-o de velho, mas o Vernon, diplomaticamente, não traduziu.” “Esse folclore não me interessa, Pfeffer. E sobre os outros?” “Aqui diz que o Zenóbio é voluntarioso, vaidoso e ambicioso.” “Parece a descrição de um dos nossos.” Os doze oficiais em torno a mesa riram polidamente. Cada um dos doze oficiais tinha medo do general Von Gablez. “O perfil do general Cordeiro é mais complexo, general. Ele é do tipo cerebral, gosta de intrigas, foi diversas vezes conspirador. Tem vocação de político. Foi inclusive governador nomeado de uma província do sul.” “Estado, Pfeffer, no Brasil chamam de estados. O Rio Grande do Sul. Tenho parentes lá.” “Tanto Zenóbio como Cordeiro são soldados experimentados em guerras, pelo menos em guerras civis, dessas que abundam por lá.” “Nossa Inteligência presume que o ponto principal do ataque será no flanco de Abetaia, Zolfa e Fálfare. Se eles se estabelecerem nesses lugares poderão tentar uma manobra mais contundente contra nós, comandante.” “Eles não vão se estabelecer por lá, coronel Pfeffer, porque não vamos permitir.” “Sim, senhor.” “Agora vou descansar um pouco. Me chamem se houver novidades. E vamos fortalecer a artilharia contra Abetaia. Não podemos perder o controle de Abetaia.” “Já ouviram falar de Abetaia?” perguntou o capitão Hézio, abaixado contra o barranco, trêmulo de frio, observando com certa surpresa, mas sem comentar, que a chuva tinha parado. “Abetaia é um aglomerado de casas miseráveis. Um dia foram lares confortáveis e aquecidos, mas agora quase todas as casas foram destroçadas pelas bombas, e para a gente chegar lá vai ter que passar por uma espécie de vale, uma depressão funda no terreno, e esse é nosso calcanhar de Aquiles” disse Hézio para o tenente Roberto e o sargento Amílcar. “Nosso o quê?” estranhou o sargento. “Nosso ponto fraco” explicou o tenente. “Aquiles era um deus grego cujo ponto vulnerável era o calcanhar.” “Conheço essa história, tenente, não sou tão burro assim, o senhor me desculpe, mas o que eu estranhei é porque esse lugar tem que ser nosso calcanhar de Aquiles se a gente pode muito bem dar uma volta maior e evitar esse corredor.” “Não temos como evitar esse corredor, sargento” disse o capitão Hézio, “as ordens são claras. Ou tomamos Abetaia ou o flanco esquerdo fica desguarnecido e aí toda operação vai por água a abaixo.” “Não podiam inventar uma tática mais flexível, capitão? O bombardeio já tá forte e nós ainda nem começamos a subida de verdade.” “Quando a gente voltar você tem permissão para ir questionar o Estado Maior, sargento, mas por enquanto vamos seguir a hierarquia e subir por essa trilha o mais rápido que a gente puder, porque o bombardeio vai ser fogo.” “Tô sentindo.” “Então mande a tropa se mover.” E o capitão Hézio deu o exemplo e galgou o barranco escorregadio, olhando o relógio, 6h30min, onde andará o pessoal da Primeira? O pessoal da Primeira Companhia rastejava na lama a 800 metros dali, totalmente silenciosos, e o capitão Bueno, que detinha o comando, pensava que precisava afastar esse pressentimento sombrio que persistia em se agarrar em alguma parte de sua coragem.  Pressentimentos sombrios são o pior inimigo do soldado antes de uma batalha e ele estava no comando e não podia sucumbir numa armadilha tão banal dessas, principalmente depois do fiasco da debandada do Onze. O fiasco da debandada do Onze ia ficar grudado nas suas vidas para sempre. Isso soava como aquelas frases idiotas com que os cadetes eram bombardeados na academia, mas era a pura verdade. A honra do regimento só seria lavada com sangue. Outra frase idiota, mas pura verdade. Eles debandaram não foi só por medo. O medo e a coragem são separados por uma linha fininha que quase não se vê. Atacar e fugir é quase a mesma coisa, só muda o ânimo. Naquela noite o ânimo era uma boa bosta. Estavam mal preparados. Psicologicamente mal preparados. Além de que estavam mal preparados de fato. Pronto. Começou a se justificar. E ele nem estivera lá na debandada. Não pode começar a se justificar. “Capitão.” Estremeceu. Ao lado dele o praça Quevedo. Esse praça tinha sido manejado para sua companhia com centenas de outros do Sampaio para ajudar a dar estabilidade moral para a Primeira. Outra humilhação. “Sim?” “Estamos indo direto para o corredor.” “Que corredor, praça?” “Bueno, o pessoal chama de corredor da morte.” O capitão Bueno tornou a estremecer, de súbita raiva contra esse rapaz desconhecido, que o encarava com um olhar dissimulado entre o deboche e a seriedade. “Que palhaçada é essa?” “É como chamam o lugar, capitão.” “Qual é teu nome, praça?” “Quevedo, capitão.” “Olha aqui, Quevedo, escuta bem: se tu abrir a boca outra vez pra fazer comentários idiotas como esse eu vou dar um tiro bem no meio da tua testa, ouviu? E se por acaso tu ficar vivo, eu te mando a conselho de guerra por covardia, ouviu?” “Sim, senhor, capitão, mas por covardia vai ser difícil me condenar porque eu sou de Uruguaiana.” Uma mão poderosa agarrou o soldado Quevedo pelo pescoço e quase o ergueu no ar. O sargento Nilson aproximou seus olhos fuzilando do rosto do praça Quevedo. “Olhaqui, estupor, cala a boca e sobe quieto ou eu juro pela minha mãe como vou te ferrar.” No Posto de Comando o general Mascarenhas de Moraes procurou o foco certo do binóculo, viu vultos se arrastando no meio da neblina que crescia. “Estão subindo, Brayner, estão subindo por enquanto, mas a cerração aumenta cada vez mais. Não vamos ter apoio da aviação.”

Planejando o Terceiro Assalto

31.

Mascarenhas, Zenóbio, Cordeiro de Farias e os oficiais do Estado-Maior, comandados pelo major Brayner, trocaram ideias diante dos mapas por mais de uma hora. “Tomando os vilarejos de Abetaia e Fálfare, que ficam bem próximos do topo do Monte Castelo, pelo lado esquerdo, poderemos suprir a falta de cobertura que esperávamos do Belvedere,” disse Zenóbio, mastigando seu charuto.  “Essa missão cabe a Terceira Companhia do Onze de São João del Rey, a Companhia do capitão... do capitão...” “Capitão Hézio” disse Brayner. “Isso. Me falaram bem desse rapaz.” “O capitão Hézio é um oficial correto. Ele não vai falhar.” “Espero que não. O Onze já nos criou um constrangimento internacional.” “Desculpe, Zenóbio, mas não vamos discutir o Onze nesses termos” disse Mascarenhas, “o melhor é entendermos com clareza esse quebra-cabeça, porque agora sim estão todos de olho em nós, aliados e inimigos.” “É um quebra-cabeça simples, comandante. Vamos mandar o Primeiro Regimento de Infantaria ter a honra de tomar a iniciativa do ataque, num escalão avançado. O 1º- RI vai estar desfalcado do seu Primeiro Batalhão e da Companhia de Obuses, que ainda não se recompuseram inteiramente dos danos. Na reserva, o Terceiro do 11º- Regimento de Infantaria e na cobertura de flanco teremos a volta á ação do Onze de São João del Rey, menos a Companhia do capitão Hézio, que vai executar a missão especial, especialíssima, de limpar a região de Abetaia e Fálfare.” Zenóbio soprou a fumaça para o ar e esperou. Ninguém parecia convencido. Zenóbio percorreu os olhares. “Naturalmente conto com a aviação, a nossa aviação, para bombardear o topo do morro enquanto subimos.” “Não há garantias de aviação, Zenóbio.” “Isso eu sei, mas se o comando do V não abortar a missão não importa se temos ou não aviação, ou munição ou seja lá o que for. Teremos que subir na marra e da melhor maneira que a gente puder. Não pensem que eu não sei onde estão nos metendo. Vamos tentar algo improvável que é pegar os alemães de surpresa, para isso vamos determinar de que não haverá preparação de artilharia, ouviu, general Cordeiro?  e nem um sinal para marcar o início da operação. As seis horas da manhã, cada pelotão, cada batalhão começa a subida, em silêncio, sem demorar um minuto, sem esperar ordens. E isso é tudo.” “Muito bem, senhores, para seus postos, e que Deus nos ajude.” O capitão Hézio escutou atentamente as ordens do seu comandante, o major Jacy. “Como está o ânimo, capitão?” “Forte.” “Muito bem, vamos tomar um café antes da subida. Depois, só se for cortesia do inimigo.” Há dois dias o capitão Hézio tinha conhecimento da missão, embora de maneira não oficial. Fora notificado para começar a se preparar interiormente (“espiritualmente, disse o Zenóbio” comentou o major Jacy com um risinho) e procurar conhecer os caminhos da região de Abetaia, vilarejo com quinze ou vinte casas todas esburacadas pelos bombardeios. Na verdade, todos achavam que o ataque seria abortado. Continuava chovendo sem parar, os caminhos pareciam riachos despencando lá das alturas e era quase impossível ficar em pé, tão escorregadia estava a lama. O major Jacy procurava esconder o nervosismo da melhor maneira que podia, servindo cafezinho para seus oficiais e contando novidades que tinha recebido do Rio de Janeiro. O campeonato carioca seria decidido nesse domingo, num clássico Flamengo x Vasco.  O capitão Hézio deu de cara com o capitão Uzeda, junto á mesa do cafezinho. “Então?” disse Uzeda. “Estamos voltando para o Castelo. Vou fazer a cobertura do flanco esquerdo.” “Do flanco esquerdo? Aquilo lá é um inferno, Hézio, abre o olho. Como está a moral da turma?” O capitão Hézio deu um sorriso triste. “Agora é que vamos saber. Depois da tropelia do dia 2 ficamos acantonados em Granaglione. Foram bons dias por lá. Fomos bem recebidos pela população, vi soldados comendo nas cozinhas dos moradores, sendo tratados como liberatori. A auto-estima melhorou um bocado, mas, agora, na hora da onça beber água, é que vamos ver mesmo como é que eles estão. Tenho o coração na mão, Uzeda.” “Não é para menos, todos estamos assim. Vai ser fogo.” Bebeu seu café, deu um tapinha nas costas de Hézio e saiu para a chuva fina e a escuridão. “Um italiano me disse que se a chuva parar pode começar a nevar” disse o major Jacy. “Nunca vi neve na minha vida” disse Hézio. Jacy consultou o relógio. “Está chegando a hora, senhores, vamos para nossas posições, os caminhões já estão carregados com as tropas, vamos partir.” Apertaram as mãos, Hézio ainda deu uma olhada para o interior da barraca onde havia calor de corpos e dos fogões com café e sanduíches. Para sair dali era importante não pensar no que os esperava. Um novo desastre? Ou a reabilitação, que era o desejo de todos, dos oficiais mais graduados ao pracinha mais jovem. A humilhação do dia 2 atingira a todos, e agora, dez dias depois, era dada a segunda oportunidade.  Subiram nos caminhões, vozes davam ordens ríspidas, alguém deu uma gargalhada ali perto e o comboio começou a se mover na madrugada escura. “Para onde vamos, sargento?” perguntou Pedrinho para Nilson. “Para a base da partida, vamos nos integrar ao Onze, são cinco horas, as seis em ponto começamos o ataque.”  “O Onze agora é o Laurindo” disse o Alemão. “Esqueçam essas palhaçadas, não riam do que não conhecem.” “Mas, sargento...” “Cala a boca e pensa no que tu vai fazer quando chegar lá em cima.” Os caminhões pararam, começaram a saltar para fora dele, começaram a formar uma fila longa na beira da trilha, a chuva caía sem parar, fina e gelada nas suas costas e nos capacetes, e eles começaram a subida, afundando as galochas na lama macia, escorregando, praguejando, olhando para cima e tudo o que viam lá em cima era a escuridão, a escuridão densa e doentia, de vez em quando estilhaçada por raios silenciosos. Apertavam os fuzis com os dedos gelados, respiravam fundo fazendo sair fumaça das narinas, procuravam se equilibrar para não levar um tombo e passo após passo os pracinhas mais uma vez foram subindo a montanha.

Terceiro Ataque ao Monte Castelo

30.

Antes de começar a reunião com o Estado-Maior o general Mascarenhas de Moraes se recolheu por instantes à cozinha da casa mais próxima, que estava abandonada, como todas as outras do vilarejo na subida da montanha. Ali era onde costumava se reunir com dois ou três oficiais de confiança e discutir os planejamentos das ações.  No momento, tudo o que queria era estar alguns momentos a sós. Ainda repercutiam em seus ouvidos as palavras ásperas de Crittenberger, meia hora atrás, traduzidas pelo oficial de ligação, o major Vernon Walters: “Esta é nossa última chance antes do inverno” disse Crittenberger, “ de cruzarmos os Apeninos.  A sua divisão terá mais uma oportunidade para redimir-se dos insucessos dos dias 24 e 25, general Moraes.” O diálogo entre os dois foi numa sala aquecida com lareira, no Hotel Continental em Porreta Terme, quartel general da FEB. “Redimir-se? O senhor me desculpe, mas nesses termos não posso aceitar a crítica. O insucesso não foi só da minha divisão, como o senhor diz, general Crittenberger.” “Não?” “Não, senhor. Foi do conjunto da operação. Ela não funcionou como um todo.” “Como não funcionou? Pode me explicar isso?” “O apoio da Divisão Blindada, a sua Divisão Blindada, general, não aconteceu. E a aviação, onde andava?  Ficamos isolados, general, e diante de um inimigo fortificado.” “Pois desta vez o planejamento é seu. Poderá usar sua artilharia e sua aviação como achar melhor.”  “General, nós não somos uma tropa de montanha. Inda estamos esperando uniformes para operar naquele terreno. Também não recebemos todas as armas prometidas. Precisamos de mais tempo para preparação.” “General, a ordem foi dada. Dentro de cinco horas vamos atacar mais uma vez.” E Mascarenhas lembra com mal estar o americano se dirigindo para a porta, parando e olhando-o com dureza: “Nas próximas dez horas queremos cruzar a Linha Gótica e iniciar a marcha para Berlim. Com os brasileiros ou sem os brasileiros.” Saiu, bateu a porta e assim estavam as coisas, Mascarenhas diante de uma janela que dava para a escuridão da madrugada, uma caneca de café frio na mão. Sentiu a presença nas suas costas, mas não se virou. Sabia que era Brayner. “Estamos esperando pelo senhor, general.” “Já vou, Brayner, já vou.” Despejou o café na pia. “É uma pena que esfriou. Temos que ser econômicos.” “Sim, senhor.” “Eu o vejo taciturno, major.” “O estado das coisas me preocupa, general.” “Tudo nesta guerra me preocupa, Brayner. Fale.” Brayner fica calado, olhando pela janela para a noite escura, como ele fizera a pouco. “Você está sofrendo por mim, Brayner. Isso me deixa lisonjeado.”  Se aproxima dele e busca seu olhar. “Mas você acha que eu estou sendo covarde.” “Não, mestre, nunca.” “Ou estão acha que eles me humilham e eu não reajo. Eu não reclamo o suficiente das condições que eles nos impõem. Brayner, raciocine comigo: para quem eu vou me queixar? Para Deus? Estamos na guerra, Brayner, E não escolhemos o jeito que esta guerra é. Podia ser uma guerra simples, como as nossas lá em casa, mas não é. Nossos chefes são de outros países e sabemos que eles nos menosprezam. Eu posso alegar, está no meu direito como soldado profissional, que não aceito essas condições para entrar em ação. Minhas razões seriam bem aceitas, preciso defender os meus homens. E desconfio que é isso que esperam de mim, daquele general velho e baixinho com cara de tonto.” Brayner apanhou um cigarro, pediu licença com um gesto, colocou-o nos lábios. “Agora me diga, Brayner: você quer que eu faça isso?” Brayner ficou com o isqueiro aceso bem próximo do cigarro. “Você acha que eu devo recusar a missão porque não temos a plenitude dos meios, major Brayner?” “Não, senhor.” Você conhece alguém que queira que eu aborte o ataque, Brayner?” “Não, senhor.” “Os praças, Brayner. O que você acha que eles pensam? Você acha que eles vão gostar de ir para a retaguarda e ficar ouvindo para o resto de suas vidas que não lutaram porque não tinham boas condições para isso? Não. Não vamos nos subestimar, Brayner. Não vamos acreditar no que a Quinta Coluna diz de nós. Nós sabemos quem somos. Vamos fazer mais sacrifícios, meu amigo... vamos fazer mais sacrifícios, mas vamos tomar esse morro.  Agora, para a reunião.” Saíram da cozinha pela porta que dava para o pátio, respiraram o ar cada vez mais frio. Dirigiram-se ao Posto de Comando, onde o esperavam os oficiais do Estado Maior e os generais Zenóbio da Costa e Cordeiro de Farias. O Posto de Comando fora improvisado num galpão, que também funcionava como estrebaria no inverno. A um canto vários burros dormitavam junto a três vacas, aquecendo-se mutuamente. Havia uma mesa improvisada com pranchões de madeira e um posto de rádio, com os operadores a postos. Aquele galpão fora escolhido porque dali, com a grande porta aberta, podia-se, quando o sol iluminasse a região, ver perfeitamente o objetivo. Cercado de nuvens e de raios e trovões que continuavam a estalar , o Monte Castelo parecia um grande monstro imperturbável, ignorando a inimigo e suas preocupações. “Senhores, mais uma vez recebemos a missão de tomar o Monte Castelo. Desta vez o comando do V Exército confiou em nós e nos deu plena autonomia para planejarmos a investida. Se vencermos, acho que poderemos passar o Natal em casa. O próprio general Mark Clark virá ao clarear do dia para nos dar as ordens finais de batalha.”  “Que venha” disse rispidamente Cordeiro de Farias, “ele sabe muito bem que não tomaremos Monte Castelo.” Todos os rostos mostraram surpresa.  “Por que o senhor diz isso, general Cordeiro?” perguntou Mascarenhas com imensa cautela. “Porque acabamos de receber a notícia, comandante, de que os americanos foram desalojados do Monte Belvedere.”  “O que? Quem deu a notícia? Quando foi isso?” “A notícia acaba de chegar, comandante. Foi do próprio comando aliado que veio a informação. Mas eles mantiveram a ordem, e foram bem claros: vamos atacar quando clarear o dia.” “Perderam Belvedere?” “Positivo, senhor.” Os homens ao redor da mesa ficaram calados, olhando para o comandante. “Bem” disse Mascarenhas, pausadamente “sem a cobertura do Belvedere, o Castelo é inexpugnável. Mesmo assim eles mantiveram a ordem?” “Sim, senhor.” “Então, senhores, vamos pensar como proceder para um ataque frontal funcionar sem a proteção do flanco esquerdo.” “É suicídio.” disse Cordeiro de Farias. Zenóbio deu um tapa na mesa. “O comando desta operação é meu, e eu penso que se tivermos  um bom apoio de artilharia, um apoio maciço e contínuo da artilharia para nos dar cobertura e um ataque aéreo simultâneo nas posições deles, a infantaria sobe, ah, eu juro pelo meu saco roxo que sobe.  Senhores, eu li num livro (não faça essa cara, major Brayner) li num livro, um romance, Beau Geste, onde um personagem diz: existem muitos soldados e poucas batalhas. Senhores, nós temos a nossa batalha, isso é um acontecimento sublime. Nós somos privilegiados.”