quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Frente a Frente com Getulio

43.


Quando o avião pousou no aeroporto de Nápoles, logo após a porta abrir e sentir o impacto do vento gelado no rosto, Brayner viu, ao pé da escada, o general Mascarenhas de Moraes. Fizeram continência, trocaram um discreto abraço e rumaram para o bar do aeroporto, onde se instalaram numa mesa a um canto. Pediram café. Brayner não notou o menor sinal de ansiedade no rosto taciturno do general comandante, a não ser o sorriso quase imperceptível que ele usava para acompanhar suas conversas nos momentos de crise. “Então, como ficaram as coisa por lá, a nosso respeito?”  “Em absoluta tranquilidade. O presidente manda lhe dizer que confia inteiramente na sua ação de comando e que não cogita nem admite sua substituição.”  E então Brayner viu o rosto do comandante expressar um alívio do mesmo modo imperceptível como o sorriso, fenômeno que sempre o deixava espantado. “Conte-me tudo.” Com pormenores tais como clima e cores da cidade distante, o coronel contou suas andanças no Rio de Janeiro, a tensa entrevista com o Ministro da Guerra, a visita a família dele, Mascarenhas, e a longa audiência com o ditador Getúlio Vargas, a quem ambos chamavam de presidente por pudor profissional. “Expliquei ao presidente com minúcias nossos passos aqui na Itália, general, não omiti nada. Ele foi direto; perguntou qual a restrição que os oficiais faziam ao senhor. Se era incapaz? Frouxo? Mau para os comandados? Respondi que até esta data a FEB não cedeu um só passo de terreno conquistado. Disse para ele: por caso recuamos para trás das extensas linhas que nos foram confiadas? Nunca. Deixamos, por acaso, alguma tropa americana exposta ao perigo, em virtude de recuo? Nunca. Houve alguma queixa dos comandos da 92ª. Americana ou da 6ª. Divisão Blindada Sul-Africana ou mesmo da Task Force 45 por termos deixado de cumprir preceitos de ligação ou solidariedade em combate? Nunca. Não conseguimos ainda tomar o Monte Castelo, e há boas razoes para isso, que não são compreendidas pelo general Crittenberg, comandante do IV Corpo, homem impaciente e até mesmo preconceituoso com os latinos. Mas não perdemos a consciência de nossos objetivos e acredito que –e eu disse com autêntica convicção-  se nos derem as condições que manifestamos diversas vezes, tomaremos a maldita montanha.” “Deus te ouça, Brayner. Assim vou para Lucca com mais tranquilidade.” “O que há em Lucca, general?” “Reunião com o Comando Aliado. Vamos discutir novo plano de ataque ao Monte Castelo.”  Brayner suspirou. “Na sua ausência estive algumas vezes com Mark Clark. Ele nos compreende bem melhor do que o Crittenberg. Ele não disse claramente, mas deu a entender, que a Task Force fracassou em suas tarefas e nos arrastou com ela. Me apresentou ao general George Hayes, comandante da 10º. Divisão de Montanhas. Conversei muito com esse general. Contei a ele pormenorizadamente todos os ataques. Contei tudo. Ele ouviu e entendeu. Ele me disse: a 10º.  é uma tropa recrutada e adestrada na região das Montanhas Rochosas. Temos um imenso respeito pelas montanhas. Compreendo as dificuldades que os senhores estão encontrando. Olha, Brayner, acho que vamos ter um parceiro a altura. Tenho fé de que agora vamos subir até o topo e ninguém nos segura.” E assim, naquele final de inverno em Lucca, o Comando do IV Exército e o Estado Maior da FEB traçaram um longo e minucioso plano de ataque ao Monte Castelo. O general Crittenberg teve o privilegio de escolher o nome da operação, e sua ironia foi certeira. “Encore” disse ele. “Como os senhores devem saber, encore em francês quer dizer ainda ou mais uma vez. Me parece um nome apropriado.” Nem todos apreciaram o humor do general, mas o nome foi oficializado e centenas de oficiais brasileiros e americanos durante dias e noites elaboraram cada detalhe da operação Encore. Uma das premissas era verificar a ordem de batalha do inimigo, e para isso foram intensificadas as patrulhas buscando contato e aprisionamento de alemães. “Brayner” disse Mascarenhas na madrugada de 19 de fevereiro, aquecendo as mãos próximo a um fogão a lenha “seria negar a evidência dos fatos não reconhecer nossa preocupação com o moral da tropa, particularmente o 1º. Regimento de Infantaria, o que mais sofreu com o clima de maldição que se criou com a montanha, mas eu acredito nos comandantes dos três batalhões. São homens corajosos.” “Sem dúvida, general. Falei longamente com o coronel Caiado de Castro e com os majores Uzeda e Franklin. Estão confiantes, seguros, e loucos para ir a forra.” “Muito bem, mas não vamos perder a cabeça. Não se trata de uma vendeta, mas de uma operação militar.” “Pedi um relatório sobre o estado da tropa e recebi um muito otimista, general. Estamos prontos.” Na noite de 19 de fevereiro, exatamente as 20 horas, uma patrulha comandada pelo sargento Nilson, em ação silenciosa, ocupou uma casa de pedra assobradada, bem diante do Monte Castelo. Um pouco antes já tinham sido ocupadas outras duas casas, todas próximas ao monte, sem que os alemães se apercebessem. As três casas dominavam todo o vale do Silla. Dali se tinha um amplo visual sobre a zona de ataque. Com extrema cautela foram transportadas para as casas e montadas pelos especialistas ligações telefônicas e de radio. As 20:30 hs o general Mascarenhas de Moraes, o coronel Brayner e seu Estado Maior e os oficiais adjuntos se esgueiraram através da escuridão e entraram na casa assobradada. Ali funcionaria o Posto de Comando da FEB. As outras duas casas ocupadas serviriam de Postos de Observação. Nessas casas seria centralizada toda a rede de informações, sob o comando do tenente coronel Amaury Kruel. O oficial de ligação designado junto a 10º. Divisão de Montanha foi o major Alcyr de Ávila Melo. Tudo estava pronto. Na base de partida do ataque o general Zenóbio deu o sinal para o inicio da missão. Os comandantes de batalhão, Caiado, Uzeda e Franklin acionaram seus capitães. Os tenentes e os sargentos foram passando a ordem de avançar. Pedro Diax, com a perna remendada, o gago Atilio, o alemão Wogler, o cabo Quevedo, o negro Bandeira e aquela multidão silenciosa de soldados começaram a subir a montanha maldita, mais uma vez.

A Neve Não Para

42.

O segundo sargento Bóris era comunista de carteirinha. Isso causava certa estranheza entre os praças. Eles sabiam que havia muitos comunistas no esquadrão, até mesmo alguns oficiais, mas o segundo sargento Bóris tinha aquele jeito de padre e nenhum medo de dizer que era comunista, mesmo para o sargento Nilson, que ficava vermelho de brabo cada vez que ouvia isso. Se tinha coisa de que o sargento Nilson não gostava era de comunista. Depois que pegaram o segundo sargento Bóris falando com um dos comandantes da resistência italiana, “todos comunistas” segundo o sargento Nilson, no mais coloquial e fluente italiano, a estranheza em torno dele aumentou. O segundo sargento Bóris trazia em sua mochila livros e mais livros. O cabo Quevedo gostava de colocar a mão sob a mochila do segundo sargento Bóris, avaliar seu peso e sacudir a cabeça. Logo se descobriu que o segundo sargento Bóris, além de engenheiro, sabia falar vários idiomas (ali estava ele falando com os partigiani como se fosse em português) e não parava de rabiscar coisas misteriosas numa caderneta de capa preta. Isso não era de estranhar porque havia uma quantidade enorme de praças, sargentos e oficiais que rabiscavam secretamente seus diários. O sargento Nilson andou resmungando alguma coisa como “esses espiões comunistas filhos duma égua” mas o fato é que a postura do segundo sargento Bóris era inatacável. Era o mais profissional, o mais atento, o mais disponível para a ação e o trabalho. Passava a maior parte do tempo cochichando nos cantos com os guerrilheiros italianos, é verdade, e não gostava de se abrir. Então, numa daquelas noites geladas, (a neve não parava) ele disse: “Os aliados entregaram os partigiani.” O quê? Como?  Estavam na cozinha de uma das últimas casas da rua principal de Gaggio Montano, de olho na sopa que fervia, cercados pela numerosa família de agricultores. “Vocês não viram que pararam de lançar suprimentos para os guerrilheiros? Há quanto tempo não passa um avião e não larga um paraquedas com víveres e armas ou munição? Desde que o general Alexander discursou na rádio, agradecendo a ajuda deles mas dizendo que o inverno ia ser muito forte e era melhor dispersarem. Isso mesmo. Dispersarem. Mas dispersar para onde? Para suas aldeias, suas casas e colocar o risco de suas famílias serem massacradas?” A voz de Bóris era suave e controlada, mas os donos da casa perceberam que os outros soldados se inquietavam, que seus olhos se concentravam no sargento que falava. “O que os guerrilheiros vão fazer com as pessoas que estão com eles, pilotos abatidos que recolheram, prisioneiros que conseguiram escapar, agentes de ligação, como vão esconder e manter o arsenal se não puderem sobreviver nas montanhas? Sabem o que estavam me dizendo ainda hoje? Que já saiu na ordem do dia do comando alemão na Itália e das forças fascistas que os aliados vão dar um desafogo na Linha Gótica. Que agora eles não vão se preocupar mais com americanos e brasileiros, mas somente com os guerrilheiros italianos. A fala de Alexander foi como um sinal para os alemães, entenderam? Vai começar a temporada de caça de guerrilheiro em grande escala. Por obra e graça do grande comandante dos aliados.” Havia um silêncio incômodo na pequena cozinha. O gago Atílio começou a sentir mais forte o calor que emanava do fogão a lenha. “Mas não é a primeira vez que eles fazem isso. Eles me contaram uma coisa de estarrecer. Em maio deste ano, quando do avanço dos americanos a partir de Anzio, e com a necessidade de transpor os montes Aurunci, uma tropa de marroquinos, em torno de 600 homens, comandados por oficiais franceses, recebeu ordem de avançar sem parar pela região, muito difícil e escarpada. Para estimular os mouros foi distribuído um folheto em árabe, pelo próprio comando da tropa, onde dizia que do outro lado daquelas montanhas encontrava-se um vale de belezas extraordinárias, com mulheres sensuais, pomares e vinho. Quando eles chegassem lá, tudo, mulheres, comida, bebida, tudo seria deles durante 50 horas. De 17 a 25 de maio o horror se instalou na região. Os marroquinos estupraram centenas de mulheres, de jovens, de crianças, torturaram os homens, mataram com extrema crueldade o pároco da vila de Esperia. Só nessa vila de Esperia 700 mulheres foram violentadas e a maioria delas foi contaminada pela sífilis. Mark Clark soube e chamou a atenção do comando do Corpo Expedicionário Francês, mas já era tarde e não havia mais o que fazer, e afinal, os marroquinos receberam ordens dos seus oficiais.” A dona da casa começou a servir a sopa fumegante em pratos de alumínio e os foi passando de mão em mão. Comeram em silêncio, olhando pela janela a neve cair sem parar na noite escura, enquanto o coronel Brayner olhava pela janela do avião que aterrissava no Rio de Janeiro a esplêndida manhã de sol. Brayner tinha tomado pílulas para dormir durante a viagem e sua sinistra calma voltara, agora que estava desperto e antecipava na pele o calor da cidade. Ninguém o esperava no aeroporto, a viagem era secreta. Apanhou um taxi e rumou para casa, pensando na mulher, no susto que ela ia levar, antevia o esforço que ela faria para não chorar e se mostrar valente. Esses pensamentos o emocionavam enquanto via aquela cidade que amava ir passando, enquanto via o perfil dos morros, o reflexo do mar cintilando, jovens de bicicletas nas praças e o trânsito alegre e caótico. Ali não havia guerra. Estranhamente ali não havia guerra nem frio nem solidão nem desespero nem medo. O que calava bem fundo dentro dele, porém, era aquela calma de antes da tempestade, banal e verdadeira tanto na literatura quanto na vida. No dia seguinte ele iria estar frente a frente com o Ditador, com aquele homem estranho que ele não conseguia compreender, e de quem dependeria o destino dos seus companheiros de guerra. Era a pior missão que já recebera e ele teria que saber falar com Getúlio. A FEB dependia desse encontro. Fechou os olhos e ficou imaginando a cidade, ficou imaginando os olhos de Maria quando ela o visse descer do taxi diante da pequena casa branca na Vila Militar. 

A Defensiva de Inverno

41.


“Tomamos Gaggio Montano dos alemães no dia 20 de novembro, já estamos chegando ao último dia do ano e nada da gente arredar pé de Gaggio Montano. Pra dizer a verdade tô até gostando desta vilazinha.” “Gostando, Bandeira? Isto aqui é o fim do mundo.” “As pessoas são simpáticas, todos nos cumprimentam e abrem suas casas para nós.” “Abrem suas casas para nossas provisões, Bandeira, não seja ingênuo.” “Pode me chamar do que quiser, é gostoso repartir com quem precisa esta gororoba que é nossa ração, é gostoso a gente ficar conversando numa cozinha quentinha com o fogão aceso.” “É gostoso ficar olhando para as italianas.” “As vezes elas deixam a gente dar um beijinho.” Ninguém mais ria, as conversas eram um tédio, rondava em todas as mentes a ameaça do descontrole  do impulso sexual agora que não havia mais distrações como a possibilidade de subir a montanha para um ataque em massa. Essa era uma hipótese totalmente descartada. Tudo que podiam fazer era suspirar e esperar, olhar as mulheres da vila, suspirar e esperar. Gaggio Montano estava totalmente coberta pela neve. Gaggio Montano era um amontoado de casas no alto da montanha, bem ao pé da elevação pontuda que tinha o enigmático nome de Monte Castelo. Os moradores diziam que antes ali havia um castelo, quando os brasileiros conseguissem subir até lá em cima, onde estão os alemães, eles veriam as ruinas do castelo. Uma semana antes dos brasileiros tomar Gaggio Montano os alemães promoveram um massacre em represália á morte de um soldado pelos partigiani. Foi uma ação fria e cruel. Setenta pessoas foram arrebatadas de suas casas,  a maioria eram velhos e mulheres, e foram obrigados a cavar uma longa cova, longa e profunda, a menos de 100 metros da rua principal e depois ficaram todos em fila, trêmulos de pavor, quando o pelotão de fuzilamento se colocou diante deles. O padre Giordano chegou correndo e se ajoelhou na frente do tenente que comandava o pelotão de fuzilamento, mas levou um pontapé da pesada bota na boca. O rosto do padre de 25 anos se encheu de sangue. Ele viu o esguio tenente apontar a Luger para ele e esboçou o gesto do Sinal da Cruz mas o tenente apertou o gatilho e o padre de 25 anos caiu para trás. Dois soldados o arrastaram pelos pés e o jogaram na cova. Uma gritaria irrompeu da fila de velhos e mulheres. No mesmo instante seus corpos foram cravejados de balas e foram tombando um a um, dentro da cova. Agora a neve tapa a cova, agora os alemães fugiram da cidade e se instalaram nas grimpas mais altas dos Apeninos e soldados brasileiros, morenos, negros, pardos, vagam pela vila, não sabem o que fazer para afastar o tédio e o frio e a desesperança que a enorme montanha despeja sobre eles. Quevedo, o negro Bandeira que tinha dado baixa do hospital, o gago Atílio e o segundo sargento Bóris estavam sentado junto a um fogão, espiando de vez em quando pela janela. Nevava. Nevava sem parar a dez dias. Quevedo falou olhando pela janela: “Hoje em dia não tem mais carga frontal, dando grito e reboleando o facão como no tempo antigo.” Todos olharam para ele. “Meu pai me contava da revolução de 30, ele participou de muita carga á cavalo, dando grito e reboleando o facão.” Bóris sorriu. Esse tal cabo Quevedo sempre o surpreendia.  “E eu sei por que dava pra fazer uma carga frontal contra o inimigo, reboleando facão e tudo, o que é uma coisa de homem. É que antigamente, no tempo do meu pai, as balas vinham mais devagar, dava tempo pra o cidadão se abaixar, hoje em dia essas metralhadoras, essa tal de Lurdinha é uma  um despropósito de bala em cima da gente, não dá nem pra sair da frente. A guerra perdeu o seu lado humano, como diria aqui o companheiro Bóris.” “A guerra não tem nada de humano, gaúcho, eu nunca disse isso.” “Não disse mas devia, um homem que anda o tempo todo carregando essa tonelada de livros devia dizer uma coisa do tipo.” “Me poupe de sua ironia de troglodita, cabo Quevedo.” “Opa, ofendi o homem. Desculpe, camarada Bóris, eu me recolho á minha ignorância, não falo mais. Vou ficar aqui de boca bem fechada, olhando essa nevezinha cair.” O segundo sargento Bóris sacudiu a cabeça, perplexo. O cabo Quevedo ainda resmungou, enigmático: “O segundo time do Ferro Carril ganha essa guerra sozinho.” Bem nesse momento o coronel Brayner chegava ao aeroporto de Pisa. Ele sabia que estava tomado duma calma fora do comum, afinal estava voltando ao Brasil em missão especial do general comandante, teria sua amada Maria nos braços por algumas noites quentes do Rio de Janeiro, afinal lá era pleno verão, e aqui essa neve, essa neve que não para. O jipe o deixou na calçada, ele entrou no grande prédio, abrindo a pasta para apanhar os documentos que devia apresentar. Em dez horas veria o Rio de Janeiro. Mas não estava excitado nem ansioso. Essa calma que o dominava era mau sinal. Estavam a beira de um precipício onde cairiam todos eles, mas principalmente o exército como instituição, o Brasil como nação, todos eles, oficiais brilhantes ou não, como seres humanos derrotados e fracassados. Ele não tinha condições de reverter o quadro. Teria uma audiência com Getúlio Vargas mas não sabia em que isso poderia ajuda-los. Sentiu um frio na barriga quando o avião levantou voo, estava voltando para o Brasil e tudo o que levava no peito era amargura e desesperança.

O Natal de 44

40.


O fogo na lareira aquecia a sala toda, os rostos estavam corados e a grapa começava a soltar as línguas. A neve caía sem parar lá fora. Para os homens ali reunidos isso  dava um sabor nostálgico para aquele evento. Eram todos católicos. A neve em dezembro era um símbolo cultural patético  e deprimente, mas a mesa montada para a celebração de Natal no hotel onde funcionava o QG da FEB estava festiva. No centro, o comandante em chefe, general Mascarenhas de Moraes, e de cada lado dele os generais Zenóbio e Cordeiro de Farias. Diversos oficiais completavam a mesa, em torno de quinze, e havia um convidado especial, o major Vernon Walters, o oficial de ligação e intérprete, que tanto participara das tensas conversas com Crittenberg. Vernon se debruçou sobre Mascarenhas e sussurrou: “Folgo em ver que os oficiais de seu Estado Maior não farão as mesmas queixas do visconde de Taunay contra o conde d´Eu, na guerra do Paraguai, general.” “E que queixa foi essa, major?” “A de que não participava da mesa do conde, sendo seu ordenança imediato. E isso que Taunay tinha título de nobreza.”  Cordeiro entrou na conversa. “O conde d´Eu era conhecido por ser um oficial pedante, major.” “E eu sou conhecido por ser um oficial pelo duro de São Gabriel” disse Mascarenhas. Ele sabia que Vernon e Cordeiro de Farias eram profundos conhecedores de História Militar, e gostava de ouvir suas trocas de ideias e discussões sobre fatos do passado.  Zenóbio e Brayner, lado a lado, trocavam confidências em voz baixa. “Recebemos a munição, Brayner. Finalmente nossos amigos americanos se lembraram de nós.” “Amigos, general?” “Ué, aliados não são amigos?” “Não necessariamente. Tenho minhas dúvidas, general. É preciso verificar o estado dessa munição.” Mascarenhas ouviu um resto da frase e pareceu se lembrar de algo. “Major Vernon” disse, “o segundo e o terceiro escalão estão a um mês na Área de Instrução e o material para equipar as unidades ainda não chegou. O que eu devo fazer, major, na sua opinião? Enviar um comando para conseguir esse material?”  Vernon sorriu sem graça. “O próprio general Mark Clark me informou ontem que já ordenou a entrega do material, general.” “Major Vernon” disse Cordeiro de Farias “sinto me meter nesse assunto, mas meia hora atrás eu li o relatório de campanha e descobri que esse equipamento está a disposição desde que o segundo escalão chegou.” “Há um entrave na entrega dos materiais fundamentais para o adestramento da tropa que chega a ser suspeito, major.” “Compreendo sua frustação, general. Vou insistir com o general Mark Clark.” “Obrigado, major. Agora, senhores, não quero mais ninguém fazendo perguntas indiscretas ao major Vernon. Ele é nosso convidado e o estamos deixando constrangido. É noite de Natal, vamos afastar os maus presságios.”  Mau presságio é o que o sargento Nilson sentiu quando viu alguém rastejando na neve e se aproximando do buraco onde estava. Engatilhou a arma mas quem apareceu na sua frente foi o cabo Quevedo. “Tá de serviço, sargento?” Nilson olhou para ele desconfiado. “Por que? E o que você faz aqui?” “Nas noites de Natal baixa em mim o Papai Noel. Tá de serviço ou não?” “Tô sempre de serviço, cabo.” “Então, infelizmente, não vou poder lhe passar este elixir dos deuses, que os italianos chamam de graspa. Sinto muito, sargento.” E já ia se afastando quando o sargento o apanhou pelo coturno. “Espera aí, mandrião. Deixa essa garrafinha aqui.” Quevedo alcançou o cantil para ele. “Um gole só, sargento, a distribuição é racionada.”  Nilson bebeu um gole fundo. “Não fica bem um sargento beber em serviço” disse Quevedo. Estava fazendo mais de 15 graus abaixo de zero, a neve não parava de cair e ali naquele buraco estreito, o fox-hole como se acostumaram a chamar, se apertavam além do sargento Nilson os praças João Wogel e o gago Atílio. A graspa passou de mão em mão, voltou para Quevedo. “Missão cumprida, vou indo para a próxima chaminé.” E viram-no rastejar na neve em direção ao próximo buraco. Todos estavam de branco. Agora que os grandes movimentos de tropa estavam cancelados pela dureza do inverno e a rotina da guerra se restringira a ações de patrulha, havia outra desvantagem em relação aos alemães. Eles usavam fardamento inteiramente branco, o que os tornava invisíveis e aptos para ataques de surpresa. Os brasileiros logo se deram conta da enorme desvantagem. Os prometidos uniformes de inverno não chegavam e foi preciso mais uma vez improvisar. Tudo que era possível transformar em um camisolão branco para enfiar por cima da farda verde-negra foi mandado para as unidades da linha de frente. Então vieram aventais de médicos, enfermeiras, cozinheiros, barbeiros, e vieram lençóis, fronhas, tudo que era branco e podia ser transformado nos camisolões que os soldados que saíam em patrulha ou montavam guarda nos fox-holes enfiavam por cima do uniforme. Eram com esses remendos improvisados que os pracinhas faziam sua camuflagem para se igualar aos alemães na nova modalidade de guerra que começavam a enfrentar. Quevedo chegou noutro fox-hole. A grapa correu de mão em mão. “Ei, Quevedo, pensei que tu ia trazer uma italiana pra nós.” “Essa grapa é italiana, pra ti é mais do que suficiente.” “Ei, Quevedo, conheci um americano que quer me vender um jipe. Quer que eu te apresente?” “Quero. Eu tenho comprador. Quem é o americano?” “Um cara da Decima Divisão de Montanha, um baita dum gringo, diz que o jipe tem os quatro pneus novos.” “Deve ser mentira, mas me apresenta pro cara que eu tenho comprador. Agora me devolve o cantil que eu vou seguir em frente.” Quevedo apanhou o cantil, tomou um gole, viu que acabara, derramou as últimas gotas na palma da mão, apanhou outro cantil, pendurou-o no ombro e seguiu sob a nevasca, arrastando-se em direção ao próximo buraco.

O Inverno da Nossa Desesperança

39.


“Essa montanha vai nos devorar a todos” pensava o sargento Nilson olhando num misto de encanto e terror para a neve que começava a cair. Não era mais aquela coisa fininha do dia anterior. Agora eram flocos gordos, uma imensa cortina branca se acomodando silenciosa sobre a terra, cobrindo-a sem pressa. “Deu no rádio para nos preparamos, vai ser o inverno mais brabo do século” disse o alemão Wogel. “Balela” resmungou Nilson, sentindo que não controlava seu mau-humor, quando viu a figura se movendo no meio da neve que caía. Apontou a arma e esperou até ele estar bem perto e reconheceu aquele paulista meio maluco, o Pereira, que saíra sozinho no meio da noite sem avisar ninguém. Pereira se jogou ao lado dele, recebeu com gula a xícara de café e bebeu um gole. “Achei o capitão” disse. “Arrastei ele pra um lugar seguro. Preciso de uma padiola para trazer ele para cá.” Assim, o Pereira guiou dois padioleiros até onde estava o capitão Bueno, e acompanhou seu resgate até vê-lo se colocado num jipe e levado para o Hospital de Campanha.  Pedrinho viu quando o capitão Bueno entrou carregado numa maca na grande tenda, e viu quando foi cercado por médicos e enfermeiras. Viu os rostos preocupados, ouviu os sussurros, esse está bem mal, coitado, tem o pulmão furado pelas costelas. Mas os olhos e os ouvidos de Pedrinho buscavam outra coisa bem diferente. Buscavam a enfermeira Virginia, tão etérea e loura e elegante, que sorria para ele de modo enigmático toda vez que se aproximava. Naquele segundo dia no hospital o praça Pedro Diax começou a sofrer de um mal que não conhecia, e que se manifestava cada vez que a enfermeira Virginia entrava na tenda. Ela andava sempre ágil e leve, séria e afável, e só ria mesmo quando as enfermeiras Dulce e Zoé se aproximavam dela e cochichavam esses segredinhos de mulher que as faz explodir em risadas. Cada vez que Virginia ria Pedrinho corava, porque o riso dela lhe despertava uma urgência sexual que ele não controlava, e em um momento da manhã, quando ela trouxe as duas pílulas que tinha de engolir, percebeu que ela notava o indecente volume embaixo do cobertor. Seus olhos se encontraram e ambos coraram ao mesmo tempo,  e Pedrinho teve vontade de puxar a coberta para cima da cabeça, mas a voz de Virginia saiu firme e natural: “Suas pílulas, soldado.” Esperou que ele as engolisse, quase se afogou em sua angústia, e depois se afastou, altaneira, sacudindo as ancas de modo quase imperceptível, para maior desgraça exatamente do jeito que Pedrinho mais gostava.  A 200 metros dali as preocupações do comandante em chefe eram de outra ordem. Estava em reunião com os generais comandantes Cordeiro de Farias e Zenóbio da Costa e com o chefe do estado-maior, major Brayner, agora promovido a coronel, e o tema de suas preocupações eram as humilhantes e rancorosas medidas que o general Crittenberg estava tomando contra a FEB. “Não vou aceitar de modo algum sermos relegados para a retaguarda, como se fôssemos um bando de covardes” dizia Mascarenhas. “Já solicitei uma reunião com o Mark Clark e vou dizer tudo que tenho de dizer. Não podemos ser os culpados de todos os fracassos. Eles vão ter de usar a tão louvada capacidade de auto crítica, e não ficar jogando a culpa unilateralmente contra nós.” “O Mark Clark já respondeu?” “Ainda não. Mas vamos agir. Vamos nos preparar para subir mais uma vez essa montanha. Vamos exigir as armas e o fardamento acertados nos acordos entre os dois países. Vamos intensificar os exercícios e estudar mais e mais a geografia da região. Se esse inverno for como dizem vamos todos ficar imobilizados. Eu tenho uma missão para o senhor, coronel Brayner, no Brasil.” Nesse momento, o sargento Nilson foi abordado por outro sargento. “Terceiro-sargento Bóris, da Central de Tiro. Você é o sargento Nilson?” “Ele mesmo.” “Tenho ordem para que me guie até um ponto onde possa fazer medições para tiro.” “Medições, é?”  “É. Sou engenheiro, sargento, e vou fazer cálculos de tiro. Sou o que chamam de controlador vertical.” Quevedo, que estava ali perto, deu um assobio um tanto debochado de admiração. “Puxa vida. Era isso que estava faltando para a gente ganhar a guerra. Um controlador vertical.” Deram risadas ao redor, mas Nilson não gostou. “Quevedo, é você quem vai acompanhar o sargento Bóris na missão. Escolhe dois imbecis igual a ti e escoltem o sargento até um ponto que ele ache satisfatório.” “Com essa neve toda, sargento?” “Agora, cabo Quevedo.” “Sim, senhor, mas essa neve está se transformando em tempestade, nós não recebemos instrução de como se comportar em tempestade de neve.” “Você aprende rápido, Quevedo, isso não é problema.” E assim, com um suspiro, Quevedo, promovido a cabo depois que arrastara Pedrinho pela gola de volta ás linhas, chamou o alemão Wogel e o gago Atílio, “dois perfeitos imbecis como o sargento mandou” e começaram a subir a montanha completamente branca, seguidos pelo terceiro-sargento Bóris e um praça negro de nome Adroaldo. Depois de 15 minutos de subida, Bóris pediu para parar um pouco. Estava sem fôlego. Sentou numa rocha e olhou ao redor. Tudo completamente branco, e a neve caindo compacta. “Vamos ficar imobilizados se a neve não parar.” “Não vai parar, sargento, é o que dizem.” “Se isso for verdade, do jeito como estamos preparados, este é o inverno de nossa desesperança.” O gago Atílio olhou para o terceiro sargento Bóris. “O-o-o que f-f-foi s-s-sar-gento?” “Nada, praça.” “F-f-falou aí um n-n-negócio estranho.” “Citei William Shakespeare, meu amigo. Henrique III.” O cabo Quevedo preparou seu sorriso mais mordaz, apanhou um cigarro e estendeu-o para Bóris. “Foi o que eu falei. O sargento Bóris é um reforço de peso. Agora, sim, vamos ganhar esta guerra.”

O Espírito da Montanha

38.


O capitão Bueno percebeu que a nevasca tinha parado porque uma estrela brilhava no céu, bem em cima dele. Depois viu outra estrela, depois outras. A visão das estrelas lhe deu um fugaz consolo, algo como a certeza de que o universo continuava sua rotina, indiferente á insanidade humana. Um gosto amargo na boca o fez cuspir, e cuspiu sangue. Uma golfada vermelha, manchando a terra agora branca. Lembrou que tinha sede. O bornal se fora em algum momento. Na densa escuridão que descera sentiu um breve surto de pânico ao entender que estava desorientado, mas imaginou que as linhas brasileiras ficavam á sua esquerda, e começou a se arrastar nessa direção. As dores aumentaram, notou que uma fraqueza se alastrava por todo seu corpo, apoiou os dois joelhos no chão e foi desabando lentamente até que rolou num pequeno barranco e foi abraçado pela água gelada de um arroio. O sargento Max, a 200 metros dele, rastejava com seus três voluntários. Escolhiam cuidadosos o terreno, cutucando os corpos estendidos. “Só vamos levar quem estiver vivo” dissera o sargento, “os mortos enterraremos depois.” Mas eles já tinham cutucado uns oito corpos e todos estavam rígidos e insensíveis. O sargento Max, que tinha sido chefe de polícia no Paraná, começou a sentir em suas costas o peso da maldita montanha. Entre os praças já corria a história de que o sargento Max não tinha medo de nada, mas a verdade é que o sargento tinha medo do espírito que habitava aquela montanha: Max sentia que era um espírito mau, esquivo, gelado e desafiava com perverso prazer aqueles brasileiros raquíticos a que o dominassem. O sargento Max tinha a suspeita, bem escondida, de que nunca dominariam a montanha. O espírito dela os engoliria um por um, ficariam perdidos como o capitão Bueno, e morreriam padecendo dores terríveis na mais completa solidão. Como era pesada a solidão daquela montanha! Deitado no chão, o sargento Max percorria com o olhar o terreno imerso na escuridão, e ouvia ruídos noturnos raros e desconhecidos. Ouvia sussurros e gemidos. Ouvia o vento que cortava seu rosto barbudo. Precisava encontrar o capitão Bueno. Precisava salvar alguns dos rapazes que ficaram para trás. Precisavam, todos eles, de alguma pequena vitória contra a montanha, qualquer uma e por menor que fosse, mas precisavam de uma vitória para os homens não se entregarem ao desespero completo. O desespero rondava, desde o mais graduado oficial até o pracinha recém desembarcado. Se o desespero se estabelecesse seria o fim. O major Brayner pensava que a decisão do comandante em chefe de viajar para o Rio de Janeiro e renunciar ao cargo era fruto do desespero completo, aliado aquela dignidade endurecida que Mascarenhas vestia como outro uniforme.  A madrugada se arrastou com café e cigarros, frases amargas e a resolução de que Mascarenhas esperaria os acontecimentos se encaixarem com mais firmeza para então tomar, se fosse o caso, uma decisão drástica.  O que o comando faria era buscar o general Mark Clark para uma conversa franca. “Vamos botar as cartas na mesa, general Mascarenhas. Não é possível que fiquem nos levando na conversa, nos ameaçando com a desonra, nos deixar na retaguarda, sem olhar para os fatos reais que determinaram esta derrota.” “Não vamos fugir dos nossos erros, major, mas não vamos admitir o fracasso como sendo coisa só nossa, quando tudo começou com os atrasos e equívocos dos americanos.” “Para mim o mais grave é que os alemães sabiam do ataque” disse Zenóbio. “Como eles sabiam, por quem eles sabiam é que me intriga.”  Mascarenhas olhou para os caminhões e jipes se organizando para transportar os feridos que chegavam.  Pedro Diax estava entre eles. Quevedo o tinha arrastado montanha abaixo, puxando-o pela gola da japona. Quando chegaram na base e foram acudidos pelos padioleiros, Pedrinho se agarrou ao braço de Quevedo. Pedrinho tremia. Os padioleiros o fizeram soltar e Quevedo viu lágrimas nos olhos do rapaz, desespero e incredulidade. Aquilo chocou Quevedo. Ele gostava da companhia de Pedrinho, sua calma sem empáfia, o jeito sereno com que amadurecia e assimilava os horrores que tinha de enfrentar. Foi colocado dentro dum jipe que arrancou em direção ao hospital. Foi descido numa padiola e levado com rapidez para dentro de uma grande tenda. Uma enfermeira se debruçou sobre ele. “Calma, soldado, nós vamos cuidar de você. O capitão já vem te examinar.”  Foi colocado sobre uma mesa dura. A enfermeira rasgou a calça dele na altura da coxa e olhou com ar crítico. “Vamos consertar isso.” Pedrinho olhou para ela: olhos azuis, o cabelo louro atrás da touca com a cruz vermelha. Um rosto bonito, de ascendência inglesa, ou de anjo. Conhecia essa enfermeira de algum lugar. Talvez daquela tarde de domingo no Rio de Janeiro, sim, sim, sim, quando com o gago Atílio e o alemão Wogler foram ao Estádio das Laranjeiras assistir Fluminense x Botafogo. Pedrinho olhou para ela com intensidade, a enfermeira sentiu o olhar e seus olhos se encontraram. Ela disse: “Sou Virginia” no exato momento em que o soldado Pereira, ordenança do capitão Bueno, viu a patrulha do sargento Max voltar á base. Os quatro homens chegaram e se jogaram no chão, exaustos e derrotados. Estavam nessa lida desde as 6 horas do dia anterior, praticamente 24 horas sem dormir nem descansar nem se alimentar razoavelmente.  O ordenança Pereira olhou para eles durante alguns momentos, depois apanhou sua metralhadora e enfiou no ombro. Encheu o bornal de granadas, tomou um gole de água do cantil e começou a se afastar. O ordenança Pereira ia desafiar o espírito da montanha. Não ia deixar seu capitão agonizando ou morto sozinho naquele breu.  Mal deu alguns passos sentiu o peso da maldição. A montanha parecia maior. O Monte Castelo parecia mais gelado, mais íngreme, mais escorregadio. Mas o ordenança Pereira fora criado numa fazenda em Pirapora. Não tinha medo do escuro nem da solidão.  Foi avançando abaixado, como rastreador, vencendo os obstáculos do caminho, decidido a voltar com o capitão Bueno. Ou não voltar.

Um Certo Sargento Max

37.


Enquanto um certo sargento Max e um tal cabo Leite e os soldados Manoel e Lima Barbosa se arrastam na lama tentando se convencer que não são idiotas e que o capitão Bueno merece seu sacrifício o general Mascarenhas examina contra luz o perfil árido do general Crittenberg. O general Mascarenhas percebe que começa a se encher de um rancor pouco razoável contra o americano. Com Brayner, Zenóbio e Cordeiro de Farias tinha feito um levantamento minucioso das ações do dia, e dos motivos que levaram á retirada. Do ponto de vista da lógica militar a retirada era a única opção cabível. Crittenberg recebeu as alegações sem mudar a expressão, que apresentava um sutil esgar de desprezo. E quando falou foi para dizer: “A única coisa de que os senhores me convenceram é de que o soldado brasileiro não tem capacidade ofensiva.” “Não posso concordar com isso, general” disse rapidamente Mascarenhas. “Foi lamentável o desempenho dos brasileiros. Comprometeram todo nosso esquema. Por culpa de vocês vamos passar o inverno do lado de cá dos Apeninos, enquanto nas outras frentes os exércitos avançam rumo a Berlim.” “Continuo discordando, general Crittenberg.  Isso não é verdade em hipótese alguma.” “Essa é a lamentável verdade, general. Missão de ataque não é para os senhores. O seu exército não tem capacidade ofensiva. Foi um erro do general Mark Clark dar-lhes uma responsabilidade dessas. Os seus soldados são fracos, não tem saúde, não sabem combater. Seus oficiais não tem liderança, são relapsos, entregam tudo aos sargentos. E o resultado de tanto desleixo se vê na frente de batalha.” “Definitivamente não aceito suas palavras, general. Já demostramos que nossos aliados não cumpriram nem o começo de sua missão, deixando-nos flanqueados desde a partida. O comando insistiu em manter a operação mesmo depois de a Força Aérea informar que não tinha condições de decolar.” “São desculpas, general. O senhor sabe muito bem que suas tropas debandaram em presença do inimigo alguns dias atrás.” “Minhas tropas, não, general. Foi uma companhia, totalmente flanqueada, sem apoio aéreo, que marchou para campo aberto nessas condições e hoje isso se repetiu. E essa tropa de que o senhor fala, o senhor deve saber que era uma tropa fresca, recém chegada, sem experiência de combate, sem nenhuma adaptação ao campo de batalha, com armamentos deficientes, uniformes inadequados para o terreno, que ficou exposta ao fogo inimigo e retraiu um tanto desordenadamente. Não aceito o termo debandada em nenhuma condição. E os oficiais envolvidos no episódio foram afastados e o oficial comandante está sendo investigado e, se realmente tiver responsabilidade, será julgado em corte marcial.” “Esses são problemas de vocês. Quanto a mim, vou solicitar ao Alto Comando para retirá-los de suas posições atuais, general. Daqui para a frente a FEB só receberá missões na retaguarda.” Os quatro brasileiros sentiram o golpe, Brayner conseguiu articular: “Permissão para falar.” Mas Crittenberg tinha feito uma rápida continência e se afastou pisando forte, seguido pelos seus ordenanças, no momento exato em que o capitão Bueno despertava do seu torpor e ouvia passos, bem pertinho. Uma patrulha, pensou, talvez sejam brasileiros, talvez venham me resgatar. O capitão Bueno se contorceu em meio a dores para poder olhar e o que viu o deixou ainda mais enregelado: um alemão se deslocava de uma casamata para outra, em sua direção. Quando passava por um corpo, cutucava-o com a ponta da metralhadora, empurrava-o com o coturno. Descobriu um soldado ainda vivo, retirou a pistola do coldre e disparou na nuca. O tiro deu um susto no sargento Max, que rastejava seguido pelos três companheiros, a 500 metros dali. Ficaram imóveis, tentando saber o que tinha acontecido, mas ainda estavam muito longe e viram apenas um alemão se aproximando do corpo caído do capitão Bueno, ficar contemplando-o alguns instantes, e depois se abaixar. O capitão Bueno sentiu a respiração e o cheiro do alemão curvado sobre ele. Trancou completamente a respiração. Percebeu que ele mexia no seu coldre, percebeu que ele apanhava sua pistola, depois ficava em pé. Agora vem o tiro. Depois de alguns instantes, o alemão se afastou em direção a outro corpo. O tiro não veio. Ainda caía aquela saraiva gelada, agora com menos intensidade. Max olhou o alemão se afastar e disse: “É impossível chegar onde o capitão está. A região é totalmente deles. Não temos a menor chance. Vamos esperar pela noite.” E começou a rastejar de volta, quando os dois generais brasileiros, Mascarenhas e Cordeiro de Farias, olhavam de binóculo para a grande montanha. “Um velho ditado árabe diz que sob ataque uma montanha fica duas vezes mais alta e mais forte.” Mascarenhas olhou para Cordeiro, tentou desvendar no tom de sua voz seu verdadeiro estado de ânimo, mas Cordeiro era esquivo de nascença. “Como está o Zenóbio?” “Arrasado. Ele sabe que a culpa é dele.” “A culpa é minha, Cordeiro. Eu autorizei, eu aceitei os termos do ataque.” “É dele porque ele incentivou a decisão. É culpa da arrogância, da ânsia de glória.” “Sabia que ele estava cego, queria que ele abrisse os olhos, e ainda havia esse rumor de que o Salgado Filho trazia minha demissão do comando. Eu me deixei levar, e quem pagou foram aqueles rapazes mortos. Eu fraquejei foi quando admiti a hipótese de atacar sem apoio aéreo. Deveria ter enfrentado o americano nesse momento.” “Eles nos mentiram.” “Eles não param de nos mentir, Cordeiro, mas que vão nos afastar da frente de batalha é verdade. Eles precisam de um culpado.” “Eles não podem fazer isso.” “Podem.” Baixou o binóculo e olhou para Cordeiro de Farias. “Não será uma humilhação para o Zenóbio. Ou para mim. Será para o nosso exército, para nosso país. Amanhã vou tomar um avião para o Rio de Janeiro. Vou pedir minha demissão. Vou cortar  isto pela raiz.”  O sargento Max olhava para a crista da montanha, que começava agora a ser tomada pela sombra. Durante a tarde a tênue nevasca tinha parado, as nuvens escuras sumiram e o céu brilhava azul, até que o sol sumiu atrás do pico mais alto. A sombra se espalhou sobre os homens estendidos no chão, observando a terra-de-ninguém. O sargento Max disse: “Essa montanha tem um espírito. Se ele nos agarra, adeus.” “Como é sargento?” “Nada. Vamos começar a avançar. Precisamos tirar de lá o capitão Bueno.” E o sargento Max e seus três voluntários começaram em silêncio a rastejar na direção dos corpos caídos, lá adiante, todos imóveis e cobertos daquela farinha branca e gelada que descera do céu.